Padre Laércio, SJ
Há algo que podemos desaprender com as juventudes contemporâneas? A resposta é sim. Mas isso depende da disposição interior de quem acompanha. Afinal, somente desaprende quem continua aberto ao aprendizado. O acompanhamento vocacional não consiste apenas em ensinar ou orientar; antes de tudo, exige humildade para reconhecer que Deus também nos educa por meio daqueles que acompanhamos.
O Evangelho que quero trabalhar hoje, apresenta a figura do jovem rico (Mt 19,16-22). Trata-se de um jovem cheio de sonhos e perguntas. Aproxima-se de Jesus porque deseja encontrar um sentido maior para sua vida: “Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?” (Mt 19,16). No entanto, quando é convidado a dar um passo além, retirando do centro de sua existência aquilo que o aprisionava, “foi embora triste, porque possuía muitos bens” (Mt 19,22).
O problema daquele jovem não era sua idade nem sua riqueza, mas a dificuldade de abrir espaço para uma liberdade maior. Sua história revela que toda vocação exige um permanente desapego. Sempre que absolutizamos nossos projetos, corremos o risco de fechar-nos ao projeto de Deus.
Ao mesmo tempo, as juventudes de hoje nos desafiam a desaprender muitas atitudes que também podem aprisionar nossos processos de animação e acompanhamento vocacionais.
Somos convidados a desaprender a pressa. Vivemos em uma cultura que deseja respostas imediatas, mas Deus costuma agir no ritmo dos processos. Como afirma o livro do Eclesiastes: “Há um tempo para cada coisa debaixo do céu” (Ecl 3,1). Nem toda vocação amadurece no tempo que planejamos. Acompanhar é respeitar o tempo da graça.
Também precisamos desaprender nossos esquemas excessivamente fechados. O Espírito Santo sempre surpreende. Jesus recorda que “o vento sopra onde quer” (Jo 3,8). O acompanhamento vocacional necessita de critérios, formação e exigência, mas nunca pode reduzir a ação de Deus aos nossos planejamentos. O discernimento inaciano nos recorda que Deus conduz cada pessoa por caminhos singulares.
Outro desaprendizado importante consiste em recolocar Cristo no centro. Muitas vezes, existe a tentação de transformar a instituição, a congregação ou mesmo o próprio acompanhante no foco do processo. No entanto, toda vocação nasce de um encontro pessoal com Cristo. Foi Ele quem disse aos primeiros discípulos: “Vinde e vede” (Jo 1,39). O acompanhante não conduz o jovem para si nem para uma obra, ajuda-o a reconhecer a voz daquele que já o chama.
As juventudes também nos ensinam a abandonar a rigidez. Elas desejam autenticidade mais do que discursos prontos. Percebem rapidamente quando nossas palavras não correspondem ao nosso modo de viver. Nesse sentido, a exortação de Jesus continua atual: “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja aquele que serve” (Mc 10,44). Os jovens procuram testemunhas antes de procurarem especialistas.
Outro aprendizado importante é superar qualquer visão competitiva da vocação. Não existem vocações de primeira ou de segunda categoria. Todas são resposta ao mesmo amor de Deus e todas encontram seu sentido na construção do Reino. Como recorda São Paulo: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Cor 12,4). O discernimento autêntico não procura formar religiosos a qualquer custo, precisa ajudar cada pessoa a descobrir onde poderá amar e servir mais.
Por fim, desaprender significa abandonar a ilusão de que controlamos os caminhos de Deus. O acompanhante vocacional semeia, escuta, anima e discerne, mas quem chama é sempre o Senhor. “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16). Talvez seja esse o maior ensinamento que as juventudes contemporâneas oferecem à animação vocacional: elas nos obrigam a deixar para trás nossas falsas seguranças e a confiar mais na ação do Espírito do que em nossos próprios métodos. Quando desaprendemos o excesso de controle, de rigidez e de protagonismo, abrimos espaço para que Deus continue realizando sua obra.
No fim das contas, acompanhar vocacionalmente é caminhar com humildade, sabendo que, enquanto ajudamos um jovem a discernir sua vocação, Deus também continua educando o nosso próprio coração.







