Ricardo Alvarenga
No texto anterior desta série, terminamos nossa reflexão com uma pergunta: ter mais canais significa necessariamente comunicar melhor? É justamente a partir dessa inquietação que vamos conversar neste último texto da série de reflexões semanais sobre comunicação e juventudes que compartilhei aqui, na seção de artigos do MAGIS Brasil. Partimos de um contexto em que nunca tivemos tantas possibilidades de entrar em contato uns com os outros como atualmente. Mensagens atravessam distâncias em segundos, reuniões acontecem entre pessoas que estão em cidades diferentes, imagens circulam quase instantaneamente e nossas instituições dispõem de redes sociais, aplicativos, formulários, canais digitais e grupos de mensagens para chegar às pessoas e, particularmente, às juventudes.
Diante disso, precisamos nos perguntar: estamos, de fato, nos comunicando ou apenas distribuindo informações? A pergunta pode parecer contraditória. Afinal, se conseguimos enviar uma mensagem, receber uma resposta, acompanhar aquilo que alguém publica e participar dos mesmos ambientes digitais, alguma comunicação certamente acontece. O problema começa quando transformamos essa possibilidade técnica de conexão em prova suficiente de que construímos uma relação comunicacional.
Thomas Tufte, ao analisar, em seu artigo Juventude, Comunicação e mudança social, as relações entre juventudes, comunicação e mudança social, já chamava atenção para uma espécie de “celebração acrítica” dos modos como os jovens se envolvem com as novas mídias. Criatividade, interatividade e participação são possibilidades reais desses ambientes, mas não podem ser analisadas separadamente das desigualdades sociais e culturais que atravessam as experiências juvenis.
Talvez seja esta, então, a última provocação que gostaria de compartilhar no fechamento da série: não confundir a presença o uso da tecnologia com a existência da comunicação. Existe certa esperança de que cada nova tecnologia finalmente resolva problemas antigos de comunicação. Mais velocidade, mais alcance, mais canais e mais interatividade parecem prometer também mais proximidade e compreensão.
Quando a conexão parece resolver tudo
Dominique Wolton, em Informar não é comunicar, nos ajuda a desconfiar dessa equivalência. Como já mencionamos nos textos anteriores, para ele a grande questão contemporânea já não é simplesmente produzir e transmitir informações. O problema está na relação com o outro. Por isso, afirma que a revolução da comunicação “não é a da mensagem, mas da relação” (p. 15). Há uma imagem utilizada pelo autor, já recuperada nesta série, que me parece particularmente apropriada para pensar nossas experiências digitais: “Sonhava-se com a aldeia global. Estamos na torre de Babel” (p. 15).
Podemos estar no mesmo grupo de WhatsApp e não nos compreender, seguir alguém diariamente nas redes sociais e conhecer muito pouco daquilo que efetivamente vive ou enviar centenas de mensagens e continuar incapazes de construir diálogo. Podemos até utilizar as mesmas palavras e atribuir a elas sentidos completamente diferentes. É por isso que talvez seja importante distinguir as duas coisas: a conexão coloca dispositivos em contato, enquanto a comunicação coloca sujeitos em relação.
É justamente aí que reaparece aquilo que discutimos no primeiro texto desta série: a incomunicação. O outro não é um ponto final para aquilo que desejamos transmitir. Ele interpreta, seleciona, questiona, discorda, resiste e responde a partir de sua própria experiência. Nenhuma tecnologia elimina essa alteridade. André Lemos, no artigo Sobre o fal(h)ar: cultura digital, precariedade e Antropoceno, contribui para essa reflexão ao sustentar que “a comunicação humana resulta de processos frequentemente erráticos e falíveis. Ela é sempre precária” (p. 96). Para ele, “a precariedade é intrínseca a todo e qualquer processo comunicacional” (p. 96).
Isso significa que uma plataforma pode funcionar perfeitamente, a internet pode estar estável e a mensagem pode chegar em segundos. Ainda assim, nenhuma dessas condições técnicas garante que duas pessoas consigam construir entendimento. Talvez tenhamos resolvido muitos problemas de transmissão sem necessariamente resolver os problemas da relação. A técnica aumenta extraordinariamente nossa capacidade de chegar ao outro, mas não elimina o trabalho comunicacional de reconhecer sua diferença, negociar sentidos e construir alguma possibilidade de convivência.
Usar tecnologia significa compreendê-la?
