“A finalidade da espiritualidade inaciana é ajudar as pessoas a fazerem a experiência pessoal de Deus”

O individualismo é um fenômeno complexo e ambíguo. Nele se concentram as bênçãos e as maldições da modernidade. Por um lado, em sua origem, o individualismo carrega promessas que continuam configurando atualmente nossos desejos: liberdade, autonomia, independência, desenvolvimento do eu, felicidade do indivíduo. Por outro lado, o individualismo destrói o mundo comum dos vínculos sociais e não cumpre as pro-messas, deixando-nos num deserto de desenraizamento e solidão.

Diante da insegurança de ficarmos sozinhos em nossa própria capacidade de juízo, olhamos para ver o que fazem e pensam os outros; com isso, nos fazemos mais dependentes da opinião pública em relação com o que se deve pensar, o que se deve fazer, o que se deve ver, o que se deve comprar. Resultado: o indivíduo autônomo, autossuficiente e buscador de felicidade, que se concebia a si mesmo sem necessidade dos outros e acre-ditava ter seu destino em suas próprias mãos, viu-se mais frágil e limitado do que pensava. Emancipado da tradição, do costume e dos antepassados, foi ficando sem raízes, centrando-se em si mesmo e fechando-se na solidão de seu próprio coração.

O problema espiritual do individualismo não está no fato de que os bens buscados – liberdade, felicidade, autonomia, pensamento próprio – sejam maus, senão no modo de buscá-los: o indivíduo se torna absoluto a si mesmo e se converte em sua única referência. O desejo de “ser filho de si mesmo” configura um sujeito espiritual problemático. Para um sujeito auto-criado, auto-justificado e auto-salvado, ficam sobrando Deus, Cristo, os outros e a Igreja. Ele se conformará com vagas formas de espiritualidade portadoras de bem-estar emocional, sustento para manter os ideais sobre si mesmo. No contexto do individualismo, o interesse por Deus, pelo outro e pela espiritualidade não se perde. No entanto, a solicitude pelo outro ou a relação com Deus se mantém como interesses do eu. Para o indivíduo moderno, tudo, inclusive aquilo que é mais sagrado, pode converter-se em objeto de preferência pessoal.

– Como viver a fé neste contexto?

– Como é possível a experiência inaciana do encontro com Deus numa sociedade individualista?

O primeiro passo para uma autêntica experiência espiritual é acolher nossa humanidade e a realidade que nos toca viver; reconhecer que em nossa cultura há vida e enfermidade, que este é o contexto que nos é oferecido para viver nossa relação com Deus, a partir da fé e acolhendo Sua graça. Não se trata de lutar contra nosso mundo, senão de conhecê-lo para advertir de suas armadilhas. Este é o nosso contexto, nele temos de viver, e nele há de ser possível encontrar o Senhor. “Somos nós” a sociedade individualista: não podemos imaginar-nos forma dela para atuar sobre ela. Não podemos abstrair-nos de viver no mundo que vivemos. São estas, e não outras, as tendências que nos afetam à hora de escutar o Espírito e viver a fé.

O encontro com Deus se dá no mundo e na vida tal como são.

Não nos é pedido criar umas condições ideais. Acolhendo o contexto em que vivemos como uma situação de graça, e reconciliando-nos com a situação que nos toca viver, talvez possamos recuperar a promessa germinal da passagem moderna para a consciência e para a experiência pessoal. Não somos nós que levamos Deus à sociedade, Ele já está lá. Quando vivemos como Atlas, sustentando o mundo sobre nossas costas, nosso mundo parece mais pesado de carregar e nos esgota. Quando, pelo contrário, descobrimos que há um amor que nos precede e aceitamos a graça de viver n’Ele, nosso mundo se oferece como o lugar no qual viver o dom que nos é dado. Encontrar Deus não consiste em realizar um esforço titânico para superar as condições adversas da sociedade, mas deixar Deus ser Deus, acolher seu dom e deixar-nos conduzir por Ele com fé.

Da experiência de amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus, nasce uma espiritualidade radicalmente mundana, de contemplação do mundo e de ação no mundo. Libertado da relação egoísta com as criaturas, o ser humano torna-se um orante e um cooperador permanente do projeto de salvação de Deus.
Quem vê o mundo assim, com um olhar singular e universal, amoroso e esperançado, libertador e integra-dor, torna-se um contemplativo na ação. Quem contempla, ama e serve assim vive enraizado no mistério da vida trinitária e, ao mesmo tempo, mergulhado na sociedade de seu tempo. A finalidade da espiritualidade inaciana é ajudar as pessoas a fazerem a experiência pessoal de Deus, vivendo e agindo no mundo. Por isso ela será sempre atual.

Texto Bíblico: Gn 4, 1-16

Na Oração: Rezar o que se passa no meu interior a partir da leitura.

 

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