Letícia Dantas de Lima, Pastoralista do Centro MAGIS Inaciano da Juventude
Desde o final do século XX, com a ascensão das interações sociais por meio da internet, o mundo tem vivenciado uma profunda transformação na forma como as informações são produzidas, compartilhadas e consumidas. Esse cenário é marcado pela velocidade de circulação dos conteúdos e por um volume cada vez maior de informações disponíveis. Em períodos eleitorais, essa realidade torna-se ainda mais evidente. Diariamente, os jovens são bombardeados com notícias, imagens, vídeos e opiniões que circulam pelas redes sociais e demais plataformas digitais, conteúdos que, muitas vezes, podem influenciar significativamente a formação de percepções e até mesmo as escolhas relacionadas aos líderes políticos dos próximos anos.
Segundo a pesquisa Panorama Político 2024, do Instituto de Pesquisa DataSenado, 72% dos usuários de redes sociais afirmaram já ter se deparado com notícias que consideravam falsas em um período de seis meses. Trata-se de um cenário que reforça a necessidade de fortalecer processos educativos e formativos voltados à leitura crítica da realidade, à responsabilidade no compartilhamento de conteúdos e à participação cidadã consciente diante das informações que circulam no ambiente digital.
Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV também chama atenção para os impactos das tecnologias digitais na vida social e política. Segundo o pontífice, a utilização de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial tem acelerado profundas transformações na comunicação pública, ao mesmo tempo em que pode favorecer a construção de narrativas distorcidas e dificultar a distinção entre o verdadeiro e o falso. Nesse contexto, ele recorda que “a busca da verdade é um elemento essencial para a democracia”, destacando ainda a necessidade de uma verdadeira “ecologia da comunicação”, na qual a verdade seja compreendida como um bem comum e não como propriedade daqueles que detêm maior poder ou visibilidade.
Tendo esse horizonte em vista, convidamos o Dr. Professor José Maria Monteiro para compartilhar reflexões sobre os desafios da comunicação contemporânea, a responsabilidade no consumo e compartilhamento de informações, o papel das redes sociais na formação de opiniões e os caminhos possíveis para a construção de uma cultura digital mais crítica, consciente e comprometida com a verdade. Professor Associado da Universidade Federal do Ceará (UFC), pesquisador nas áreas de Big Data, Ciência de Dados e Redes Sociais e integrante do setor de comunicação do Movimento Igreja em Saída, sua trajetória acadêmica e eclesial oferece importantes contribuições para a compreensão das dinâmicas informacionais que atravessam a vida social, política e digital na atualidade.
Informação, velocidade e responsabilidade
A velocidade das redes sociais e o excesso de informações disponíveis transformaram profundamente a forma como as pessoas se relacionam com o conhecimento. Para José Maria Monteiro, um dos principais desafios está na formação das chamadas “câmeras de eco”, ambientes em que os usuários são expostos principalmente a conteúdos que reforçam suas próprias crenças.
“Os jovens crescem acreditando que sua visão de mundo é universal, quando, na verdade, está sendo filtrada por sistemas de recomendação que priorizam o engajamento em detrimento do pluralismo”, explica.
Outro desafio apontado pelo professor é a lógica da rapidez que domina o ambiente digital. Segundo ele, as redes sociais favorecem o consumo superficial de conteúdos e reduzem o espaço para a reflexão aprofundada.
“O jovem consome uma pílula de informação sobre um tema complexo e sente que o compreendeu. O desafio aqui é a perda do hábito da leitura profunda e da investigação, trocando a complexidade por respostas simples e mastigadas.”
Para ele, desenvolver pensamento crítico requer tempo, pesquisa e capacidade de análise. “Aplicar o método ver-jugar-agir, por exemplo, exige tempo e esforço. Luxos que o ritmo das redes sociais não oferece naturalmente.”, continua.