Há outra ideia bastante presente quando falamos sobre juventudes: a de que os jovens dominam naturalmente as tecnologias porque nasceram cercados por elas. Mas será tão simples assim? João Alegria oferece uma formulação particularmente provocadora ao afirmar que “navegar com facilidade nas telas não significa compreender as lógicas invisíveis que moldam narrativas e produção de sentido nos ambientes digitais” (Juventude digital, desafios reais. 2025). A frase desmonta uma equivalência bastante comum, porque usar não significa compreender, frequência não significa domínio e ter conexão não significa possuir letramento digital ou capacidade crítica para compreender os ambientes nos quais passamos parte considerável de nossas vidas.
João Alegria também observa que “o acesso e a frequência de uso da internet estão longe de assegurar o desenvolvimento de habilidades operacionais e críticas no ambiente digital” (Juventude digital, desafios reais. 2025). É por isso que defende a educação midiática e o letramento digital como dimensões fundamentais da formação cidadã. Essa reflexão encontra eco em uma pergunta formulada por Tufte (Juventude, Comunicação e mudança social: negociação, navegação e narração da vida de jovens em uma realidade glocal. p. 57): “As novas mídias sociais realmente estão dominando as vidas dos jovens hoje, e, em caso positivo, as vidas de todos os jovens?”
Mais uma vez, o plural permanece importante. Como discutimos no segundo texto desta série, existem juventudes. As condições de acesso, os dispositivos utilizados, a qualidade da conexão, as competências digitais, o território, a escolarização, a renda e as experiências culturais produzem formas muito diferentes de habitar os ambientes digitais.
Estar conectado em uma residência com fibra óptica, computador próprio e formação para avaliar criticamente informações não corresponde à mesma experiência de acessar a internet exclusivamente por um aparelho celular, com pacote limitado de dados e poucas oportunidades de formação digital. Muitos de nós, inclusive, já fomos surpreendidos por aquela mensagem da operadora telefônica informando que utilizamos 100% do pacote de dados. É um exemplo aparentemente banal, mas que ajuda a lembrar que nem toda conexão acontece sob as mesmas condições.
Por isso, a pergunta não pode ser apenas se os jovens estão conectados. Precisamos perguntar também como estão conectados, em quais condições, com quais conhecimentos e com quais possibilidades de transformar conexão em expressão, participação e cidadania. Só então conseguimos deslocar o debate da presença meramente técnica da internet para as condições sociais, educacionais e comunicacionais que definem aquilo que os sujeitos conseguem fazer nesses ambientes.
Quando as plataformas também entram na relação
Existe ainda outro elemento que frequentemente desaparece quando imaginamos a comunicação digital apenas como uma conversa entre duas pessoas: as próprias plataformas. André Lemos, em As profundas transformações na cultura digital, afirma que “a cibercultura contemporânea se transformou numa grande máquina de extração de dados” (p. 140). O autor relaciona essa transformação à plataformização, à dataficação, ao monitoramento e à atuação de sistemas algorítmicos sobre diferentes dimensões da vida social.
Isso significa que, quando nos comunicamos nesses ambientes, não estamos simplesmente utilizando um canal vazio. As plataformas possuem arquiteturas que selecionam, recomendam, hierarquizam, registram, classificam e transformam nossas ações em dados. É nesse contexto que Lemos, recuperando o conceito de infopower, de Colin Koopman, escreve uma frase inquietante: “Somos muitas coisas, mas somos nossos dados” (As profundas transformações na cultura digital. p. 141). A experiência digital, portanto, não acontece apenas entre um jovem e uma tela. Entre os sujeitos existem empresas, interfaces, algoritmos, bancos de dados e modelos econômicos que também participam das condições nas quais a comunicação acontece.
Vivemos, nesse sentido, em uma cultura algorítmica, na qual esses sistemas balizam as relações sociais, o conhecimento e nossa própria relação com o mundo (As profundas transformações na cultura digital. p. 143). Talvez isso exija que ampliemos uma das perguntas do texto anterior. Quando refletíamos sobre escuta institucional, perguntávamos quem formula as perguntas, quem define a agenda e quem toma as decisões. Agora precisamos acrescentar outras questões: quem organiza aquilo que vemos, quem define o que aparecerá primeiro, por que determinado conteúdo nos é recomendado e quais interesses participam da organização dos ambientes em que construímos nossas relações?
Reconhecer essas mediações não significa demonizar a tecnologia. Significa abandonar a ideia de que ela seja neutra. Como brinca o ditado popular, “neutro, só o sabão”. A tecnologia também pode reproduzir nossa velha régua, porque as mesmas assimetrias que atravessam nossas relações fora das plataformas podem ganhar novas formas dentro delas.
