Santo Inácio acreditava que nós, seres humanos, rezamos com todo o nosso ser. Na oração, nada precisa ficar para trás: rezamos com o corpo e com a alma, com nossa história, com aquilo que recordamos, com as perguntas que carregamos, com nossos pensamentos, sentimentos, desejos e escolhas. Por isso, a oração inaciana não procura afastar a pessoa de sua humanidade — ao contrário, convida cada um a apresentar-se diante de Deus por inteiro.
Na tradição inaciana, chamamos de meditação o modo de rezar no qual permitimos que uma verdade da fé ou uma passagem da Sagrada Escritura entre em diálogo com a nossa vida. Meditar não significa apenas estudar ou compreender intelectualmente um texto, nem procurar respostas rápidas: é permanecer diante da Palavra e permitir que ela desperte lembranças, ilumine situações, revele sentimentos e faça nascer novos desejos.
Para isso, Santo Inácio propõe que utilizemos três capacidades interiores: a memória, a inteligência e a vontade. Com a memória, acolhemos a passagem bíblica e recordamos acontecimentos, pessoas e experiências relacionadas àquilo que estamos rezando. Com a inteligência, refletimos sobre o texto e procuramos compreender o que Deus revela sobre Si mesmo, sobre nossa vida e sobre o modo como somos chamados a viver. Com a vontade, acolhemos os sentimentos e os desejos despertados pela oração e percebemos como desejamos responder ao convite recebido.
Esses três movimentos não acontecem necessariamente de forma rígida ou ordenada: uma lembrança pode trazer uma compreensão, uma compreensão pode despertar alegria, resistência, gratidão ou inquietação, um sentimento pode revelar um desejo, e um desejo pode transformar-se em uma escolha. O importante é não deixar nenhuma parte de nós fora da oração: com a memória, recordamos; com a inteligência, procuramos compreender; com a vontade, acolhemos e respondemos. Assim, toda a nossa vida se coloca diante de Deus.
Ao longo desta semana, você será convidado a rezar com a Palavra utilizando a memória, a inteligência e a vontade. Não será necessário compreender tudo nem chegar rapidamente a uma conclusão — bastará permanecer com sinceridade diante de Deus, deixando que a Palavra encontre sua história, ilumine aquilo que você vive, e acolhendo os sentimentos e desejos que surgirem, para perceber, pouco a pouco, como deseja responder.
Reserve um tempo tranquilo para este momento e escolha um lugar em que possa permanecer sem interrupções. Se possível, desligue as notificações do celular e afaste aquilo que possa dispersar sua atenção. Observe também o ambiente em que você está — talvez deixar a Bíblia aberta, acender uma vela ou escolher um lugar mais silencioso ajude você a entrar na oração.
Agora, escolha uma postura que favoreça seu encontro com Deus. Você pode rezar sentado, de pé ou ajoelhado — não existe uma única postura correta. Escolha aquela que, neste momento, mais o ajuda a permanecer atento e disponível. Santo Inácio acreditava que o corpo também participa da oração; por isso, procure uma postura que expresse aquilo que você deseja viver diante de Deus.
Respire profundamente algumas vezes. Faça lentamente o sinal da cruz e tome consciência de que Deus já está presente. Você não precisa alcançá-Lo — Ele já o espera.
Permaneça alguns instantes em silêncio.
Entre nesta oração com coragem e generosidade. Apresente a Deus todo o seu ser: ofereça-Lhe seu corpo, sua memória, sua inteligência, seus sentimentos, seus desejos e sua vontade. Não tenha medo daquilo que poderá surgir durante a oração.
Antes de continuar, apresente ao Senhor este pedido:
Senhor, concedei-me a graça de acolher a vossa Palavra com todo o meu ser e de permitir que ela ilumine a minha vida.
Repita esse pedido lentamente. Permaneça alguns instantes em silêncio.
Leia lentamente o texto das Bem-aventuranças. Não tenha pressa: observe as palavras de Jesus e perceba o modo como Ele olha para a vida, para as pessoas e para aquilo que realmente conduz à felicidade.
Se desejar, leia o texto uma segunda vez, prestando atenção à frase ou à expressão que mais chama sua atenção — talvez “Bem-aventurados os pobres em espírito”, ou “Bem-aventurados os misericordiosos”, ou “Bem-aventurados os que promovem a paz”, ou ainda outra palavra do texto. Não procure escolher a frase mais bonita ou mais fácil: acolha aquela que, de algum modo, parece ter encontrado você. Repita-a lentamente algumas vezes e permaneça com ela.
Retome a frase ou a palavra que mais chamou sua atenção. Leia-a novamente, sem pressa, e deixe que ela permaneça em você. Agora, permita que essa Palavra encontre sua vida por meio da memória, da inteligência e da vontade.
Antes de terminar, retome brevemente o caminho percorrido: o que você recordou? O que começou a compreender? Que sentimento ou desejo permaneceu em seu coração?Agradeça a Deus por aquilo que recebeu — mesmo que a oração tenha parecido simples ou difícil, confie que Deus esteve presente. Guarde a Palavra que maistocou você.
Durante os próximos dias, escolha um pequeno trecho do Evangelho para sua oração — não é necessário escolher textos longos; algumas palavras de Jesus podem ser suficientes.
Leia lentamente e depois faça os três movimentos da meditação: com a memória, pergunte-se o que essa Palavra lhe faz recordar; com a inteligência, o que ela o ajuda a compreender; com a vontade, o que ela desperta em você e como deseja responder.
Talvez seja útil anotar apenas três palavras ao final da oração: Recordei… Compreendi… Desejo…
Leve o versículo consigo durante o dia, retome-o em algum momento, e permita que a Palavra continue trabalhando em você mesmo depois que o tempo de oração terminar.
Você concluiu esta quarta semana deste caminho. Nesta semana, você aprendeu a rezar com a Palavra utilizando a memória, a inteligência e a vontade. Antes de seguir adiante, recorde o que mais tocou seu coração ao longo destes dias.
Depois, registre sua experiência no diário espiritual.
Coloque-se por alguns instantes na presença de Deus e agradeça pelo caminho percorrido. Escreva com liberdade — não procure registrar tudo. Anote apenas aquilo que deseja guardar desta experiência.