José Maria também destaca que as plataformas digitais são estruturadas para estimular reações emocionais intensas, especialmente sentimentos como medo, indignação e raiva. Como consequência, muitas vezes a emoção se sobrepõe à análise racional dos fatos.
“A consciência crítica, por outro lado, exige uma distância emocional temporária para analisar fatos e evidências. Quando a emoção domina, a análise crítica é frequentemente abandonada”, afirma.
Nesse contexto, o pesquisador defende que um dos grandes desafios da atualidade é fortalecer a educação para a leitura crítica da mídia e para o consumo consciente de informações.
“O grande desafio da educação e da sociedade hoje não é mais ensinar o jovem a encontrar a informação, mas sim ensiná-lo a filtrar, desconfiar e conectar os dados para que se tornem conhecimento real.”
Para ele, é fundamental formar pessoas capazes de questionar fontes, identificar interesses e avaliar criticamente as narrativas que circulam no ambiente digital.
“Quem produziu o conteúdo? Com qual intenção? Com base em quais evidências? O que foi omitido? Quem se beneficia dessa narrativa? Essa postura investigativa é essencial para que eles atuem como sujeitos autônomos, responsáveis e participativos em uma sociedade marcada pela disputa permanente de sentidos.”
Desinformação e participação social
Em um contexto em que grande parte da população já teve contato com conteúdos considerados falsos nas redes sociais, cresce a preocupação com os impactos da desinformação sobre a vida democrática. Para o professor, o problema vai além da circulação de mentiras e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade, participam da esfera pública e constroem relações de confiança.
Segundo o pesquisador, a desinformação pode tanto mobilizar pessoas a partir do medo, da raiva ou de falsas ameaças quanto produzir o efeito contrário: a apatia política (desengajamento).
“Quanto mais desinformação circula, menos as pessoas confiam em qualquer informação, incluindo as verdadeiras.”
Nesse cenário, o debate público também se fragiliza. Em vez de discussões fundamentadas em argumentos e evidências, ganham espaço teorias conspiratórias, acusações e narrativas simplificadas.
“As pessoas não estão argumentando sobre interpretações diferentes da mesma realidade; estão vivendo em realidades diferentes.”
O professor destaca ainda que a desinformação favorece a polarização e corrói a confiança nas instituições democráticas. Quando eleições, imprensa, universidades ou órgãos públicos passam a ser alvo constante de narrativas falsas, enfraquece-se o espaço comum necessário para o diálogo e a construção de consensos. Por isso, defende “combater a desinformação não depende apenas de remover conteúdos falsos, mas também de fortalecer a educação midiática, o pensamento crítico, a transparência das plataformas e a valorização de fontes confiáveis.”
Fake news e responsabilidade coletiva
O combate à desinformação exige a participação de diferentes atores da sociedade. Para José Maria, as plataformas digitais possuem uma responsabilidade particular nesse processo, já que controlam os mecanismos de circulação das informações.
“Elas não são neutras; seus algoritmos e políticas moldam o que circula.”
Por isso, defende maior transparência sobre os critérios de recomendação de conteúdo, a redução do alcance de informações comprovadamente falsas e ações mais efetivas contra redes coordenadas de desinformação.
“As plataformas podem (e algumas já fazem ou fizeram) adicionar contexto a conteúdo potencialmente falso. Isso pode ser realizado por meio de notas de verificadores independentes (fact-checking), links para fontes confiáveis, avisos sobre desinformação conhecida. Isso não é censura; é fornecer informação adicional.”, comenta.
O professor também destaca o papel das instituições públicas e democráticas na construção de um ambiente informacional mais saudável. Segundo ele, governos devem estabelecer marcos regulatórios capazes de responsabilizar plataformas sem comprometer a liberdade de expressão, enquanto pesquisadores e jornalistas precisam ter condições adequadas para investigar e denunciar práticas de manipulação informacional.
