Reflexão sobre a naturalização da monotonia e das violências nos ambientes eclesiais, destacando a importância da escuta, do protagonismo juvenil e da construção de espaços seguros e acolhedores
Giovani do Carmo Júnior
Olá, querida leitora, e querido leitor, este mês no Portal do MAGIS Brasil estamos refletindo sobre o cuidado e a proteção de jovens em ambiente eclesial. Esta série de artigos está composta por três movimentos, o primeiro deles dedicado a tomarmos consciência que as violências a adolescentes e jovens ocorrem em ambientes externos à comunidade cristã e internamente à comunidade cristã. No primeiro texto, objetivamos retirar a naturalidade do senso comum em relação às múltiplas violências experimentadas pelos corpos adolescentes e juvenis os quais são atravessados pelas clivagens de gênero, classe, raça e território.
Neste segundo texto da série continuamos tensionados pela pergunta fundamental que nos guia nessa reflexão mensal: como as comunidades cristãs católicas se tornam lugares socioespaciais onde adolescentes e jovens encontram condições concretas para construir seus projetos de vida, experimentar relações saudáveis e alimentar horizontes de esperança? Está no centro de nossa preocupação o “como”, os modos, os meios e os instrumentos utilizados pelos jovens e a partir dos quais os jovens constroem possibilidades para suas vidas, isto é, constroem futuros possíveis para si, para os outros e para o mundo.
Por isso, o objetivo consiste em analisar como os jovens têm nos mostrado que os ambientes eclesiais católicos se constituem por uma lógica específica e singular. A experiência das juventudes em ambientes eclesiais é, por vezes, de frustração e autoculpabilização ou de reação feroz e ruptura com as estruturas e as figuras de autoridade. Quero dialogar com os jovens sobre essa lógica de funcionamento naturalizado chamada por eles de monotonia. A minha pergunta é: como se dá a naturalização da monotonia e quais são seus efeitos para os corpos juvenis em ambiente eclesial? Nesse sentido, a partir das escutas com os jovens, quero tratar desse tema de uma maneira contraintuitiva, pelo menos nos horizontes que trabalhamos em ambiente eclesial católico.
Assumindo alguns pressupostos: da negativa à produção positivada de uma realidade
Para início de conversa, gostaria de colocar alguns elementos. Em primeiro lugar, não estou interessado aqui em dar tratamento teológico católico ou protestante ao fenômeno juvenil ou focalizá-lo tentando perceber de que maneira os jovens experimentam a sua relação com o sagrado ou mesmo a problemática da transmissão da fé na contemporaneidade. Ou, ainda, como essa relação fenomenológica atuaria em processos decisórios fazendo com os jovens assumam a posição de permanecer, tensionar ou localizar-se neste socio-espaço eclesial. Acompanhar os jovens nos faz perceber que a experiência religiosa é de extrema importância para que as pessoas jovens estabeleçam uma vinculação aos ambientes religiosos de modo presencial ou on-line. Portanto, não se trata de analisar a relação dos jovens com o sagrado e sua implicação em valores – vale dizer que esta perspectiva é importante-, pelo contrário, interessa perceber como se dá a sua relação com as instituições comunidades eclesiais, que são diversas entre si, e as mediações das relações e da experiência religiosa.
Em segundo lugar, não se trata também de avaliar de maneira positiva ou negativa em termos morais de bem ou mal, válido ou inválido, falso e verdadeiro, correto e incorreto o modo de existência e de construção de relações das pessoas jovens em ambientes eclesiais. Ainda mais, não se pretende questionar ou menosprezar o modo como esse ser individuado do corpo social, chamado Igreja Católica, se relaciona com os seus fiéis jovens. Tomar essa via de investigação recairia em assumir um jogo de acusações baseadas em uma hipótese de uma via unilateral de repressão por meio de relações adultocêntricas e outros dispositivos. Não assumir essa via, não quer dizer que ela não é válida para investigar essa relação entre sujeitos e instituições. Entretanto, não a assumir ajuda-nos a sair da zona de ataque contra defesa e dos slogans de ação que nos afastam da questão. Portanto, pretendemos sair do embate para o diálogo para escutar a realidade e percebê-la desde o ponto de vista da produção efetiva ocorrida por mecanismos.
