Para além da terapia: saúde mental, juventudes e redes de cuidado 

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Jovens participam de uma dinâmica em grupo, formando uma corrente com os braços entrelaçados. A cena transmite união, acolhimento, convivência e espírito de comunidade. Ao fundo, uma participante veste camiseta verde do MAGIS Brasil.

Psicólogo Matheus Lima reflete sobre as condições sociais que atravessam a saúde mental e destaca que cuidar exige vínculos, políticas públicas e uma responsabilidade compartilhada 

Guilherme Freitas

Quando o assunto é saúde mental, buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico tornou-se uma recomendação cada vez mais presente. A ampliação desse debate contribuiu para enfrentar preconceitos históricos e reconhecer a importância do cuidado profissional. Mas também pode trazer um risco: reduzir uma realidade complexa àquilo que cada pessoa consegue fazer individualmente para cuidar de si. 

Durante o Setembro Amarelo, esse questionamento ganha importância. Dizer a alguém que “procure ajuda” é necessário, mas não responde sozinho a questões como acesso aos serviços, condições econômicas, relações de trabalho, vínculos, território e espaços de convivência. Afinal, quais condições uma pessoa encontra para efetivamente cuidar e ser cuidada? 

Para aprofundar essa reflexão, a Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil conversou com o psicólogo Matheus Lima, mestrando em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Sua atuação na interface entre Psicologia Social, cultura e educação contribui para ampliar o olhar sobre a saúde mental para além do indivíduo. 

A entrevista integra a série de conteúdos da campanha do Setembro Amarelo do MAGIS Brasil, que neste ano parte da afirmação “CUIDAR também é ACOMPANHAR”. A partir de uma perspectiva social do cuidado, Matheus chama atenção para as relações e condições concretas que participam da construção da saúde mental. 

O cuidado não começa — nem termina — na terapia 

A maneira como falamos sobre saúde mental hoje não é a mesma de algumas décadas atrás. Matheus recorda que o próprio acesso aos profissionais de saúde mental passou por um processo de transformação, em uma sociedade na qual procurar psicólogos ou psiquiatras já esteve fortemente associado à ideia de “loucura”. 

Essa mudança ajudou a desmistificar o acompanhamento profissional. Ao mesmo tempo, para ele, compreender o cuidado exige considerar que a experiência humana nunca esteve restrita ao que hoje denominamos saúde mental. 

“Falar de saúde mental hoje é algo completamente diferente do que há dez, vinte, quarenta anos atrás, em que ir ao psicólogo ou ao psiquiatra era algo considerado restrito aos ‘loucos’. Então, temos aí algo interessante para pensar: em linhas gerais, o acesso aos profissionais da saúde que realizam algum tipo de acompanhamento terapêutico foi sendo gradativamente desmistificado ao longo dos anos.” 

Se o acompanhamento profissional ocupa um lugar importante, Matheus propõe não transformá-lo na única referência de cuidado. Outras dimensões da vida também podem contribuir para o modo como cada pessoa atravessa suas experiências, estabelece relações e encontra formas de sustentar-se diante das dificuldades. 

“Assim como uma expressão religiosa, qualquer que seja, pode somar na experiência pessoal de quem participa de seus ritos e crenças, são muitas as formas de enriquecer e cultivar a experiência humana: estudos mais recentes têm demonstrado o quanto as artes, em diferentes expressões, contribuem para prevenir quadros de ansiedade e depressão, e estão até relacionadas com uma maior longevidade.” 

Nesse horizonte, a experiência comunitária ganha especial importância. Para Matheus, perceber que dores e dificuldades não são vividas de maneira isolada também pode favorecer outras formas de cuidado. 

“Lembro-me de uma frase da atriz Denise Fraga, que diz que ‘ao ler um poeta, a gente não deixa de sofrer, mas sofre mais bonito’. Essa beleza está também na percepção de que as dores vividas não são únicas — outras pessoas também compartilham dessa mesma experiência, e portanto, a troca comunitária fortalece a ambos. Daí a importância da rede de afetos — família, amigos — que possam ser também sustentáculo nos dias difíceis e testemunhas nos dias bons.” 