Em relação aos usuários, José Maria afirma que é importante desenvolver hábitos de verificação antes do compartilhamento de conteúdos, mas ressalta que a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre quem consome informação. “A chave é buscar a responsabilidade sem culpa.” Para ele, plataformas, instituições e cidadãos dependem uns dos outros para enfrentar o problema. “Combater a desinformação não é responsabilidade de um único ator. É um esforço coletivo em que cada ator faz sua parte, reconhecendo que todos dependem uns dos outros.”
Juventudes e consumo consciente de informação
Ao abordar o papel das juventudes no ambiente digital, Monteiro procura oferecer caminhos concretos para um consumo mais consciente das informações. Em sua explicação, o pesquisador apresenta 15 hábitos que podem ajudar os jovens a desenvolver maior autonomia diante das redes sociais, entre eles: fazer uma pausa antes de compartilhar conteúdos; verificar fontes; buscar múltiplas perspectivas; reconhecer padrões de desinformação; consumir conteúdos de forma intencional; realizar uma curadoria ativa dos próprios feeds; diversificar fontes de informação; fazer pausas deliberadas das redes; questionar as próprias reações emocionais; buscar contexto histórico; reconhecer vieses pessoais; estar disposto a mudar de ideia; dialogar com respeito com quem pensa diferente; resistir à cultura do cancelamento; e amplificar conteúdos de qualidade.
Entre as práticas destacadas, o professor chama atenção para a necessidade de desacelerar antes de compartilhar conteúdos.
“O impulso de compartilhar é imediato nas redes sociais. Um hábito simples, mas poderoso, é fazer uma pausa de 10 segundos antes de compartilhar qualquer conteúdo. Nessa pausa, pergunte-se: ‘Eu verifico que isso é verdadeiro? Qual é a fonte? Por que estou compartilhando?’”
Segundo ele, grande parte da desinformação circula justamente porque as pessoas compartilham informações sem refletir ou verificar sua origem.
José Maria também ressalta a importância de verificar fontes e buscar diferentes perspectivas sobre um mesmo assunto. “Quando encontrar informação importante, o jovem deve perguntar-se: ‘Outras fontes confiáveis confirmam isso?’”. Para ele, a consulta a múltiplas fontes e a comparação de abordagens ajudam a reduzir vieses e ampliam a compreensão sobre temas complexos. O pesquisador ainda recomenda aprender a identificar sinais comuns de conteúdos desinformativos, como sensacionalismo extremo, apelos emocionais intensos, ausência de contexto e afirmações sem evidências.
Outro ponto central da sua reflexão diz respeito à forma como utilizamos as próprias plataformas digitais.
“Um hábito crucial é diferenciar entre consumo intencional e consumo passivo. […] O consumo passivo é o ambiente onde a desinformação e a manipulação prosperam, pois o algoritmo controla o que você vê, não você.”
Nesse sentido, ele recomenda estabelecer limites de tempo para o uso das redes, diversificar os meios de informação e construir conscientemente uma rede de fontes confiáveis.
O pesquisador também destaca hábitos ligados ao autoconhecimento e à convivência democrática. “Quando uma postagem provoca uma forte reação emocional, pause e pergunte-se: ‘Por que estou tendo essa reação? O conteúdo foi projetado para provocar isso?’”. Ele defende ainda a disposição para rever opiniões diante de novas evidências e para dialogar com respeito com quem pensa diferente. “Pensamento crítico genuíno é questionar até que você chegue a uma conclusão baseada em evidências e, então, estar disposto a mudar essa conclusão se surgir nova evidência.”
Para José Maria, essas práticas não devem ser compreendidas como regras rígidas ou mecanismos de culpa, mas como instrumentos de autonomia.
“O consumo consciente de conteúdo digital é uma habilidade do século XXI. Como qualquer habilidade, melhora com prática. Os jovens que desenvolvem esses hábitos agora estarão melhor preparados não apenas para navegar pela desinformação, mas também para serem cidadãos críticos e informados em uma democracia cada vez mais digital.”.
