Democracia como cuidado: dignidade, acolhimento e visibilidade para todas as juventudes 

Compartilhe :
Facebook
Email
X
LinkedIn
WhatsApp

Luis Rabello via MAGIS Brasil

Em um ano marcado pela efervescência das escolhas eleitorais, somos convidadas e convidados a refletir sobre o que realmente sustenta a nossa convivência. Com frequência, a democracia é reduzida ao gesto mecânico de votar. No entanto, sua verdadeira essência pulsa na capacidade de uma sociedade reconhecer e proteger a dignidade de cada pessoa, especialmente daquelas que vivem nas periferias geográficas e existenciais. Viver a democracia é um exercício contínuo de cuidado. Significa compreender que as juventudes não são um bloco único, mas um mosaico de existências diversas e, infelizmente, marcadas por profundas desigualdades. Quando afirmamos que o cuidado é a base do sistema democrático, propomos que a política recupere seu sentido mais nobre, em conformidade com a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (n.26): ser uma ferramenta indispensável para a busca do bem comum e para a proteção da vulnerabilidade humana.

A dimensão política da vida dos grupos historicamente excluídos, em especial das juventudes LGBTQIA+, revela-se no cotidiano da ocupação de espaços e na reivindicação do direito de existir plenamente. Para muitos jovens, a política não começa no palanque, mas na coragem de afirmar sua identidade e seus corpos em ambientes que, historicamente, operam sob lógicas de exclusão e silenciamento. Essa realidade tem consequências concretas: segundo o Grupo Gay da Bahia, uma pessoa LGBTQIA+ é morta a cada 34 horas no Brasil. Foram 257 mortes registradas em 2025, entre homicídios, latrocínios, suicídios e outras causas.

Diante desse cenário, acolhimento e visibilidade deixam de ser apenas gestos de inclusão para se tornarem exigências de justiça e defesa da vida. O Concílio Vaticano II convida a Igreja a reconhecer, nos desafios do tempo presente, sinais que exigem escuta e discernimento (Gaudium et Spes, 4). Na Exortação Apostólica Christus Vivit (n. 239; 242), o Papa Francisco recorda que os jovens não são apenas destinatários da ação pastoral, mas protagonistas da transformação da Igreja e da sociedade. Nesse horizonte, reconhecer a dignidade das juventudes LGBTQIA+ significa rejeitar toda forma de discriminação, como propõe a Exortação Apostólica Amoris Laetitia (n. 250), e promover sua participação efetiva na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, conforme também destaca o Documento de Aparecida ao reconhecer os jovens como sujeitos ativos da evangelização e da transformação social (Documento de Aparecida, n.443-446).

Entretanto, o caminho para essa participação plena é repleto de obstáculos que tentam minar a esperança das juventudes. Desafios contemporâneos como a disseminação de fake news e os discursos de ódio atuam como venenos que corroem o tecido social. Essas dinâmicas criam barreiras invisíveis que dificultam o acesso à verdade e à participação cidadã. Além disso, a invisibilidade de pautas essenciais para jovens migrantes, refugiados e povos originários demonstra que o nosso projeto democrático continua incompleto. A luta contra a desinformação e a exclusão torna-se, assim, um dever evangélico e cívico. É urgente rejeitar a cultura do descarte e o relativismo que aniquila o outro (Evangelii Gaudium, n.53), promovendo em seu lugar uma cultura do encontro que gere vida e justiça social.

Nesse contexto de transformação tecnológica, os desafios da democracia já não se limitam à circulação de informações falsas, mas envolvem também o crescente impacto dos sistemas digitais e da inteligência artificial na formação da opinião pública. O Papa Leão XIV nos ensina na encíclica Magnifica Humanitas que a inteligência artificial não deve ser vista como mera emergência técnica, mas como um desafio à dignidade humana, já que os sistemas algorítmicos não são moralmente neutros. À luz do documento, salvaguardar a pessoa humana exige rejeitar a “síndrome de Babel”, marcada pela idolatria do lucro e pela redução do ser humano a dados estatísticos. Em contrapartida, adota-se o “caminho de Neemias” proposto pelo Pontífice, que convoca a um discernimento ético e comunitário capaz de submeter o poder digital aos princípios do bem comum, da justiça social e da destinação universal dos bens intangíveis.

Apesar dessas severas barreiras, as juventudes têm criado laboratórios de participação, solidariedade e comunhão. O protagonismo dos cristãos leigos e leigas na esfera pública é uma força transformadora e vital (Documento 105 da CNBB, n.151;152). No Brasil, a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+ constitui um exemplo concreto desse compromisso, reunindo grupos, núcleos e coletivos que promovem acolhimento, formação, espiritualidade e cidadania para pessoas LGBTQIA+ e suas famílias. Ao tornar visíveis histórias frequentemente silenciadas, essas iniciativas testemunham que a fé cristã pode ser espaço de encontro, cuidado e defesa da dignidade humana. Esses grupos funcionam como espaços de eclesiologia viva e cidadania prática, onde o direito ao sagrado e ao político se encontram. A intensa participação juvenil em encontros, romarias e peregrinações evidencia que a busca por reconhecimento, pertencimento e diálogo entre fé e vida continua mobilizando jovens em diferentes partes do mundo.

Nesse cenário, a espiritualidade inaciana nos oferece uma ferramenta preciosa para a ação política: o discernimento social. Discernir não é apenas escolher entre o bem e o mal, mas avaliar quais propostas e caminhos realmente promovem a dignidade humana e o cuidado com a nossa “casa comum”. O discernimento nos convida a perguntar: “Nossas escolhas nas urnas e nas ruas estão gerando vida para os mais frágeis?”. Esse processo exige a superação de ideologias fechadas e o desapego de privilégios para priorizar o bem do próximo (Evangelii Gaudium, n.231-233). Quando a pessoa jovem discerne seu papel na sociedade, compreende que a vocação laical exige ser “sal da terra e luz do mundo” (Documento 105 da CNBB, n.115), atuando como sujeito ativo na construção de pontes em um mundo fragmentado.

Viver a democracia como cuidado exige, portanto, um compromisso que ultrapassa o período eleitoral. Trata-se de uma jornada contínua de reconciliação, justiça e promoção da paz. Os cristãos leigos e leigas não podem se omitir da missão de transformar as estruturas sociais e políticas que geram exclusão. As juventudes diversas recordam que a democracia floresce quando cada pessoa encontra espaço para falar, participar e contribuir para o bem comum, sendo reconhecida em sua dignidade e acolhida em sua singularidade. Que possamos, inspiradas e inspirados por essas trajetórias de resistência, fé e esperança, construir uma nação em que cada vida seja respeitada como um dom sagrado e ninguém precise esconder quem é para ser reconhecido como cidadão ou cidadã de plena dignidade. O convite está feito: que a nossa cidadania seja o sinal visível de que um mundo mais justo, plural e fraterno já começou a ser semeado no hoje de nossas vidas.

Compartilhe :
Facebook
Email
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Deixe uma resposta