Terceiro, também não parto do pressuposto de uma relação de poder em que alguns, ministros ordenados, religiosos, líderes e assessores adultos, possuem o poder, enquanto os jovens não o têm. Isso seria tratar os jovens somente como sujeitos meramente passivos e objeto da ação pastoral e cuidadora. Isso pode ocorrer em alguns documentos e momentos formativos em que se assume uma posição assimétrica e impositiva. Contudo, há um tensionamento que os corpos, as práticas cotidianas e a vida concreta provocam nas comunidades que é inegável. Os jovens e outros grupos etários estão em constante tensionamento e negociação nas relações e ambientes eclesiais.
Essa força exercida na relação se dá por vários fatores. Por exemplo, sabe-se que há um receio da diminuição de católicos no mundo. No Brasil há a disputa explicita por número de fiéis. Afinal, uma igreja vazia implica desmobilização, esvaziamento e, por fim, fracasso das lideranças e comunidades. Não conseguem ser carismáticas ao ponto de reunirem pessoas em seus espaços e atividades: é preciso sobreviver. A diminuição de fiéis pode levar a ter de dar explicações às instâncias hierárquicas superiores e colocar em questão os meios concretos de subsistência da comunidade e de seus líderes.
Nesse horizonte, os jovens são, por vezes, extremamente importantes. São vistos como solução para uma renovação etária e de numérica de uma comunidade eclesial. A tábua de salvação. Além disso, a presencialidade física (participantes assíduos) ou on-line (seguidores) garante manutenção socio-espacial pela via do vínculo de engajamento, de visibilidade e de força de influência social de seu líder e/ou de sua comunidade. Sendo assim, os jovens são sujeitos sociais também em ambiente eclesial, agentes que tensionam, torcem, jogam e negociam com essas relações e até alteram-nas desde dentro. Mas, há também o caso que a ação é romper, fraturar e se afastar de um tecido de relações que produz profundo sofrimento. Lembro-me de um grupo de jovens no interior de uma comunidade que estava se planejando para fazer um curso não alinhado com as lideranças comunitárias, quando questionados sobre as estratégias que pensavam utilizar para enfrentar essa relação responderam: “Fique tranquilo, nós sabemos como convencê-los”.
Quarta, este socio-espaço local e global, ao mesmo tempo, ou particular e universal, configura-se como uma igreja. Isto significa que este socio-espaço possui especificidades organizativas, estruturais, vinculantes e determinantes das vidas das pessoas. Este vínculo vertical e horizontal, ao mesmo tempo singular e coletivo, compõe e determina compreensões de si, do outro e do mundo. Basta ver, por exemplo, a bio do Instagram de jovens que se autodeclaram por extenso ou com a bandeira do Estado do Vaticano. Um significante que compõe, agrupa e organiza espaços, relações, corpos, símbolos e perfomances em diferentes níveis relacionais e escalas territoriais (local/global; centro/periferia; presencial/on-line), de modo que temas diversos e externos terminam por mobilizar jovens em seus contextos locais e em suas redes digitais.
Assim, o que pretendo enunciar parte do pressuposto que as juventudes neste socio-espaço eclesial experimentam uma lógica própria entrelaçada por dispositivos, estratégias e técnicas que produzem os corpos juvenis. Ainda mais, interessa-nos dialogar aqui sobre os efeitos do exercício dessas lógicas no fenômeno da naturalização das violências e constituições de afetos e subjetividades. Portanto, quero compreender os efeitos que essas lógicas produzem a partir do modo como operam para que seja possível compreender como o efeito retroalimenta e fortalece o exercício da lógica.
Juventudes e monotonia
Em 2025 a Rede Inaciana de Juventude foi convidada pela Paróquia São Antônio de Pádua, localizada na cidade de Iconha (ES), Diocese de Cachoeiro do Itapemirim – que compreende 27 municípios do sul do estado do Espírito Santo donde se tem 43 paróquias. O convite se deu para assessorar uma atividade que ocorreu por causa da mobilização em torno da realização do 16º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base a ser vivido na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim (ES). O Intereclesial tem por objetivo animar as comunidades a refletirem, partilharem e se comprometerem com a missão do Cristo a partir do tema “Caminhando com as juventudes na alegria do Evangelho, a serviço do Reino”.
