COMPANHAMENTO DE VOCACIONADOS ADULTOS

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Pe. Valmir de Costa, RCJ

Tem-se percebido há algum tempo o crescente número de vocações em idade adulta, principalmente masculinas, desejando fazer uma experiência vocacional, seja na vida diocesana, seja nos Institutos de Vida Consagrada. Se a fase da juventude se estabelece entre a faixa etária dos 15 aos 25 anos, a fase adulta poderia ser compreendida, não de modo absoluto, após os 25 anos de idade e se estenderia, ao menos sua primeira fase, até os 35 anos, aproximadamente.  

São várias as razões para se fazer essa experiência vocacional na fase adulta. Há aqueles (as) motivados (as) por uma inquietação vocacional profunda e sincera, desejando uma resposta, e outros, simplesmente, por interesse em conhecer um estilo de consagração diferente que atenda a uma curiosidade vocacional superficial e momentânea. Para ambos os casos, é importante, por parte do animador (a) vocacional, definir critérios que ajude os vocacionados (as) a refletirem melhor suas motivações, encontrando um caminho que de fato corresponda a seus verdadeiros anseios, estabilizando-se em determinado projeto de vida. Referimo-nos especialmente aos adultos (as), que por falta de oportunidade ou impedimentos diversos, nunca puderam fazer uma experiência de discernimento em uma comunidade formativa, mas sentem dentro de si um chamado especial de consagração e o desejo de servir a Deus e a Igreja.  

O que o Serviço de Animação Vocacional (SAV) pode fazer na perspectiva de ajudá-los (as) a discernir sua vocação e sua missão na Igreja, de modo que possam compreender em sua plenitude a graça da vocação que Deus infunde em cada pessoa indistintamente? Quais critérios utilizar? Quais caminhos seguir?  

Gostaríamos de apresentar brevemente alguns elementos para o discernimento dos animadores (as) vocacionais quanto ao seu apostolado de animar e acompanhar as vocações. Critérios que cremos poderem servir tanto ao discernimento ao ministério ordenado quando à Vida Consagrada. Vejamos. 

Estabelecer prioridades 

As vocações que acabam ingressando nas comunidades formativas é fruto diretamente do tipo e da forma de como se organiza e se conduz a animação vocacional. Dentro disso, as Diretrizes à Animação Vocacional devem especificar para cada faixa etária uma metodologia específica de acompanhamento detalhando, ao máximo, os objetivos e as estratégias a serem adotadas.  

O tempo é um fator importante para o discernimento. Independentemente da idade, deve-se tomar um período adequado para se dirimir todas as dúvidas, seja do vocacionado, em relação ao seu projeto de vida pessoal, seja do animador vocacional, em relação às motivações e a consistência de tal projeto. Não é conveniente diminuir o tempo de acompanhamento por causa da idade. Um adulto pode, naturalmente, exigir um tempo muito maior de acompanhamento e discernimento, do que um vocacionado na fase da adolescência. 

O Serviço de Animação Vocacional, dentro de sua estratégia de ação, pode, inclusive, especificar as prioridades pastorais em que incide suas ações. Se elas estão voltadas mais a um público que está na faixa etária entre a adolescência e a juventude, ou mesmo, priorizar a animação e o acompanhamento de vocacionados adultos. Para cada estratégia deve-se corresponder ações e critérios de orientação vocacional bem ordenados e claros. 

A utilização das redes sociais é um fator importante na animação vocacional, e deve ser valorizada. Porém, exige-se uma atenção redobrada, tendo em vista seu alcance, o que acaba atraindo um público vocacional muito diverso (5° Congresso Vocacional. Comunidades Vocacionais: Encontro, testemunho e Missão [Texto-base], n.147). Por vezes, o desafio dos animadores (as) vocacionais é dar a devida atenção àqueles (as) que buscam um discernimento residindo em lugares distantes. É fundamental, para um bom acompanhamento, a pedagogia da presença, os encontros pessoais e a convivência na comunidade eclesial e formativa. 

Sequela Christi 

Embora exista uma preocupação por parte da Igreja em relação ao acompanhamento adequado das vocações em idade adulta, não são muitas as referências nos documentos relacionados à formação. Normalmente recomenda-se ao Direito próprio e às Conferências Episcopais Nacionais a prerrogativa de estabelecer normativas específicas para tal acompanhamento. Na Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis há uma breve e importante observação em relação ao acompanhamento de vocações em idade adulta que pode valer também à Vida Consagrada,  

É necessário avaliar com atenção o período que vai do Batismo, ou da conversão cristã, a eventual entrada no Seminário, tendo em vista que não são raros os casos de confusão entre a sequela Christi e o chamado ao ministério sacerdotal (n. 24). 