Algoritmos, bolhas e polarização
Ao analisar o papel dos algoritmos na formação da opinião pública, José Maria explica que as plataformas digitais são estruturadas para maximizar o engajamento dos usuários. “Quanto mais tempo você passa na plataforma, mais anúncios você vê, mais dinheiro a plataforma ganha.” Nesse contexto, conteúdos que despertam emoções fortes costumam receber mais visibilidade e circulação.
Segundo o pesquisador, os algoritmos não são programados necessariamente para criar bolhas de pensamento, mas acabam produzindo esse efeito ao recomendar conteúdos semelhantes aos que cada pessoa já consome. “O jovem pode ter a impressão de que está vendo ‘o mundo como ele é’, quando, na verdade, está vendo uma versão filtrada da realidade.” Para ele, o aspecto mais preocupante é que muitas vezes os usuários sequer percebem esse processo: “Você vê seu feed, assume que é representativo do mundo e não percebe que outras pessoas estão vendo feeds completamente diferentes.”
Essa dinâmica contribui diretamente para a polarização. José Maria explica que existe um fenômeno psicológico chamado “polarização de grupo” (group polarization): “quando um grupo de pessoas com perspectivas semelhantes se reúne, tende a adotar posições mais extremas.”. Além disso, a falta de contato com opiniões divergentes reduz a capacidade de compreender o outro e favorece a construção de caricaturas sobre grupos políticos ou sociais. Como resultado, o debate público deixa de ser um espaço de diálogo e passa a ser marcado por antagonismos cada vez mais intensos.
Apesar dos desafios, o professor acredita que existem caminhos para romper a lógica da polarização e dos algoritmos, mas que é um caminho difícil que requer ações diversas. Entre eles, cita uma otimização dos algoritmos, com um ‘engajamento significativo’, a necessidade de maior transparência sobre o funcionamento dos algoritmos, regulamentações governamentais que responsabilizem as plataformas, investimentos em educação midiática e o fortalecimento do jornalismo de qualidade. No âmbito individual, destaca a importância de buscar deliberadamente perspectivas diferentes daquelas oferecidas pelo algoritmo. Ainda assim, reconhece que não há soluções simples: “romper completamente com a lógica das bolhas é impossível no curto prazo”. O desafio, segundo ele, é encontrar um equilíbrio entre personalização e diversidade, condição necessária para uma democracia saudável.
Educação digital e formação crítica
“A questão central é: como educar para o mundo digital?”. Ao responder sobre os desafios da educação digital, o professor reconhece que ainda não existe uma resposta definitiva. Ainda assim, afirma que já existem algumas pistas importantes:
1. Literacia da informação
A primeira delas é a literacia da informação. Para o professor, isso envolve reconhecer quando não se sabe algo, saber pesquisar, identificar fontes confiáveis e construir conclusões próprias a partir de diferentes referências. Em suas palavras, trata-se da capacidade de “identificar quando você precisa de informação, como encontrá-la, avaliá-la e usá-la de forma eficaz”.
2. Literacia midiática
Outro aspecto essencial é compreender como a mídia funciona e quais interesses estão por trás da circulação de conteúdos. José Maria destaca que não basta analisar a mensagem em si, mas também entender quem a produz, com qual objetivo e de que forma ela busca impactar a audiência. Segundo ele, “o cidadão digital precisa entender a lógica por trás da tela. Saber que os feeds são personalizados, que as plataformas lucram com o tempo de retenção e que a indignação é monetizada ajuda a criar um distanciamento saudável em relação aos gatilhos emocionais da rede”.