Anteriormente à assessoria enviamos um formulário de escuta da realidade pautado por quatro questões cujo foco é a relação entre os jovens e as comunidades eclesiais: 1. Quais são, na sua opinião, os 3 principais desafios que os e as jovens enfrentam para viver e se engajar na vida das CEBs? 2. O que você acredita que causa ou alimenta esses desafios? 3. Que tipo de ações, projetos, ou iniciativas poderiam ajudar a enfrentar esses desafios e fortalecer a presença das juventudes nas CEBs? 4. Você gostaria de ajudar a construir alguma dessas ideias? Se sim, como você gostaria de contribuir?
A síntese à primeira pergunta aponta três elementos de grande importância. Os adolescentes e jovens respondentes indicaram que os principais desafios são: ausência de tempo por parte dos jovens para dedicar à vida eclesial devido à rotina pesada de trabalho, estudos e responsabilidades; linguagem e espaços pouco atrativos para o protagonismo juvenil (grifo nosso); desafios sociais e culturais como violência, ausência de oportunidades, individualismo e secularização.
A segunda resposta aponta variadas causas aos desafios: “a ausência de interesse do jovem”; “a evolução constante, o excesso de redes sociais e o imediatismo da qual estamos submersos”; “as tentações e chamados do mundo; eventos mal organizados, horários não condizentes”; “muitos jovens preferem o mais fácil e acham que curtir a vida são as coisas mundanas”; “gerações que não se misturam muito. Barreiras culturais ou geracionais que dificultam a participação ativa dos jovens”; “falta de diálogo, correria do dia a dia”; “encontros mensais e palestras”; “rotina sobrecarregada e pouca flexibilidade de horários para atividades comunitárias”; “ausência de programas específicos voltados para a juventude”; “conversas, projetos dinâmicos”; “Brigas, pecar, não colocar Deus em primeiro lugar, a internet ter vergonha se socializar”; “as comunidades não saberem lidar com os jovens”; “mais espaço para que os jovens possam participar”; “falta de estudo profundo da Bíblia”; “o não autocontrole sobre os vícios”; “falta de identificação e representatividade”; “Exigências da sociedade atual (trabalho, estudo, pressões econômicas)”; “Falta de abertura e renovação nas CEBs para acolher a juventude”; “contexto social e cultural marcado por individualismo, desigualdade e descrédito religioso”.
Em resposta ao problema de ajudar a enfrentar esses desafios e fortalecer a presença das juventudes nestes socio-espaços, os jovens elencaram: “Dar maior protagonismo aos jovens nas decisões e atividades das CEBs”; “Usar linguagens e ferramentas atuais (música, arte, redes sociais, novas tecnologias)”; “Criar projetos sociais e de formação que respondam às necessidades reais da juventude (emprego, cultura, espiritualidade etc.)”; “Fortalecer espaços de convivência acolhedores e criativos, onde fé e vida caminhem juntas”. Além da ampliação dos espaços de sociabilidade juvenil na região, parece haver um elemento candente repetido nas respostas: monotonia.
Falso ato de comunidade e monotonia.
A falta de interesse, seria por conta da própria sociedade em si, que enraíza na mente dos jovens que a Igreja e a vida com Cristo seriam mais ‘chata’ e ‘perda de tempo’, agora falando do acolhimento e monotonia, imagine a seguinte situação: O jovem mesmo com a falta de interesse, decidi ir. Chegando lá ele não é cativado por conta da monotonia-falta de diversidade, animação – e é mal-recebido, pela falta de acolhimento, tanto na comunidade, tanto pelos próprios jovens. Isso cria uma imagem e experiência ruim na igreja.
Desnaturalizar o que somos: o que se pode estar dizendo quando se fala de monotonia
A comunidade eclesial de base local e ambiental “permite o trato pessoal fraterno entre seus membros”. Essa definição de comunidade consiste em percebê-la atravessada por sua realidade socioespacial. Isto é, a comunidade se constitui por processos de relação entre os territórios e as dinâmicas de sentido atribuídas pelos sujeitos através das relações com os objetos e as pessoas. Seguindo Milton Santos, “A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida”.
