Sávio Reis via Centro MAGIS Burnier
A atual polarização na sociedade brasileira tornou ainda mais difícil o debate acerca da política. Pensar a relação entre fé e política é uma missão ainda mais desafiadora, dado a alta instrumentalização da fé por parte de movimentos políticos como mecanismo de influência e mobilização. Além disso, “os grandes descartados deste nosso tempo inquieto” (FRANCISCO, 2020), os jovens, seguem frequentemente excluídos dessa discussão sob justificativa de que nada sabem ou nada podem contribuir para o cenário político.
Os jovens de toda época e cultura são munidos de força, entendimento, capacidade crítica e desejo de transformação. Neste nosso tempo atuam também como agentes eficazes na luta por um mundo mais justo e democrático. Os jovens cristãos, sobretudo, têm a missão de ser presença ativa em todo debate político e social, uma vez que “o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão ao serviço dos outros” (JOÃO PAULO II, 1988, n. 42).
A dificuldade atual de unir fé e política nasce da compreensão equivocada que se tem de ambas. A política se torna um palco de promoção partidária, uma disputa de poder; enquanto a fé é reduzida ao campo particular, devendo ser praticada apenas na esfera individual. Mesmo que, por vezes, seja instrumentalizada para validar posicionamentos ideológicos. Assim, a experiência cristã na vida pública fica completamente manchada, e o Evangelho deixa de ser o ponto de encontro e se torna instrumento de polarizações. Reduzir a religião à mera mobilização política é esvaziá-la de seu sentido íntimo: a promoção da dignidade humana. Não são poucos os jovens que, por causa disso, se afastam da política e da vivência da fé.
Contudo, a tradição cristã tem outra compreensão acerca da política: é um serviço ao bem comum, que se compromete com a dignidade humana e responsabilidade histórica. Conforme aponta a Exortação Apostólica Christifideles Laici, o compromisso político é compreendido como uma expressão legítima do serviço ao próximo. A atuação política não pode ser, portanto, uma imposição ou dominação, mas um desejo de construir relações justas, humanas e solidárias.
A espiritualidade inaciana não separa fé e realidade política, porque não separa fé e vida. Antes, convida a pessoa a encontrar Deus em todas as coisas e a discernir sua presença também no meio social, político e econômico, e por isso é um caminho autêntico para os desafios atuais, pois, ajuda o jovem a aprender a contemplar na ação em um contexto repleto de discursos antagônicos e identidades fechadas em si mesmas. A contemplação inaciana não leva a uma fuga do mundo, mas a um compromisso mais consciente com a vida cotidiana. O discernimento se torna um caminho para superar o fanatismo, os discursos de ódio e a polarização, levando o jovem cristão a agir não por agenda ideológica, mas pelo sincero desejo de servir.
Uma experiência espiritual verdadeira leva ao compromisso concreto. As juventudes não são chamadas a serem meras telespectadoras do mundo, mas participarem ativamente de sua transformação. Na Exortação Apostólica Christus Vivit (n. 174), o Papa Francisco recorda que os jovens possuem uma sensibilidade especial diante das injustiças e uma capacidade única de mobilização e esperança. Participar politicamente, defender os mais vulneráveis, promover justiça e diálogo não são apenas escolhas pessoais, é uma expressão de sua fé vivida, que se torna presença transformadora na sociedade.
Continuar comprometidos com o bem comum em tempos de polarização exige coragem interior. O Evangelho é a fonte dessa força. O desânimo e a descrença têm encontrado muitos jovens, que não suportam mais a falta de diálogo e os constantes conflitos da sociedade. As juventudes são chamadas a construírem relações mais humanas, solidárias e a não se isolarem e caírem no indiferentismo, pois a verdadeira política nasce da capacidade de colocar a dignidade humana acima dos interesses individuais e ideológicos.
Ser jovem comprometido com o Evangelho de Jesus de Nazaré hoje é, portanto, compreender que fé e compromisso social não se opõem. A espiritualidade inaciana recorda que Deus continua chamando pessoas para transformarem a realidade a partir do serviço, do discernimento e do amor concreto ao próximo. Em uma sociedade marcada pela exclusão e pela polarização, as juventudes permanecem sendo sinal de esperança do Reino de Deus quando escolhem não a indiferença, mas o compromisso; não o ódio, mas o diálogo; não a omissão, mas a construção do bem comum.
REFERÊNCIAS:
FRANCISCO, Papa. Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Vaticano, 3 out. 2020. Disponível em: < https://www.vatican.va/>. Acesso em 27 mai. 2026.
FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit: aos jovens e a todo o povo de Deus. Vaticano, 25 mar. 2019. Disponível em: <https://www.vatican.va/>. Acesso em 27 mai. 2026.
SÃO JOÃO PAULO II, Papa. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici: sobre vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. Vaticano, 30 dez. 1988. Disponível em: <https://www.vatican.va/>. Acesso em 27 mai. 2026.







