Vocação é projeto de vida: buscar ser magis 

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Adelman Neto, SJ via MAGIS Brasil

Em nosso primeiro texto refletimos sobre a dimensão do discernimento pessoal da vida como chamado vocacional primeiro. Se a vocação consiste em ser chamado, então somos chamados a encontrar nosso caminho segundo o que nos impulsiona a amar mais e melhor com todo nosso ser. À vista disso, no segundo texto tratamos que não há chamado vocacional enclausurado em si mesmo, fechado no individualismo ou encerrado em horizontes apequenados. Há uma dimensão social que constitui intrinsecamente todo percurso vocacional. No terceiro texto lançamos o olhar para a dimensão da liberdade para compreendê-la no horizonte vocacional a partir da espiritualidade inaciana. Neste quarto e último texto 

“Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3, 12-14)  

“E assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo apenas o que mais nos conduzir ao fim para que fomos criados.” Talvez essa frase de Santo Inácio, a última parte do Princípio e Fundamento nos Exercícios Espirituais, resuma bem uma das perguntas mais importantes da vida: o que realmente vale a pena escolher?  

No fundo, todos nós fazemos escolhas o tempo inteiro. Escolhemos onde colocamos nossa atenção, com quem caminhamos, o que alimenta nossa mente, nossos afetos, nossos sonhos. Mesmo quando dizemos “tanto faz” – na falsa ilusão de que não estamos escolhendo nada -, já estamos escolhendo alguma coisa. A questão é se nossas escolhas têm nos dado mais sentido, mais alegria

Aqui aparece uma palavra muito importante na espiritualidade inaciana: magis. Em latim, significa “mais”. Esse “mais” não tem a ver com quantidade ou com produtividade. Não é fazer mil coisas ao mesmo tempo, viver ocupado o tempo inteiro, adquirir coisas etc. Pelo contrário: magis inaciano consiste em buscar aquilo que é mais profundo, isto é, mais cheio de sentido. É um mais qualitativo e, por isso, está ligado a fazer bem aquilo que precisa ser feito.  

Em nossa época, isso se tornou especialmente difícil. Vivemos de um modo muito automatizado. Acordamos, pegamos o celular, respondemos mensagens, estudamos, trabalhamos, rolamos telas infinitas, consumimos diversos conteúdos sem perceber muito bem o que estamos fazendo. E, às vezes, o pior: sem saber por que o fazemos. Estamos sempre produzindo, reagindo, correndo, tentando dar conta de tudo e, mesmo assim, muitas pessoas experimentam um vazio difícil de explicar. Está claro que aos jovens não lhes faltam atividades, mas por vezes faltam-lhes sentido. 

magis inaciano soa quase como um convite à resistência a partir dos desejos que nos movem. E isto se faz mais que importante, porque ninguém fundamenta a sua vocação e constrói o seu projeto de vida sem entrar em contato com aquilo que deseja de verdade. “Desejando”, sugere Inácio, alcançar o núcleo da pessoa, o qual faz seu coração arder.  

Na espiritualidade inaciana, o desejo não é visto como algo ruim, pois Deus fala através dos anseios mais profundos do coração humano. Ele não chama uma pessoa anulando quem ela é e não a faz frustrar-se com um caminho impossível de se trilhar.  

Depois o Peregrino usa o verbo “escolhendo”, oferecendo ao exercitante a possibilidade de colocar em prática o dom da liberdade. Este movimento exige coragem justamente para não simplesmente seguir a lógica do “deixa a vida me levar”. Porque, se não escolhemos conscientemente, alguém escolherá por nós: os algoritmos, as pressões sociais, o medo, a ansiedade, a necessidade de aprovação.  

Talvez magis seja justamente isso: não viver pela metade ou de um modo “amarrado”. Não passar pela vida apático(a) ou desiludido(a), mas viver de maneira apaixonada “desejando e escolhendo” aquilo que mais nos conduz ao sentido para o qual fomos criados. Por isso, que nunca nos cansemos de nutrir no coração o desejo de buscar, encontrar e cumprir a vontade de Deus em nossa vida. O convite que Ele mesmo nos faz é o de valorizar este dom precioso que é viver compartilhando o que temos e somos com e para os demais. 

Para concluir, talvez uma luz que pode iluminar nossos passos na construção dos nossos projetos de vida é a oração do Pe. Pedro Arrupe: 

Nada pode importar mais do que encontrar a Deus. Isto é, apaixonar-se por Ele de forma definitiva e absoluta. Aquilo que te apaixona ocupa a tua imaginação e acaba por afetar tudo. Será aquilo pelo qual te levantas todas as manhãs, que decide o que fazes com os teus finais de tarde, em que dedicas os teus finais de semana, o que vais ler, quem vais conhecer, o que te rasga o coração e o que te enche de alegria e gratidão. Apaixona-te, permanece apaixonado e isso decidirá tudo. 

REFERÊNCIAS:
 
LOYOLA, Santo Inácio. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 2000. 

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