A comunidade não está dada, ela se faz, é construída a muitas mãos e corações. Isto quer dizer que as relações comunitárias são construídas e reconstruídas constantemente em processos que podemos chamar de socialização. E esses processos são históricos não só porque datados, mas, sobretudo, por serem construídos e reconstruídos por mãos humanas.
Isso torna possível percebermos que as relações comunitárias dizem respeito ao uso e exercício concreto da vida cotidiana; da relação dos corpos entre si e com o meio. Ao mesmo tempo, a vermos como essas relações socioespaciais se inscrevem nos corpos. Desde aí podemos nos perguntar: como os jovens se tornam aquilo que são? Como se fazem no seio das relações socio eclesiais? Essas são perguntas de fundo quando tratamos das subjetividades, culturas e gramáticas juvenis em ambiente eclesial. A vida de cada jovem está entrelaçada nos sistemas de significação construídos nas relações com os outros, com os territórios e com o seu tempo histórico. Por isso, a resposta a essa pergunta não é simples e nem de caminho único.
A forma de compreendê-la passa pelos capitais sociais, culturais e econômicos das famílias, pela condição de raça/cor, pela estrutura sexo/gênero, pelos territórios e pelas condições socioemocionais. Um reconhecimento é fundamental aqui: não se nasce pronto para a vida social e nem mesmo para a vida na comunidade eclesial. Só nos tornamos parte de uma relação socio-comunitária se formos submetidos a um processo de socialização. No texto “Socialização: como ser membro da sociedade”, Peter Berger, afirma que a socialização é a imposição de padrões sociais à conduta individual. Estes padrões são tão fortes que chegam mesmo a interferir nos processos fisiológicos do organismo. Lembre-se, por exemplo, do jejum eucarístico, do silêncio durante a missa, as mãos posicionadas para oração, as vestes que são aceitas para os ritos e assim por diante. O corpo é ensinado a se comportar e transitar nos espaços eclesiais. Neste contexto, é através da socialização e seu dispositivo mais potente, a linguagem, que os jovens vão se posicionando e sendo posicionados dentro das relações e se identificando em seus corpos nos socio-espaços eclesiais.
A questão é se perguntar como os processos de socialização são inscritos nos corpos. Michel Foucault, filósofo francês, autor da célebre obra Vigiar e Punir: o nascimento da prisão (1975), afirmava que a disciplinarização é inscrita nos próprios corpos por meio de uma série de tecnologias, mecanismos e estratégias que se podem até chamar de educativas. Assim, é possível diferenciar o corpo militar do corpo estudantil, como também é possível diferenciar o corpo de um professor do corpo de um operário. Essa diferenciação não ocorre apenas por características físicas, como tamanho ou faixa etária, mas, sobretudo, pela forma como esse corpo responde, se porta e se identifica nas relações. A forma de ser, estar e expressar quem se é passa, principalmente, pela forma que é dada aos corpos nas relações com as instituições. Basta, por exemplo, percebermos a mudança ocorrida nos adolescentes e jovens que chegam à comunidade sem saber falar e ler em público e depois de alguns anos se tornam verdadeiros oradores, líderes em suas carreiras e vão até mesmo discursar em cima dos palanques em campanhas eleitorais. Esse corpo se faz, se transforma, se molda e é produzido nas relações.
Foucault faz uma análise das sociedades disciplinares e dos seus mecanismos e estratégias para a produção de corpos disciplinados. Para isso, utiliza o conceito de docilização. Um corpo dócil é um corpo útil, é um corpo que se encaixa para realizar uma determinada tarefa e é um corpo que não incômoda e nem se faz perceber. Não reclama, simplesmente faz e existe da maneira mais eficientemente possível para as demandas que o ambiente requer. No caso das análises de Foucault, os corpos são preparados para serem acoplados a um sistema produtivo que é também um sistema relacional. Isto é, o problema de acoplar o corpo do trabalhador à produção no mundo do trabalho de fábrica. Nesse ponto, podemos também pensar: quais relações, dispositivos e tecnologias atravessam os corpos dos jovens nos processos de socialização no interior da comunidade eclesial para que se tornem aquilo que se quer e aquilo que se chama de ser jovem em um ambiente eclesial?