Quando “procure ajuda” não é suficiente 

A ampliação do debate sobre saúde mental trouxe também expressões que se tornaram frequentes, especialmente em campanhas de conscientização. “Procure ajuda” é uma delas. A orientação pode ser importante, mas Matheus chama atenção para aquilo que deixamos de enxergar quando toda a responsabilidade pelo cuidado é colocada sobre a pessoa que sofre. 

Para ele, essa discussão precisa considerar um contexto social marcado por desigualdades, precarização das relações de trabalho, restrição de direitos e novas formas de pressão sobre a vida cotidiana. 

“Ora, nesse contexto social tão desafiador, jogar a responsabilidade do cuidado sobre a pessoa isoladamente é adicionar mais uma tarefa a uma lista de cobranças que já parece infindável — vem daí, por exemplo, o status da ‘terapia em dia’. É evidente que o acompanhamento psicoterapêutico feito por um profissional pode contribuir de forma bastante positiva para a compreensão dos fatores de sofrimento e o autoconhecimento da pessoa atendida, mas isso não basta: é preciso fortalecer os serviços públicos para que essa ajuda não seja acessível apenas às classes mais abastadas.” 

A questão aparece de maneira concreta quando Matheus olha para as condições enfrentadas por muitos jovens. Entrada competitiva no mercado de trabalho, baixa remuneração, precarização e longos deslocamentos podem ocupar uma parcela significativa da rotina e dos recursos disponíveis. 

Nesse cenário, ele questiona a possibilidade de responder a problemas também sociais exclusivamente por meio de soluções individuais. 

“Nesse contexto, é factível pensar que a solução seria apenas oferecer terapia para todos? De que forma a Psicologia, nesses casos, não pode servir como ferramenta de acomodação em vez de uma leitura crítica dos fatores que originam esses problemas? Na tradição da Psicologia Social latino-americana, esses são temas presentes logo de início — não se pode falar de saúde mental de cada pessoa sem pensar também em condições dignas de vida para todas as pessoas.” 

A própria possibilidade de acesso ao acompanhamento especializado evidencia essas desigualdades. Matheus lembra que, embora o número de profissionais formados tenha crescido, a Psicologia ainda não está igualmente disponível para toda a população. 

Por isso, considera necessário ampliar também o lugar ocupado pela própria profissão: 

“É preciso, portanto, pensar a Psicologia em uma chave coletiva, operando na construção de políticas públicas, mais do que restringi-la à atuação do consultório.” 

Uma responsabilidade que não pertence a uma pessoa só 

Se saúde mental não pode ser compreendida somente como responsabilidade individual, o cuidado passa a envolver também os diferentes espaços nos quais a vida acontece. 

Para explicar essa perspectiva, Matheus recupera a conhecida afirmação de que é necessária uma aldeia inteira para educar uma criança. Aplicada à saúde mental, a imagem ajuda a perceber que família, instituições, profissionais, comunidades e poder público possuem responsabilidades diferentes, mas interligadas. 

“Se retomarmos aquele provérbio de que ‘é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança’ na perspectiva da saúde mental, podemos compreender que, para cada agente da sociedade — desde a família até o Estado — certa responsabilidade é exigida na construção de ambientes promotores do cuidado integral com as pessoas.” 

Essa responsabilidade começa nas relações mais próximas, mas não se encerra nelas. Matheus aponta a necessidade de ambientes capazes de acolher pedidos de ajuda, instituições preparadas para lidar com situações de sofrimento e diálogo com profissionais e espaços de produção de conhecimento. 

“A desmistificação do cuidado psi é uma tarefa que demanda compreensão e acolhimento das pessoas mais próximas de quem procura ajuda, para que um pedido por apoio possa ser compreendido e não rechaçado. Do mesmo modo, as instituições nas quais essa pessoa esteja inserida — emprego, escola — também devem ter políticas bem estruturadas para esse acompanhamento, desde a possibilidade de afastamento até a formação dos profissionais para evitar, em situações mais delicadas, a revitimização de quem sofre.” 