3. Pensamento crítico e analítico
O pesquisador também aponta o pensamento crítico como uma competência indispensável. Isso inclui questionar argumentos, reconhecer falácias, analisar evidências e compreender a complexidade dos problemas contemporâneos. Em um contexto marcado por memes, vídeos curtos e conteúdos produzidos por inteligência artificial, ele afirma que “a competência crítica envolve ler entre as linhas dessas mídias e entender como a estética é usada para convencer”.
4. Literacia de dados
Diante da crescente presença de estatísticas, gráficos e indicadores no debate público, José Maria defende o desenvolvimento da literacia de dados. Para ele, é fundamental compreender conceitos básicos de estatística, interpretar visualizações e questionar a origem dos números apresentados. “Os dados não são neutros. Como foram coletados? Quem os coletou? Que perguntas foram feitas?” são algumas das questões que considera indispensáveis para uma leitura crítica da realidade.
5. Literacia técnica
A compreensão básica das tecnologias também faz parte da formação digital. O professor argumenta que não é necessário ser programador, mas é importante entender como funcionam a internet, os algoritmos, a inteligência artificial e os mecanismos de segurança digital. Segundo ele, conhecer esses processos ajuda as pessoas a compreenderem melhor os riscos, as oportunidades e os limites das tecnologias que utilizam diariamente.
6. Literacia de privacidade e segurança
Outra competência destacada é a capacidade de proteger os próprios dados e compreender os riscos presentes no ambiente digital. José Maria lembra que informações pessoais se tornaram um ativo valioso na internet e que os usuários precisam conhecer seus direitos e desenvolver práticas seguras. “Quem está coletando seus dados? Como estão usando? Que privacidade você realmente tem?” são perguntas que, segundo ele, devem fazer parte da educação digital contemporânea.
7. Competência comunicativa digital
Para o pesquisador, a formação crítica também passa pela maneira como nos comunicamos. Isso envolve produzir conteúdos com responsabilidade, compreender contextos e desenvolver a capacidade de dialogar respeitosamente. Entre os aspectos centrais dessa competência, ele destaca a necessidade de compreender que “você é responsável pelo conteúdo que amplifica”, tornando o compartilhamento de informações um ato ético e social.
8. Consciência ética e cívica
Por fim, o entrevistado ressalta que a educação digital não pode se limitar aos aspectos técnicos. Para ele, a dimensão ética é central. Isso significa compreender os impactos sociais das tecnologias, exercitar a empatia digital, respeitar a privacidade das pessoas e participar de forma responsável da vida pública. Nesse sentido, ele defende que os jovens sejam capazes de reconhecer que o ambiente digital também é um espaço de convivência e cidadania, onde as palavras e ações produzem consequências reais.
Ao concluir sua reflexão, o professor reforça que a educação digital crítica não pretende afastar os jovens da internet, mas prepará-los para habitá-la de forma mais consciente. “Uma educação digital crítica deve formar jovens que não apenas saibam usar tecnologias, mas também saibam pensar sobre elas.” Para ele, esse é um desafio que exige investimento, formação de educadores e compromisso coletivo, mas que já não pode mais ser adiado.
Compartilhar também é um ato ético
Ao refletir sobre a responsabilidade na comunicação digital, José Maria recorda que, durante muito tempo, a produção de conteúdos esteve concentrada em veículos de comunicação e profissionais especializados. Com a popularização das redes sociais, essa lógica mudou profundamente. “Hoje, qualquer pessoa com um smartphone é produtora de conteúdo. Você pode criar conteúdo e alcançar milhões em minutos. Mas essa capacidade não vem acompanhada de educação sobre as responsabilidades a ela relacionadas.”
Para o pesquisador, o primeiro passo é compreender que comunicar nunca é um ato neutro. Segundo ele, toda mensagem compartilhada pode informar ou desinformar, unir ou polarizar, fortalecer a verdade ou ampliar mentiras. Por isso, “quando você compartilha um determinado conteúdo, não está apenas expressando uma opinião pessoal; está participando da construção da realidade compartilhada. Está influenciando a forma como outras pessoas entendem o mundo”. Dessa forma, curtidas, comentários e compartilhamentos também carregam implicações éticas e sociais.