Portanto, o que Foucault procura demonstrar é como se produz uma normatividade, como se produzem corpos normais e, ainda mais, como essa normalidade está diretamente conectada à existência possível desses corpos que são organizados segundo uma lógica socio-comunitária que traça os caminhos internos voltados para a sua finalidade. Não é apenas a utilidade para fazer algo, quer dizer também à aceitabilidade desses corpos nesse espaço. Essa aceitação dos corpos tem relação não apenas com a materialidade do corpo, como também com sua linguagem, sua expressividade, a forma de se vestir, o tipo de penteado do cabelo, o modo de se portar, de estar e, justamente, de se identificar nesse espaço. Essa normatização ocorre através da constituição de espaços, tempos, estruturas e modos de significação do mundo e da própria pessoa constituídos em torno do que se espera que esse corpo responda diante da que normal e, portanto, natural.
Nesse mesmo diapasão, Foucault, no texto Segurança, Território e População (1978), afirma que a produção da normalidade não se dá somente em uma ação direta sobre os corpos. Já em Vigiar e Punir, havia ressaltado que a ação sobre os corpos não se dá mais de maneira violenta e impositiva. Pelo contrário, se dá na organização do espaço, do tempo e, portanto, da sensibilidade e de que como sentimos o mundo: ou seja, da socialização e da sociabilidade. Ao tratar de governamentalidade, diz que o poder sobre a vida é exercido sobre as condutas. Não se proíbe imediatamente uma ação, um comportamento ou um corpo, mas se cria caminhos para que a conduta vá sendo impossibilitada de ocorrer.
Desse modo, há uma determinação indireta: uma ação que incide sobre as ações. Por exemplo, por vezes não se quer que as pessoas se manifestem em determinados ambientes e, por isso, se constrói a impossibilidade de que esses espaços existam para que elas não se manifestem. Ou, ainda, se criam espaços, contudo, se produzem mecanismos para que o que foi falado não seja efetivamente escutado. Existem espaços de escuta onde a escuta não acontece. Isso impossibilita dizer ou mesmo atacar afirmando que as instituições querem calar as pessoas. Um silenciamento planejado e arquitetado que se perde na imensidão de estruturas ou processos. Uma imagem que se parece o processo judicial vivido por Josef K. no livro O processo de Franz Kafka. Não se reprime ou disciplina-se explicitamente e diretamente, se constrói modos de atuar e determinar as possibilidades de ação dos sujeitos jovens de modo a determinar os espaços de vida.
Em História da Sexualidade: A Vontade de Saber Foucault argumenta que a produção da naturalidade ocorre por meio de uma série de discursos, saberes, mecanismos, estratégias e práticas que tornam algumas condutas comuns, normais e normativas dentro das relações sociais. A criação de um padrão natural faz com que se possa existir a divisão entre normal e patológico, normal e anormal, excluído e aceitável. Sendo assim, há um processo de seleção dita “natural” ao qual os corpos estão sujeitos para se tornarem naturalmente sujeitos. Por isso, segundo Foucault, ser sujeito não é sinônimo de ser protagonista de algo. Ser sujeito é estar assujeitado a uma série de dinâmicas que produzem sentidos os quais retroalimentam a própria dinâmica de assujeitamento.
Por isso, a desnaturalização das dinâmicas de violência em relação aos corpos juvenis nos ambientes socio-eclesiais passa justamente pela compreensão de que a naturalidade atribuída às experiências juvenis é produzida. A monotonia socioespacial é construída. Muitas vezes, os corpos juvenis atravessam uma monotonia que pode ser identificada como natural, normal e comum. Expressões como “sempre foi feito assim”, “sempre foram tratados assim” ou “ser jovem em comunidade eclesial quer dizer exatamente isso” revelam essa lógica: uma lógica da sobrevivência. Os que chegam à vida adulta, por vezes, são aqueles que sobreviveram a essa lógica e retroalimentam-na. Essas definições cristalizam e expressam justamente que, quando os jovens se referem à monotonia dos ambientes socio-eclesiais, também podem estar se referindo a uma certa naturalização do seu papel, do seu lugar e da sua identidade nesse tecido relacional de socialização que investe energias sobre os corpos e suas condutas, ao passo que também cria caminhos para extraí-los quando não normalizados.