Para que essas iniciativas não dependam apenas da disposição de determinadas pessoas ou instituições, entretanto, é necessário articulá-las de maneira mais ampla. 

“Tudo isso só se faz possível de modo estruturado e duradouro quando é pensado e fomentado a partir de uma política pública, sem a qual corre-se o risco de permanecer agindo de modo fragmentado e disperso.” 

Uma rede feita de pessoas, instituições e lugares 

A ideia de uma “rede de cuidado” aparece com frequência quando se fala em saúde mental, mas pode permanecer abstrata se não for relacionada à vida cotidiana. 

Na perspectiva apresentada por Matheus, essa rede não é formada apenas por profissionais ou serviços especializados. Ela inclui também relações, instituições e espaços nos quais as pessoas convivem, encontram referências e constroem experiências. 

“Penso que a rede de cuidado implica a compreensão dessa responsabilidade coletiva que temos sobre a saúde mental de quem compõe conosco nossa teia de relações sociais, nessa dimensão intersubjetiva, mas sem deixar de lado os agentes institucionais, como as organizações, equipamentos sociais e o poder público.” 

É nessa compreensão ampliada que situações aparentemente cotidianas passam a ser reconhecidas como parte de uma rede capaz de sustentar a vida. 

“Faz parte da rede de cuidado o amigo com quem se pode falar abertamente sobre a vida em um momento descontraído, um professor ou alguém de referência a quem se pode pedir orientações, um familiar ou alguém mais ancião a quem se escuta atentamente em busca de conselhos, a academia onde se pratica atividade física, a biblioteca onde se emprestam livros que nos abrem novos mundos, o teatro da rede municipal que gratuitamente ou a preços populares nos permite encontrar outras histórias, o evento que traz um artista que não sai da nossa playlist e que agora podemos ouvir ao vivo…” 

O exemplo ajuda a deslocar a saúde mental de uma compreensão restrita ao atendimento especializado, sem diminuir a importância dele. 

“Essa compreensão ampliada de cuidado nos ajuda a perceber que estar ou não estar bem é muito mais do que ‘ter a terapia em dia’ ou fazer uso de algum medicamento, quando necessário. Desse modo, cada agente dessa rede tem um papel significativo, em sua própria área de atuação, sem com isso ‘psicologizar’ todas as formas de atenção e cultivo da saúde mental.” 

Fazer parte da rede não significa ocupar todos os lugares 

Reconhecer a importância de amigos, familiares, educadores e outras pessoas próximas não significa atribuir a elas funções que exigem formação profissional. 

Matheus utiliza justamente a diferença entre conversar com um amigo e conversar com um psicólogo para mostrar que ambas as relações podem ter importância, mas ocupam lugares distintos. 

“Dizer de um problema para um amigo e para um psicólogo costuma ter respostas diferentes. Enquanto um amigo por vezes busca rapidamente dar soluções e tentar resolver a questão, o psicólogo — com diferenças de acordo com a abordagem que segue — busca compreender essa demanda em uma perspectiva mais ampla, a partir da história de vida da pessoa como um todo.” 

No acompanhamento profissional, explica, nem sempre o objetivo é oferecer uma resposta imediata. O processo pode exigir tempo para que a própria pessoa interrogue suas certezas, compreenda sua experiência e encontre outras possibilidades. 

“Não se trata, portanto, de dar uma resposta imediata, mas de propiciar um ambiente no qual o encontro consigo faça brotar uma resposta singular que nasce, antes de mais nada, da segurança de poder fazer perguntas, de colocar em dúvida antigas certezas, de se permitir explorar outras possibilidades.” 

A distinção ajuda também a proteger os próprios vínculos. 

“Não se trata de desmerecer a fala do amigo confidente, mas de compreender que são posições diferentes que não se misturam em suas atribuições. Não cabe ao amigo ser terapeuta, e não cabe ao terapeuta ser amigo.” 

Reconhecer esses limites se torna ainda mais importante quando o sofrimento ultrapassa aquilo que uma pessoa, comunidade ou instituição está preparada para acompanhar. 

