O que a Animação Vocacional e o Acompanhamento Vocacional reaprendem com as juventudes contemporâneas?

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Padre Laércio, SJ

Reaprender com as juventudes exige de quem acompanha um caminho sério de humildade e conversão. Não se trata apenas de adquirir novos métodos ou linguagens, mas de deixar-se transformar pela realidade concreta dos jovens. Somente quem aceita aprender novamente torna-se capaz de enxergar para além daquilo que está diante dos olhos. Essa atitude nasce de uma profunda experiência com a realidade e com Jesus Cristo. Nos Evangelhos, Jesus nunca se detém nas aparências. Seu olhar alcança sempre a pessoa em sua verdade mais profunda, despertando nela aquilo que ainda permanece escondido. É essa pedagogia do encontro que inspira a animação e o acompanhamento vocacional. 

1. Reaprendemos a olhar sem julgar (Mc 5,1-20) 

O encontro de Jesus com o jovem gadareno revela uma das maiores lições para quem acompanha vocacionalmente. Aquele jovem vivia profundamente ferido. Fragmentado em sua identidade, dominado pelo medo, pela violência e pela exclusão. Habitava entre os túmulos. Aos olhos da sociedade, era apenas um problema. Sua história parecia resumir-se ao sofrimento que todos viam. Jesus, porém, aproxima-se de maneira completamente diferente. Antes de qualquer intervenção, faz uma pergunta decisiva: “Qual é o teu nome?” Ao perguntar pelo nome, Jesus devolve ao jovem a possibilidade de reencontrar sua identidade. A resposta é dolorosa: “Meu nome é Legião”. Já não havia unidade interior. Existia uma multidão de vozes, de dores e de fragmentações. Aquele jovem já não conseguia reconhecer quem realmente era. Foi justamente naquele diálogo gratuito, profundamente humano e totalmente livre de julgamento, que começou seu processo de libertação. Jesus não enxergou apenas a desordem exterior; contemplou a pessoa escondida sob todas as suas feridas. Também nós somos chamados a esse olhar. 

Cada jovem que se aproxima traz consigo uma história única, marcada por alegrias, traumas, buscas, sonhos e fracassos. Nenhuma trajetória pode ser reduzida aos comportamentos que aparecem na superfície. Por isso, acompanhar exige abandonar a lógica do “sempre foi assim”. Não existem receitas prontas nem modelos únicos. Cada jovem possui seu próprio ritmo, sua própria linguagem e seu próprio modo de buscar Deus. Na animação vocacional, reaprendemos que o jovem não é objeto da pastoral, ele é o centro do encontro. Somente um olhar verdadeiramente contemplativo nos permitirá alcançar lugares que jamais imaginaríamos existir em sua história. 

2. Reaprendemos a escutar antes de responder 

Nos Evangelhos, Jesus frequentemente inicia seus encontros fazendo perguntas, escutando longamente e caminhando com as pessoas antes de oferecer qualquer resposta. 

Essa também precisa ser a pedagogia do acompanhamento. Por trás de comportamentos contraditórios, de aparentes indiferenças ou mesmo de atitudes que nos inquietam, existe uma identidade que pede para ser reconhecida. O jovem nunca é apenas aquilo que manifesta exteriormente. Há uma sede profunda de sentido, um desejo de pertença, uma busca sincera por amor, liberdade e felicidade. Muitas dessas buscas permanecem escondidas até mesmo para o próprio jovem. Escutar torna-se, então, um verdadeiro exercício espiritual. 

Na tradição inaciana, escutar significa buscar os movimentos mais profundos do coração, onde Deus continua trabalhando silenciosamente. O acompanhante não procura ocupar o lugar de Deus nem oferecer respostas rápidas para todas as perguntasSua missão consiste em favorecer um espaço onde o próprio jovem possa reconhecer a ação do Espírito em sua vida. Por isso, reaprendemos uma verdade essencial: a obra pertence a Deus. Quem acompanha é apenas colaborador da graça. É Deus quem continua formando, curando, chamando e conduzindo cada vocação. 

3. Reaprendemos a esperar o tempo de Deus 

Vivemos numa cultura marcada pela velocidade, pelas respostas imediatas e pela necessidade constante de resultados. Entretanto, as juventudes nos recordam que a vida, a fé e a vocação amadurecem segundo outro ritmo. O acompanhamento vocacional exige paciência. Exige permanecer ao lado mesmo quando não percebemos mudanças imediatas. Exige confiar mais nos processos do que nos acontecimentos. Cada encontro possui um valor próprio. Cada pequena abertura, cada pergunta, cada crise e cada silêncio podem representar passos importantes no caminho que Deus está construindo

Mesmo em uma sociedade caracterizada pela fluidez das relações e das escolhas, os jovens continuam nos ensinando que a profundidade permanece possível. Ninguém amadurece simplesmente porque envelheceu. O amadurecimento acontece quando alguém experimenta ser acompanhado com fidelidade, esperança e confiança. 

Na espiritualidade inaciana aprendemos que Deus trabalha nos processos. Santo Inácio compreendeu que o crescimento espiritual acontece por meio do discernimento, da liberdade interior e da paciente colaboração com a graça. O tempo da vocação nunca é apenas cronológico; é sobretudo o tempo de Deus. As crises fazem parte desse caminho. 

Na verdade, poderíamos dizer que viver é atravessar crises. As juventudes contemporâneas nos ensinam a reaprender justamente isso: não fugir delas, mas atravessá-las com esperança. Em cada crise habita uma oportunidade de crescimento, de discernimento e de aprofundamento da própria identidade. As perguntas pelo sentido da vida, pelo projeto pessoal e pela própria vocação não nascem prontas. Elas amadurecem lentamente, enquanto a pessoa aprende a escutar os movimentos mais profundos do próprio coração. Por isso, o tempo do acompanhamento não é o nosso; pertence a Deus. O jovem gadareno é o grande testemunho dessa esperança. Depois de reencontrar sua verdadeira identidade, torna-se discípulo e missionário. Aquele que antes vivia entre os túmulos passa a anunciar a vida. 

Esse Evangelho nos recorda uma convicção fundamental para toda animação vocacional: ninguém está definitivamente perdido. Toda história pode ser redimida. Toda vida conserva uma dignidade que nenhuma crise consegue apagar. Talvez essa seja a maior reaprendizagem que as juventudes oferecem à Igreja: acompanhar não significa conduzir os jovens pelos caminhos que imaginamos para eles, mas caminhar ao seu lado até que descubram, diante de Deus, o caminho que o próprio Senhor já semeou no mais profundo de seus corações.  

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