“As flores não tem porquês, florescem porque florescem”  (Angelus Silésius)

Seria bom se também nós fôssemos como as plantas, que nossas ações fossem um puro transbordar de vitalidade, de uma pura explosão de uma beleza que cresceu por dentro e não mais pode ser guardada. Sem razões, por puro prazer. Pois dever é isto: aquela voz que grita mais alto que minhas flores não nascidas – os meus desejos – e me obriga a fazer o que não quero. Pois, se eu quisesse, ela não precisaria gritar. Eu faria por puro prazer.

Na minha agenda estão escritos os desejos dos outros. Os meus desejos, não é preciso que ninguém me lembre deles. Não precisam ser escritos. Já os sei de cor. De cor quer dizer no coração. Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno.

Se preciso de agenda é porque não está no coração. Não é o meu desejo. É o desejo de um outro. Primeiro a obrigação, depois a devoção; primeiro a agenda, depois o prazer, primeiro o desejo dos outros, depois o desejo da gente. Não é esta a base de toda vida social?” (Rubem Alves).

A ansiedade é um vazio

O vazio da ansiedade é de um coração que não mais existe. Tão terrível é este vazio que vários rituais foram criados para se exorcizar os demônios que moram nele. Um deles é o ativismo: o vazio se enche de comandos e se fica com a ilusão de que tudo está bem.

“E vós, para quem a vida é trabalho e inquietação furiosos – não estais por demais cansados de viver? Não estais prontos para a pregação da morte? Todos vós para quem o trabalho furioso é coisa querida – e também tudo o que seja rápido, novo e diferente – vós achais por demais pesado suportar a vós mesmos; vossa atividade é uma fuga, um desejo de vos esquecerdes de vós mesmos. Não tendes conteúdo suficiente em vós mesmos para esperar – e nem mesmo para o ócio”. (Nietzsche)

Só podem se entregar às delícias da contemplação aqueles que fizeram as pazes com avida e não se esqueceram dos seus próprios desejos. Essencial é aquilo que não pode ser esquecido. Quando o coração encontra aquilo que procurava, sente-se em paz.

O essencial é aquilo que, se  nos fosse roubado, morreríamos

Kirilov, personagem de Dostoievski, assim descreve o encontro com o essencial: “Há momentos em que a gente sente de súbito a presença da Harmonia Eterna. É um sentimento claro, indiscutível, absoluto. Apanhamos de repente a natureza inteira e dizemos ‘é exatamente assim!’ É uma alegria tão grande! Se durasse mais de cinco segundos a alma não o suportaria e teria de desaparecer.  Nesses cinco segundos vivo uma experiência inteira, e por eles daria toda a minha vida, pois eles bem o valem”.

Santo Inácio chama a esta experiência de Consolação: “Um movimento interior que se desperta na alma pelo qual ela se inflama no amor de seu Criador e Senhor… e toda alegria interior que a chama e atrai para as coisas celestiais… aquietando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor’. (EE 3l6)

Na oração, Deus é Peregrino em minha direção. Ele ‘depende’ de minha liberdade para entrar em minha casa. Fazer de mim Sua morada. Condições: Amar e guardar a palavra pela adesão. Ser morada do Pai (vivenciar a filiação). Ser morada do Filho (acolher o projeto de Jesus). Ser morada do Espírito Santo (seguir as moções do Espírito).

 

Texto Bíblico  Mt 6,25-34

 

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