José Maria destaca ainda que a liberdade de expressão deve caminhar junto com a responsabilidade. Em sua avaliação, “as pessoas têm direito de se manifestar, criticar e discordar, mas isso não autoriza mentir, difamar, humilhar, ameaçar ou espalhar informações sem cuidado”. Para ele, uma comunicação verdadeiramente livre é aquela que também está comprometida com a verdade, o respeito e a dignidade das pessoas envolvidas.
Outro aspecto fundamental é a empatia comunicativa. O professor alerta que o ambiente digital frequentemente cria a ilusão de que não existem pessoas reais do outro lado da tela. Nesse contexto, comentários agressivos, exposições indevidas e discursos de ódio acabam sendo naturalizados. Ele também chama atenção para os impactos coletivos da comunicação, lembrando que “uma mentira compartilhada por milhares de pessoas pode influenciar eleições, campanhas de vacinação, reputações públicas, conflitos sociais e decisões familiares”.
Como proposta prática, José Maria sugere aplicar ao ambiente digital a conhecida metáfora dos três filtros. Antes de publicar ou compartilhar qualquer conteúdo, ele recomenda perguntar: “Eu tenho certeza absoluta de que esse fato é real e está contextualizado?”, “Esse conteúdo constrói algo positivo ou serve apenas para destilar ódio, expor ou ferir alguém?” e “O que eu vou compartilhar vai acrescentar algo útil ao debate ou é apenas ruído desnecessário?”. Para ele, essas perguntas ajudam a desenvolver uma postura mais consciente diante das redes.
O pesquisador também ressalta a importância de compreender que tudo o que fazemos na internet deixa rastros. “É preciso trabalhar a percepção de que a internet é uma calçada de cimento fresco: tudo o que fazemos deixa uma marca permanente.” No entanto, ele acredita que a melhor forma de educar para a responsabilidade digital não é por meio do medo ou da censura, mas pelo protagonismo. Em vez de apenas apontar o que não deve ser feito, defende o incentivo à produção de conteúdos baseados em fatos, escuta e respeito, fortalecendo uma cultura digital mais humana e comprometida com o bem comum.
Caminhos possíveis para o ambiente digital
Ao concluir a reflexão, José Maria Monteiro destaca que os problemas enfrentados atualmente não são inevitáveis. Embora reconheça que os algoritmos recompensam a polarização, a desinformação e o engajamento baseado em emoções, ele lembra que esse cenário foi construído por escolhas humanas e, portanto, pode ser transformado. Para o entrevistado, a construção de uma cultura digital mais consciente passa por cinco caminhos complementares, que precisam caminhar juntos.
1. O caminho do design ético
O primeiro passo está na própria arquitetura das plataformas digitais. Segundo José Maria, é preciso repensar a lógica dos algoritmos, que hoje priorizam o tempo de permanência e o engajamento a qualquer custo. Ele defende que as redes passem a valorizar “interações que refletem reflexão genuína”, ampliem a exposição a perspectivas diversas e ofereçam mais transparência sobre os critérios de recomendação.
Nesse sentido, o pesquisador também aponta a necessidade de reduzir a circulação de conteúdos comprovadamente falsos e valorizar iniciativas de checagem de fatos. “Conteúdo que verifica fatos, fornece contexto e cita fontes poderia receber mais amplificação. Isso incentivaria uma comunicação mais responsável”, afirma.
2. O caminho da regulação e da governança
Outra frente fundamental envolve a criação de regras claras para as grandes plataformas digitais. Para José Maria, “a internet não pode ser um território sem lei onde o lucro corporativo se sobrepõe aos direitos humanos e à estabilidade social”. Ele defende regulamentações que promovam transparência, responsabilização e proteção dos usuários, sem comprometer a liberdade de expressão.
