“Não somos ocos.” (Santa Teresa de Jesus)

Vivemos cercados de barulho com indesejável reflexo sobre cada um de nós mesmos. A massa sonora dos grandes centros bombardeia os nossos ouvidos, altera nossos ritmos biológicos: respiração, frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, tensão muscular. Somos pressionados pelo ruído que constitui um dos elementos que definem as sociedades urbanas e industriais pós-modernas.

O ruído inunda as ruas, os lugares de trabalho, as casas e até os corações. O ruído atordoa, tem efeito devastador, provoca a revolta, agressividade e um estado de ânimo convulsionado. Com o barulho, o espírito humano se acomoda, se anestesia, se dopa. O funcionamento normal do cérebro fica debilitado. A pessoa não sente, não pensa, não tem serenidade para decidir. Todas as expressões de vida se atrofiam. A criatividade seca, os sonhos desaparecem e o ser humano torna-se incapaz de escutar a música harmoniosa de toda a Criação. A sensibilidade coletiva vai se entorpecendo, uma apatia angustiante toma conta. Daí o vazio espiritual e moral insustentável.

Vivemos em uma época em que os decibéis substituíram a razão

Nestas circunstâncias não é fácil fazer silêncio interior. A nossa ecologia interior está muito ferida, os nossos rios interiores estão muito poluídos e as nossas matas atlânticas, devastadas e devassadas. No entanto, o silêncio é conatural ao ser humano, este tem sua origem biológica no silêncio da divisão de uma célula, a semente germina no silêncio da terra, em silêncio uma partícula de urânio gera energia, no silêncio da Criação o “Sopro de Vida” (Ruah) transforma o “caos” em “cosmos”. A Palavra, o Verbo Filho de Deus se encarna em silêncio nas entranhas de Maria, e nasce entre nós no silêncio da noite. No silêncio da madrugada o ventre da terra contrai-se, a natureza geme em santo parto e a pedra é afastada do túmulo: com a Ressurreição de Cristo inicia-se a Nova Criação. Cada gota de silêncio é chance para que a vida venha a amadurecer.

Por tudo isso é preciso trilhar um longo caminho de autoeducação no silêncio. O silêncio é condição preliminar, pré-requisito para o equilíbrio de nossa vida, ele vem resgatar a nossa ecologia interior. Precisamos resgatar o silêncio se realmente queremos encontrar um sentido para a nossa vida. Criar e recriar familiaridade com o silêncio para ouvir, para refletir, para sentir, para viver. Dizia Robert Koch: “um dia, o homem, para viver, terá que combater o ruído como combateu a cólera e a praga.” O silêncio favorece a descoberta do essencial, a experiência do silêncio nos pacifica, nos unifica e nos capacita para tomar decisões amadurecidas. O silêncio ajuda a descongestionar e descondicionar o nosso olhar e a limpar o nosso coração. Muitas de nossas feridas são cicatrizadas nesse processo silencioso. O silêncio é condição de possibilidade de entrarmos em contato com nossa realidade mais profunda e nos abrirmos para o Mistério que não se nomeia e diante do qual nos calamos e nos espantamos. É no silêncio que podemos vislumbrar a transcendência, o mistério maior da vida. Quando conseguimos isso, nos tornamos mais densos como experiência de vida. A vida, então, torna-se recém-nascida e o silêncio revela uma presença: a presença de Deus.

Deus fala no silêncio do coração

O ambiente de silêncio torna o coração mais capaz para ouvir em profundidade e acolher as exigências de Deus na realidade de cada dia, porque as palavras de amor são ditas em voz baixa para que alaguem a alma, como a chuva fina da primavera. O silêncio é estratégia imprescindível, meio pedagógico para alcançar o fim que queremos: “tirar de si as afeições desordenadas, para buscar e encontrar a Vontade divina na disposição de sua própria vida.” (EE 1) O silêncio não é vazio, nem mudez, ele gera vida, é comunicação. “Converso com o homem que sempre vai comigo” (A. Machado). Eu mesmo, Deus, os outros, a Criação, estão nesse eu profundo que me faz ser pessoa em relação, capaz de amar, de responder à vida de sobressalto, com entusiasmo, com generosidade. Entrar em si mesmo para “ouvir outras vozes que não estão no ar” (Orígenes). Buscar espaços e tempos de ausência de ruídos é ter a valentia de ficarmos a sós conosco mesmos.

Silêncio de pensamentos, de preocupações, de ativismo. Há um silêncio ascético que consiste em não pretender que qualquer desejo, capricho ou necessidade material tenha que ser satisfeita de imediato. Dar atenção à própria respiração e ao ritmo biológico, sentir-nos, sentir e escutar a sinfonia da natureza. O silêncio ajuda a personalizar e a interiorizar as palavras. Não há palavras mais profundas que aquelas que são pronunciadas no silêncio do coração. Sem o silêncio a palavra é estéril. Se conseguíssemos viver nesse silêncio, como espaço gerador de vida e comunicação, seríamos mais felizes, mais humanos, em meio ao ruído e à agitação de nossa sociedade. É preciso nos atrelar com o núcleo profundo de nosso ser, que se funde com o de Deus, que está aí, em nosso ser interior, e é quem nos fundamenta, nos dá vida.

Texto Bíblico  Lc 1, 1-38

 

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