A tecnologia também pode reproduzir nossa velha régua
Esse reconhecimento produz outro desafio para quem acompanha juventudes. Diante dos riscos do mundo digital, nossa reação adulta pode rapidamente tornar-se prescritiva: definir quanto tempo o jovem deve permanecer conectado, explicar quais plataformas deveria utilizar, estabelecer aquilo que deveria consumir, decidir o que é perigoso e apresentar as formas que consideramos “corretas” de habitar esses ambientes.
É aqui que o adultocentrismo, discutido no segundo texto da série, pode reaparecer com outra roupa. A experiência adulta volta a funcionar como régua e talvez seja necessário recuperar outra pequena palavra que nos acompanhou naquele texto: com. Como ensina, Paulo Freire “a educação autêntica […] não se faz de ‘A’ para ‘B’ ou de ‘A’ sobre ‘B’, mas de ‘A’ com ‘B’, mediatizados pelo mundo” (Pedagogia do oprimido. p. 48).
O acompanhamento das juventudes no universo digital precisa assumir justamente esse movimento. Não se trata simplesmente de decidir para os jovens como utilizar a tecnologia ou apenas explicar aos jovens quais são seus perigos, mas de construir com eles critérios éticos, formas de cuidado, práticas de participação e capacidades de interpretação crítica. Isso de modo algum elimina a responsabilidade adulta. Como discutimos anteriormente, autoridade não precisa significar autoritarismo. A experiência de quem acompanha continua importante. O problema começa quando acreditamos que nossa experiência é suficiente para interpretar um mundo que também estamos tentando compreender.
Talvez nunca tenha sido tão necessário admitir que as juventudes não precisam apenas aprender conosco a habitar o mundo digital; nós também precisamos aprender com elas o que significa viver nesse mundo. Isso não significa uma inversão simplista na qual os jovens passam a saber tudo sobre tecnologia e os adultos nada sabem. Significa reconhecer que estamos diante de experiências geracionais distintas e que o diálogo pode ser mais fecundo do que a simples prescrição.
Quando alcance e engajamento não significam responsabilidade
Há ainda uma dimensão dessa reflexão que não podemos ignorar. As plataformas nos ensinaram a medir praticamente tudo: seguidores, curtidas, visualizações, compartilhamentos, comentários, cliques, tempo de permanência e engajamento. Esses dados possuem valor, especialmente para quem trabalha com comunicação. O problema aparece quando passamos a tratá-los como indicadores suficientes da qualidade da relação que está sendo construída.
Um perfil pode acumular milhões de seguidores, alcançar públicos gigantescos e produzir enorme engajamento sem estabelecer qualquer relação de corresponsabilidade sobre aquilo que comunica ou sobre as consequências sociais dos conteúdos colocados em circulação. O crescimento das bets, as plataformas de apostas on-line, talvez seja um dos exemplos mais inquietantes dessa contradição no Brasil contemporâneo. Elas ocupam intensamente os ecossistemas digitais, articulando publicidade, esporte, entretenimento, influenciadores e lógicas próprias das plataformas. Nesse cenário, uma recomendação feita em uma rede social pode alcançar milhares ou milhões de pessoas em poucos minutos.
Uma reportagem publicada pelo g1, em agosto de 2026, ajuda a dimensionar o fenômeno. Segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborada pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef), as famílias brasileiras tiveram uma perda líquida estimada de R$ 62,5 bilhões com apostas em 2025. O valor corresponde à diferença entre os recursos enviados às plataformas e aquilo que retornou aos apostadores na forma de prêmios. O estudo também estimou cerca de R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix relacionadas ao setor naquele ano.
É importante fazer uma distinção: esses números não nos autorizam a responsabilizar diretamente influenciadores digitais por essas perdas nem a estabelecer uma relação causal que o levantamento não investigou. O que eles nos ajudam a perceber é algo fundamental para esta reflexão: os conteúdos digitais possuem consequências que ultrapassam suas métricas de circulação.
Quando um influenciador recomenda uma plataforma de apostas, por exemplo, não existe apenas uma mensagem sendo entregue a uma audiência abstrata. Existe uma relação anterior de visibilidade, identificação, proximidade e, muitas vezes, confiança. É justamente essa dimensão que transforma o problema em uma questão comunicacional. As plataformas podem nos informar quantas pessoas visualizaram, clicaram ou compartilharam determinado conteúdo, mas essas métricas não respondem sozinhas a perguntas sobre a relação mobilizada para produzir determinado comportamento, sobre a responsabilidade que acompanha a capacidade de influenciar o outro ou sobre as consequências sociais daquilo que colocamos em circulação.