Entre as medidas possíveis, o professor cita auditorias independentes, maior controle dos usuários sobre seus próprios dados, fortalecimento da concorrência entre plataformas e mecanismos que permitam acompanhar os impactos sociais dos algoritmos. O objetivo, segundo ele, é garantir que o interesse público tenha espaço diante dos interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia.
3. O caminho da educação
José Maria considera a educação uma das principais respostas aos desafios do ambiente digital. Em sua avaliação, “assim como no início do século XX o desafio era ensinar a ler e escrever, o desafio do século XXI é ensinar a interpretar o ecossistema de mídias”. Por isso, defende que a educação digital crítica esteja presente em todas as etapas da formação.
O pesquisador propõe investimentos na formação de professores, programas voltados para adultos e iniciativas comunitárias que ampliem o acesso ao letramento digital. Para ele, “à medida que a tecnologia evolui, a educação deve acompanhar” e é necessário preparar as pessoas para compreender os mecanismos que moldam a circulação de informações.
4. O caminho do jornalismo
O quarto caminho passa pelo fortalecimento do jornalismo profissional. Ele define o jornalismo rigoroso como um dos principais antídotos contra a desinformação, mas alerta para os desafios enfrentados pelo setor. Nesse contexto, ele defende o apoio a iniciativas jornalísticas comprometidas com a verificação dos fatos e a contextualização das informações.
Além disso, ressalta a importância de proteger jornalistas e incentivar investigações colaborativas. Também considera essencial aproximar o público dos processos de produção da notícia, tornando mais visível o trabalho de apuração e checagem realizado pelos profissionais da comunicação.
5. O caminho individual: a ecologia cognitiva
Por fim, José Maria lembra que a transformação também depende das escolhas de cada pessoa. Ele propõe o desenvolvimento de uma verdadeira “ecologia cognitiva”, baseada em hábitos que favoreçam uma relação mais saudável com a informação.
Entre as práticas sugeridas estão a curadoria consciente dos feeds, a busca por perspectivas diferentes, a verificação antes do compartilhamento e pausas regulares das redes sociais. O professor também destaca a importância do “ceticismo saudável”, que consiste em questionar fontes e narrativas, e da “empatia radical”, entendida como a disposição de dialogar sem desumanizar quem pensa diferente.
Ao final, ele reforça que os caminhos para uma cultura digital mais humana já são conhecidos. “A tecnologia para algoritmos melhores já existe. O conhecimento sobre educação digital existe. O conhecimento sobre como combater a desinformação existe.” Para ele, o principal desafio está na construção de uma vontade coletiva capaz de transformar essas possibilidades em realidade. Afinal, conclui, “a construção de uma cultura digital mais humana não implica lutar contra a tecnologia, mas colocá-la de volta ao seu verdadeiro lugar: o de ferramenta a serviço do desenvolvimento humano”.
Sobre o entrevistado
José Maria da Silva Monteiro Filho é doutor em Informática pela PUC-Rio, mestre e bacharel em Computação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor Associado do Departamento de Computação da UFC desde 2010, atua na graduação e na pós-graduação em Ciência da Computação, com pesquisas voltadas para Banco de Dados, Big Data, Ciência de Dados e Redes Sociais. Atualmente coordena o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação (MDCC/UFC) e o grupo de pesquisa ARIDA. Desde 2018, integra o setor de comunicação do Movimento Igreja em Saída e assessora pastorais sociais e organismos da Arquidiocese de Fortaleza.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Senado Federal. DataSenado. Pesquisa DataSenado revela o que pensa o brasileiro sobre fake news.
LEÃO XIV. Magnifica Humanitas. Cidade do Vaticano, 2026.
ZENHA, Luciana. Redes sociais online: o que são as redes sociais e como se organizam. Caderno de Educação, ano 20, n. 49, v. 1, p. 19-42, 2017/2018.