“O desconhecimento sincero é muito menos prejudicial do que a falsa certeza. Reconhecer que determinados assuntos são ainda pouco aprofundados em determinado ambiente, como a família, a escola e o trabalho, é o primeiro passo para que, em diálogo com os profissionais da área, possam-se tomar as medidas mais adequadas a cada situação.” 

Durante o Setembro Amarelo, esse cuidado também precisa orientar as próprias iniciativas de conscientização. Matheus alerta que abordar assuntos complexos sem formação adequada pode produzir consequências diferentes das pretendidas. 

“O mês de setembro, por exemplo, reúne muitas iniciativas equivocadas por falta de conhecimento: palestras e falas institucionais que apresentam de modo descuidado temas sérios, como o suicídio, e que podem até mesmo ser instigadores de situações de crise, têm sido infelizmente muito comuns.” 

Por isso, reconhecer os limites não significa deixar de cuidar. Significa compreender quando é necessário construir o cuidado com outras pessoas. 

“Não se pode reforçar o bastante a importância de ter, para qualquer tipo de política em saúde mental, uma orientação e o diálogo com um profissional adequadamente capacitado para falar sobre esse tema.” 

Cuidar também é acompanhar 

Ao deslocar o cuidado de uma responsabilidade exclusivamente individual para uma experiência construída também nas relações, instituições e condições de vida, Matheus propõe uma mudança na maneira como olhamos para quem sofre. 

Mais do que perguntar apenas por que alguém não procurou ajuda, essa perspectiva convida a observar os ambientes que estamos construindo e as condições que oferecemos para que uma pessoa possa viver, estabelecer vínculos e encontrar apoio. 

“Essa mudança de perspectiva é fundamental — só quando valorizamos adequadamente o aspecto comunitário da experiência humana é que podemos construir ambientes de cuidado mais significativos, com partilha de responsabilidades e relacionamentos mútuos de respeito e acolhida.” 

Para Matheus, essa construção envolve também a possibilidade de cada pessoa encontrar reconhecimento e respeito nos espaços dos quais participa. 

“Ter a possibilidade de ser quem se é, e ser respeitado por isso nos espaços em que se vive, é o maior propiciador de uma boa saúde psicossocial. Esse respeito, evidentemente, deve ser considerado em seu aspecto integral — desde a garantia de condições dignas de subsistência até a inclusão efetiva de todas as expressões pessoais, em suas especificidades.” 

É nesse horizonte que a afirmação “CUIDAR também é ACOMPANHAR” ganha concretude. Acompanhar alguém de maneira responsável não significa olhar apenas para a existência ou não de um acompanhamento psicológico. Significa considerar a pessoa em suas diferentes relações e dimensões da vida. 

“Antes de mais nada, acompanhar de forma ética significa compreender que saúde mental é um tema sério e urgente: o adoecimento psíquico tem apresentado estatísticas crescentes e assustadoras, em especial entre os jovens. Também envolve ter clareza sobre as distinções entre os diferentes tipos de função dentro dessa rede de apoio, dessa comunidade de cuidado na qual se insere a pessoa — como está sua relação com o trabalho? E com a escola? E na família? Em que círculos sociais se insere? Como se organiza sua rotina? Como está sua saúde física — sempre indissociável de um bom funcionamento psi? Tem conseguido se organizar para praticar atividades físicas? Como são seus momentos de lazer?” 

São perguntas que, para Matheus, ajudam quem acompanha as juventudes a não reduzir o cuidado a uma única dimensão. 

“Essas são algumas perguntas que podem fazer com que quem acompanha as juventudes tenha uma perspectiva mais ampliada do cuidado em saúde mental, para além do fato de estar ou não em acompanhamento psicológico. Evidentemente, não se trata de desvalorizar esse apoio tão fundamental, mas de pôr em perspectiva que, sozinha, a terapia não basta.” 

Sobre o entrevistado 

Matheus Lima é psicólogo (CRP 06/221640), bacharel e licenciado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da mesma instituição. 

Atua na intersecção entre Psicologia Social, cultura e educação, pesquisando a relação entre equipamentos culturais e território, em diálogo com as políticas de planejamento urbano e patrimônio cultural. 

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