Por vezes, o que pode ocorrer são motivações externas e superficiais no desejo de se buscar o ministério sacerdotal, ou à Vida Consagrada, mais autorreferencial do que sinodal. O acompanhamento vocacional deverá averiguar e discernir tais motivações. Não obstante o desejo sincero do (a) vocacionado (a), dever-se-á distinguir o significado de seguir a Jesus e o meio pelo qual deseja fazê-lo: o ministério sacerdotal, ou Vida Consagrada. Por isso, a importância do acompanhamento personalizado, e a necessidade de um oportuno método pedagógico e didático neste tipo de acompanhamento. 

O importante a ser refletido com os vocacionados (as) é quanto ao fim da resposta vocacional, ou seja, servir ao Senhor. Os meios, as respostas vocacionais específicas, é algo que necessita do serviço vocacional para ajudar a pessoa a discernir seu chamado, e de suas condições à resposta. Pois, não basta querer responder uma vocação, seja na Vida Consagrada, seja na vida ministerial, é importante averiguar tanto às motivações como das condições da pessoa à resposta nestes chamados vocacionais específicos, dada suas exigências e seus compromissos. O que requer uma personalidade equilibrada do ponto de vista psicoemocional, assim como maturidade desprendimento quanto ao seu projeto pessoal de vida.  

Chamados à vivência da fé 

O despertar da vocação, assim como os trabalhadores da primeira e da última hora do Evangelho, pode acontecer nas mais variadas circunstâncias ou fases da vida (Cf. Mt, 20, 1–16). Não se pode negar, nesse sentido, que é o Espírito Santo que suscita e anima todas as vocações. Cabe ao animador (a) vocacional ser o facilitador neste processo de compreensão e discernimento do projeto vocacional em questão. 

Porém, há o risco da má compreensão deste projeto ou como ele pode se concretizar efetivamente. Não se pode confundir que as expressões da fé e o cultivo de uma vida espiritual, sejam elementos suficientes para predispor na pessoa sua inclinação ou interesse à Vida Consagrada ou ao ministério ordenado. É necessário distinguir de um lado, o dom da fé e suas mais variadas formas de externalização e vivência, que de modo geral fundamenta a vida prática dos cristãos, e de outro, o equilíbrio interior e das condições psicológicas, para ficarmos apenas na dimensão humano-afetiva, essenciais para se assumir um projeto de consagração, de uma sequela Christi, com seus desafios e exigências que lhe são próprios. Nesse sentido, o acompanhamento de vocacionados (as) adultos (as) é mais exigente, e requer do animador (a) vocacional disponibilidade total neste serviço para não se correr o risco de negligenciar nenhuma etapa do processo de discernimento. 

Em relação ao ministério ordenado especificamente, é necessário compreender que é um chamado da Igreja e não de Jesus Cristo. O batismo é o único fundamento de santidade. Por vezes se confunde vocação, que é graça batismal, e ministério, que é um chamado da Igreja, caindo-se em uma pseudoespiritualidade sacerdotal.  

O chamado ao ministério ordenado vem da comunidade eclesial e não de Deus. A vocação não consiste de forma alguma em um convite do Espírito Santo para abraçar o ministério, mas no apelo que a Igreja dirige ao cristão/a sobre quem fez discernimento de suas aptidões (Gamberini, Paulo. “O ministério é um chamado da Igreja e não de Jesus Cristo”). 

O batismo é a fonte de todas as vocações. É por ele que se alcança a santidade. Pode acontecer que o vocacionado confunda o meio pelo fim, ou seja, o ministério ordenado como única forma de servir a Deus e assumir a missão de Jesus. O animador vocacional, com paciência e benevolência, deverá clarear tal equívoco teológico na compreensão por parte vocacionado, orientando-o no discernimento de seu projeto de vida. 

Das estruturas e projetos formativos 

As instituições que se dispõem a acompanhar vocacionados (as) adultos (as) devem estar cientes da importância de se ter diretrizes específicas, com orientações claras, seja para o itinerário vocacional, nas suas etapas do despertar, acompanhar, cultivar e discernir a vocação, seja para o acompanhamento formativo propriamente dito. Não é conveniente, numa mesma etapa, coabitar formandos (as) de diferentes faixas etárias. Não é saudável à própria etapa formativa, não é saudável aos próprios formandos (as). Para os que estão na fase adulta da vida é necessário oferecer estruturas adequadas, assim como uma proposta pedagógica correspondente à idade, como um acompanhamento personalizado. 