Desnaturalizar ambientes, processos e relações
Por isso, quando nos referimos à desnaturalização das relações de violência e vulnerabilização que os jovens encontram em ambientes eclesiais para a construção de seus projetos de vida, estamos tratando justamente da desnaturalização dos processos por meio dos quais a socialização dos jovens nesses ambientes é construída. Trata-se de compreender o modo como esses corpos são encaixados, significados e se autocompreendem a partir dessas relações eclesiais. Trata-se, ainda, de compreender como a percepção de si mesmos, do outro e do mundo, construída nesses espaços, influencia suas trajetórias para além dos ambientes eclesiais, alcançando também as demais relações sociais das quais participam.
Nesse sentido, quando tratamos de violência em ambiente eclesial, estamos também tratando de como esse ambiente é perpassado por lógicas socialização que não são exclusivamente eclesiais. As dinâmicas presentes na sociedade atravessam as instituições religiosas e são reproduzidas em seu interior. A miscelânea dessas lógicas constitui determinados sujeitos nas relações sociais e produz modos específicos de compreender os jovens e sua participação. Por vezes, os próprios jovens constroem entre si modos de relações através dos quais se reproduz essa lógica de normalização dos corpos. Assim, a naturalização de determinadas formas de colocar o jovem em seu lugar, ou mesmo de definir previamente qual deve ser o seu lugar nos ambientes eclesiais, interfere diretamente na maneira pela qual esses jovens se compreendem, interpretam sua própria experiência e reconhecem os modos pelos quais seus corpos merecem ou devem ser tratados nesses espaços.
Ao passo que, há uma dinâmica de silenciamento que se enquadra em uma forma de investir a vida de força nas relações de socialização. No último capítulo de seu livro História da Sexualidade: A Vontade de Saber, Michel Foucault trata da realidade de separação social entre as vidas que merecem ser cuidadas e as vidas que não merecem ser objetos de cuidado pelo Estado e pelas instituições. Isso explica justamente uma lógica de organização social em que algumas vidas recebem grande investimento para viverem com dignidade enquanto outras são deixadas intencionalmente para morrer. Sobre essas vidas consideradas indignas nada é pronunciado enquanto o corpo de determinada parcela da população recebe um arcabouço enorme de investimentos e energias para terem suas vidas potencializadas. Enquanto, de um lado, há os corpos dóceis que quanto mais dóceis mais atenção possuem, de outro lado, há os corpos, histórias e memórias sobre quais não se fala. Há as situações de violência sobre as quais não há pronunciamento. Deixa-se que o tempo e as intemperes se encarregue de fazê-la chegar ao seu fim nas relações socioespaciais.
Tomando o conceito de safeguarding e de salvaguarda, ancorado no duplo díptico dos ambientes seguros, estruturas seguras, relações seguras e processos seguros, torna-se importante perguntar: quais ambientes, estruturas, processos e relações os jovens vivenciaram, vivem e continuam vivenciando para que seus corpos permaneçam nos ambientes eclesiais? Essa questão desloca o olhar da análise exclusiva dos acontecimentos para a compreensão das condições que possibilitam ou dificultam a construção de experiências seguras, dignas e humanizadoras.
Ao mesmo tempo, é necessário refletir sobre como as lógicas reproduzidas no interior desses espaços passam a ser incorporadas pelos próprios sujeitos, que frequentemente reproduzem e retroalimentam formas de relação e socialização aprendidas ao longo de suas experiências. Dessa maneira, permanece em curso um processo de naturalização de certos modos de constituição dos corpos juvenis. Uma naturalização que, por vezes, pode ser identificada como formas de violência ou como ações que potencialização as violências sofridas pelos jovens diante das vulnerabilidades já apontadas anteriormente.
Desnaturalizar essas dinâmicas significa, portanto, reconhecer que não são inevitáveis, nem pertencem à ordem natural das relações eclesiais. Significa compreender que os modos pelos quais os jovens são acolhidos, escutados, significados e o modo pelo qual eles se inserem nos ambientes comunitários são construções históricas, sociais e institucionais efetivadas no tensionamento entre sujeito e a instituição. E, justamente por serem construções, podem ser questionadas e transformadas. A preocupação com a salvaguarda, nesse horizonte, implica compreendê-la nesse horizonte de construção de processos de socializações capazes de promover o reconhecimento dos corpos juvenis e de potencializar as suas trajetórias na produção de sentido e horizontes de futuros repletos de esperança e vida.
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