O caso das bets evidência, assim, uma das grandes armadilhas da cultura digital: confundir aquilo que conseguimos medir com aquilo que realmente importa na comunicação. Alcance não é sinônimo de vínculo, engajamento não é sinônimo de participação e influência não elimina responsabilidade. Uma mensagem pode ser extremamente eficiente do ponto de vista da circulação e, ao mesmo tempo, profundamente problemática do ponto de vista da relação que constrói com quem a recebe.
Estar conectado também não significa participar
A tecnologia também não elimina as assimetrias que discutimos no terceiro texto desta série. Uma instituição pode possuir Instagram, TikTok, WhatsApp, aplicativos, canais digitais, transmissões ao vivo e inúmeras formas de interação e continuar comunicando de maneira profundamente vertical. Podemos modernizar as ferramentas sem modificar as relações: um questionário digital continua sendo pouco participativo se todas as perguntas já chegam prontas; uma enquete pode produzir milhares de respostas e não alterar nenhuma decisão; uma live pode receber centenas de comentários e continuar funcionando apenas como transmissão; e um perfil pode acumular milhares de seguidores sem criar qualquer espaço de corresponsabilidade.
Isso nos leva a mais uma pergunta importante, especialmente para instituições que acompanham juventudes: estamos utilizando tecnologias para ampliar a participação ou apenas para tornar mais eficientes as mesmas formas de comunicação que já praticávamos? É neste ponto que Thomas Tufte oferece talvez uma das contribuições mais fecundas para encerrarmos nossa reflexão. O autor reconhece que “os jovens são inovadores ao se envolverem com novas mídias e formatos de comunicação, gêneros e culturas” (Juventude, Comunicação e mudança social: negociação, navegação e narração da vida de jovens em uma realidade glocal. p. 60).
Essa constatação muda o lugar atribuído às juventudes. Elas não são apenas públicos a serem alcançados, nem somente consumidores, muito menos simples seguidores. Tufte observa que os ambientes midiáticos contemporâneos são contextos nos quais os jovens navegam como “produtores e usuários inovadores e criativos” (Juventude, Comunicação e mudança social: negociação, navegação e narração da vida de jovens em uma realidade glocal. p. 62). Jovens que consomem e atuam nas mídias podem também participar como cidadãos críticos, utilizando esses espaços para expressar preocupações, participar do debate público e atuar socialmente.
Nesse sentido, é importante olhar para experiências nas quais as juventudes articulam, também no digital, referências globais, realidades locais e críticas às condições sociais, políticas e econômicas que atravessam suas vidas. Nesses casos, a mídia deixa de ser apenas algo consumido pelos jovens e torna-se espaço para narrar suas próprias vidas, produzir críticas e disputar sentidos sobre a realidade. No Brasil, podemos encontrar experiências que ajudam a tornar essa reflexão mais concreta. A Mídia Indígena, por exemplo, articula comunicadores indígenas e utiliza diferentes linguagens e plataformas para produzir narrativas a partir dos próprios territórios. Em sua preparação para a COP30, a rede previu uma produção multimídia e multiplataforma, com atuação em TikTok, YouTube, Instagram, Kwai, Facebook, X, rádios comunitárias, podcasts e boletins, além do fortalecimento de uma rede nacional envolvendo jovens, mulheres e lideranças indígenas. Aqui, a tecnologia deixa de funcionar apenas como canal de distribuição e passa a participar de uma comunicação produzida pelos próprios sujeitos, a partir de suas experiências, identidades e territórios.
Algo semelhante pode ser observado, a partir de outra perspectiva social e política, no Levante Popular da Juventude. A organização se apresenta como um movimento formado por jovens com atuação em territórios, escolas, universidades e movimentos sociais e atribui à comunicação popular, à arte e à cultura um papel importante em sua mobilização. Em documentos próprios, o Levante afirma buscar uma atuação que combine “as ruas e as redes” e utiliza diferentes linguagens comunicacionais para dialogar com as juventudes e difundir suas pautas. Nesse caso, as redes digitais não substituem a organização presencial, mas são incorporadas a um processo mais amplo de produção e circulação de sentidos.