Por vezes, as instituições que realizam o acompanhamento vocacional e formativo têm boas intenções, mas não oferecem as condições necessárias para que os vocacionados (as) possam adequadamente discernir sua vocação. Em tais casos, é recomendável não acolher do que oferecer um acompanhamento insuficiente e precário, sem um mínimo exigido ao que a realidade formativa pede, sob o risco de mais atrapalhar do que ajudar o vocacionado (a). As instituições têm de estar cientes de suas reais condições e possibilidades, pois acompanhar vocacionados (as) adultos (as) além de demandar recursos humanos e financeiros, exige equipes formativas preparadas, espaços adequados e uma proposta formativa própria correspondente à idade dos vocacionados (as), o que por vezes nem sempre é possível.  

Documentos 

No que se refere à preocupação com a animação vocacional, alguns documentos da Igreja chamam à atenção aos desafios que exigem o acompanhamento das vocações em idade adulta. Gostaríamos de salientar apenas alguns, que podem ser tomados como referência para o trabalho vocacional. O primeiro, ainda no pontificado do Papa João Paulo II, com a Exortação Apostólica, “Pastores Dabo Vobis”, ao trazer a preocupação desta nova realidade, que exige um cuidadoso discernimento, devendo estar voltada, sobretudo, “a necessária formação espiritual e intelectual”, (nº 64). Do mesmo modo, por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o documento 110, “Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja do Brasil”, ao tratar das diretrizes da formação presbiteral, chama a atenção para o cuidado, voltado mais ao aspecto psicológico, “Convém que se realize uma completa avaliação médico-psicológica” (nº 98). E, por fim, já mencionado acima, o documento da Congregação para o Clero, “O dom da Vocação Presbiteral: Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis”, quando observa a necessidade, em relação aos vocacionados, de um “oportuno método pedagógico e didático que leve em consideração o seu perfil pessoal”, (nº 24). Para um conteúdo reflexivo como a teologia da vocação e mais amplo sobre vocacionados (as) adultos (as) recomenda-se a leitura de “Tarde te amei” do Pe. Ham com uma série de indicações práticas para um acompanhamento adequado. 

Os vocacionados (as) adultos (as) compõem uma nova realidade vocacional que merece uma atenção especial por parte dos (as) animadores (as) vocacionais. O maior desafio ainda é especificar um planejamento e estabelecer critérios em que estes vocacionados (as) poderão refletir e aprofundar o chamado que Deus lhes faz.  Conscientes e livres poderão assim constituir, sem sobressaltos, seu próprio projeto de vida. 

REFERÊNCIAS:

CENCINI, Amadeo. O Modelo da Integração e a Relação entre Formação Inicial e Permanente. (Sem publicação) CRB/PR, junho de 2017. 

CENCINI, Amadeo. A árvore da vida: Proposta de modelo de formação inicial e permanente. São Paulo: Paulinas, 2007. 

CENCINI, Amadeo. Construir Cultura Vocacional. São Paulo: Paulinas, 2013. 

CONGREGAÇÃO PARA OS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA E AS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA. Vinho Novo, Odres Novos: A vida Consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto. São Paulo, Paulinas, 2017. 

CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis: O dom da vocação Sacerdotal. Brasília: CNBB, 2016. 

COSTA, Valmir de. Identidade e Desafios da Animação Vocacional, Revista Rogate, pp. 16-18. São Paulo, Ano XXXVI, n. 349, jan. / fev. de 2017. 

COSTA, Valmir de. Vocação dom Deus como Projeto de Vida, Revista Rogate, pp. 20-21. São Paulo, a. XXXVI, n. 353, jun. / jul. de 2017. 

CNBB (Documento 110). Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja do Brasil (Ratio Nationalis). Brasília: CNBB, 2019. 

CNBB. 4º Congresso Vocacional do Brasil: Vocação e Discernimento (Texto-base). Brasília: CNBB, 2018. 

CNBB. 5° Congresso Vocacional. Comunidades Vocacionais: Encontro, testemunho e Missão (Texto-base). Brasília: CNBB, 2025. 

DIZIONARIO DI PASTORALE VOCAZIONALE. In. Antropologia. Roma: Editrice Rogate, 2002. 

FRANKL, Viktor E. A Vontade de Sentido. São Paulo: Paulus, 2011.  

HAM, Matthias J. A. Tarde te amei: Formação de adultos ao ministério ordenado. São Paulo, Paulinas, 2022. 

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.  Petrópolis: Vozes, 2017. 

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa. A dor hoje. Petrópolis: Vozes, 2021.  

SÃO JOÃO PAULO II. Pastores Dabo Vobis. São Paulo: Paulinas, 1992. 

PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulus, 2014. 

CONCÍLIO VATICANO II.  Decreto Optatum Totius: Sobre a formação Sacerdota. São Paulo: Paulus,1965. 

VITÓRIO, Jaldemir. A Formação da Vida Religiosa Consagrada: reflexões para uma pedagogia mistagógica. São Paulo, Paulinas, 2022. 

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