Tempo dos estudos III. (Autobiografia, 75).

Escrito por Pe. Felipe Soriano, SJ

Inácio era muito dado à imaginação, coisa notável na forma como ele concebe suas meditações e contemplações nos Exercícios Espirituais. Sua habilidade e sensibilidade fazia encontrar a Cristo com muita facilidade, pois tudo que fazia, desejava e buscava o levava a Ele. Como diz Pe. Arrupe, para Inácio, não há nada mais fácil do que encontrar a Deus… (Poema “Apaixona-te”). Como a experiência de Manresa não se descreve facilmente, é na autobiografia que vamos acessando pequenos lampejos do que significa essa cristificação de sua vida: “Ver todas as coisas sempre novas em Cristo”.

Na autobiografia, Inácio considera, dizendo para si mesmo, e com muita consolação, ver Cristo em seu mestre escola e em seus amigos de classe seus discípulos: “imaginando que o mestre seria Cristo, e a um [amigo] punha o nome de São Pedro, e a outro de São João, e assim cada um dos apóstolos”. A experiência descrita em sua autobiografia confessa Inácio um homem apaixonado por Deus de forma definitiva e absoluta, pois o que P. Arrupe descreve em sua poesia se aplica facilmente a ele: “O que te apaixona e prende a tua imaginação, vai deixando a sua marca em tudo”.

Inácio estava tão absorto por aquelas ideias que tinha coragem de coloca-las em dúvida: “E quando me mandar o mestre, pensarei que me manda Cristo; e quando me mandar outros, pensarei que é São Pedro”. Essas iluminações não existiam sem mais, pois havia no Colégio de Montaigu um grupo chamado Comunidade dos pobres que era formada por alunos que se dedicavam ao trabalho doméstico dos mestres para seguir gratuitamente nos estudos. A princípio, a comunidade deveria ter 12 teólogos, em memória dos 12 apóstolos, e 72 estudantes de filosofia, em memória dos 72 discípulos de Cristo. Inácio fez muitos contatos em busca de conseguir um amo (mestre), mas nunca conseguiu que lhe encontrassem um amo ou lhe dessem entrada neste grupo.

Essa experiência de ser chamado pelo Senhor para o seu discipulado é marca característica da dinâmica dos Exercícios Espirituais. Há inúmeras referências a essa experiência como elemento que dá identidade à Mínima Companhia de Jesus: O Chamado do Rei Eternal (EE 91); Santo André e outros seguiam a Cristo Nosso Senhor (EE 275) e a Meditação das Duas Bandeiras (EE 136). Por isso que os primeiros companheiros não tiveram dúvida ao iniciar a fórmula do instituto dizendo: “Todo aquele que pretende alistar-se sob a bandeira da Cruz, na nossa Companhia, que desejamos se assinale com o nome de Jesus” (Alistar-se sobre a bandeira da Cruz ao modo apostólico).

Essas ideias de ver Cristo por mestre e ser membro de sua milícia apostólica o consolava imensamente. Como pensa P. Arrupe, servir a Cristo e segui-lo era o ideal de sua vida: “Determinará o que te faz levantar da cama pela manhã, o que fazes nas tuas tardes, como passas os teus fins de semana, o que lês, o que conheces, o que parte o teu coração e o que te enche de alegria e gratidão”. Tais ideias e iluminações foram fundamentais para acalentar seu ânimo, pois, mesmo imerso em tantas dificuldades, nunca desistiu de estudar e de buscar melhores condições.

Há inúmeras dificuldades ainda hoje para aqueles que desejam enfrentar a vida de estudos. Há pouco incentivo, poucas parcerias e quase nenhum financiamento. O que Inácio conseguiu foi calar em si mesmo às vozes contrárias daqueles que diziam que era loucura o que ele buscava. A experiência de Inácio nos mostra que, mesmo com tantas dificuldades, algo não pode faltar… Ele encontrou em sua experiência de fé e na figura de Jesus a paixão que fazia tudo ser diferente para ele.

Como nos diz São Paulo, “Por causa de Cristo, porém, tudo o que eu considerava como lucro agora considero como perda. E mais ainda: considero tudo lixo, diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa dele perdi tudo e considero tudo como prejuízo, a fim de ganhar Cristo e estar com ele”.

Texto bíblico Fl 3, 7-9

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