Essas experiências ajudam a perceber uma diferença importante para aquilo que estamos discutindo. Não se trata apenas de jovens presentes nas plataformas, mas de juventudes que procuram utilizá-las para narrar suas próprias experiências, disputar representações, produzir conteúdos e participar do debate público. É nesse movimento que a conexão pode começar a transformar-se em algo mais: o jovem deixa de ser apenas destinatário e passa a produzir sentidos; deixa de aparecer somente como consumidor ou fornecedor de dados e passa a ocupar também o lugar de autor e interlocutor.
A tradição latino-americana da Comunicação para a Transformação Social, lembra Tufte, foi construída em torno de conceitos como voz, participação, mobilização social, conscientização, diálogo e comunicação horizontal. Talvez sejam justamente esses elementos, e não apenas os números oferecidos pelas plataformas, que precisamos observar quando perguntamos se estamos realmente nos comunicando.
Acompanhar é comunicar
Chegamos, então, ao final desta série. Começamos refletindo sobre a incomunicação e descobrimos que comunicar não significa produzir concordância. Encontrar o outro significa também encontrar alguém que pode interpretar de maneira diferente, discordar e resistir àquilo que desejamos transmitir. Depois, encontramos o adultocentrismo e perguntamos o que acontece quando nossa experiência deixa de ser uma contribuição e transforma-se em régua para medir a experiência juvenil. Percebemos, assim, que acompanhar também não significa produzir cópias de nós mesmos.
No terceiro texto, deslocamos o olhar para a escuta institucional e vimos que permitir que jovens falem não significa necessariamente garantir participação. Perguntamos quem formula as perguntas, quem define a agenda e o que nossas instituições fazem com aquilo que dizem escutar. Agora chegamos às tecnologias e percebemos que também aqui precisamos resistir às respostas fáceis, porque mais canais não significam necessariamente mais comunicação, mais velocidade não significa mais compreensão, mais seguidores não significam mais participação e mais conexão não significa, necessariamente, mais relação.
Ao longo destes quatro textos, talvez tenhamos chegado sempre ao mesmo ponto por caminhos diferentes: comunicar exige reconhecer a existência do outro como sujeito. Um sujeito que interpreta, pode discordar, possui sua própria experiência, formula perguntas, participa das decisões, produz sentidos e também pode nos transformar. Por isso, talvez a expressão que sintetize melhor aquilo que tentamos construir ao longo desta série seja justamente aquela que apareceu desde o início de nossas reflexões: acompanhar é comunicar.
Não porque a comunicação seja apenas uma habilidade necessária ao acompanhamento, uma ferramenta a ser dominada ou um conjunto de técnicas que precisamos aprender a utilizar melhor. Acompanhar alguém significa entrar numa relação marcada por escuta, alteridade, diálogo, negociação, reconhecimento e produção compartilhada de sentidos.
As tecnologias podem ampliar as possibilidades desse encontro, aproximar pessoas distantes geograficamente, criar novas linguagens, permitir que vozes antes invisibilizadas circulem e fortalecer experiências de participação, mobilização e cidadania. Mas não conseguem realizar sozinhas aquilo que permanece profundamente humano: reconhecer o outro e construir relação afetiva e efetiva com ele.
Por fim, para manter uma pequena tradição que construímos ao longo destes quatro textos, gostaria de terminar também esta reflexão com uma pergunta: em um mundo no qual podemos permanecer permanentemente conectados, ainda estamos dispostos a realizar o trabalho, muito mais exigente, de verdadeiramente nos colocarmos em relação com o outro e, assim, nos comunicarmos?
Referências:
ALEGRIA, João. Juventude digital, desafios reais. Stanford Social Innovation Review Brasil, 16 set. 2025. Disponível em: < https://ssir.com.br/juventude-digital-desafios-reais/>. Acesso 18 set. 2026.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
G1. Bets tiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025, aponta estudo. g1 Economia, 6 ago. 2026.
LEMOS, André. As profundas transformações na cultura digital. Entrevista concedida a Krishma Carreira. PAULUS: Revista de Comunicação da FAPCOM, São Paulo, v. 5, n. 10, p. 139-144, jul./dez. 2021.
LEMOS, André. Sobre o fal(h)ar: cultura digital, precariedade e Antropoceno. TECCOGS – Revista Digital de Tecnologias Cognitivas, n. 31, p. 94-107, 2025.
TUFTE, Thomas. Juventude, Comunicação e mudança social: negociação, navegação e narração da vida de jovens em uma realidade glocal. Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 33, n. 2, p. 51-72, jul./dez. 2010.
WOLTON, Dominique. Informar não é comunicar. Tradução de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2011.







