Como rezar com a imaginação: um guia breve sobre a contemplação inaciana

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Ilustração de Jesus caminhando e conversando com dois discípulos em uma estrada, em meio a uma paisagem arborizada. A cena aparece sobre um fundo claro com textura de papel e bordas irregulares.

Ir. Douglas Turri, SJ

Você já abriu a Bíblia com vontade de rezar, leu uma passagem do Evangelho e, mesmo assim, sentiu que faltava alguma coisa? Como transformar aquelas palavras, escritas há dois mil anos, num encontro real com Deus, hoje? Santo Inácio de Loyola propõe um caminho muito concreto para isso. Não se trata apenas de estudar o texto com mais atenção ou de compreender melhor seu significado. Trata-se de entrar na cena. 

O que é a contemplação inaciana 

Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio propõe um modo de oração que ficou conhecido como contemplação inaciana, ou oração imaginativa. A ideia é simples de explicar, mas profunda de experimentar: usar a imaginação para entrar numa cena do Evangelho, não apenas como quem observa de fora, mas como quem está presente. 

Na linguagem dos Exercícios Espirituais, “contemplação” assume um sentido muito concreto: contemplamos os mistérios da vida de Cristo entrando imaginativamente na cena, atentos às pessoas, às palavras que dizem, às ações que fazem, e permanecendo ali. 

Inácio não foi o primeiro cristão a rezar imaginativamente com as cenas da vida de Cristo. Essa prática já estava presente na espiritualidade medieval. Durante sua convalescença em Loyola, ele teve contato com a Vida de Cristo, de Ludolfo da Saxônia, uma das leituras que marcaram seu processo de conversão. 

Nos Exercícios, porém, há algo muito bonito: Inácio não quer que alguém faça todo o trabalho por quem está rezando. Quem acompanha oferece alguns pontos, ajuda a preparar a oração e abre caminhos, mas deixa espaço para que a pessoa faça sua própria experiência. É o próprio Inácio quem insiste que é preciso permitir que o Criador trate diretamente com a criatura, e a criatura com seu Criador e Senhor. Esse princípio é importante para entender a contemplação, e também está no coração da série Ver, Escutar e Seguir: não queremos dizer a você o que deve sentir diante de uma passagem do Evangelho, queremos ajudar a abrir a porta. Quem entra na cena é você. 

Nos Exercícios, Inácio utiliza a contemplação especialmente para rezar os mistérios da vida, paixão e ressurreição de Jesus. Por isso, quando falamos de contemplação inaciana, pensamos quase imediatamente nas cenas do Evangelho. É ali que podemos ver Jesus caminhando, escutar sua voz, observar seus gestos, perceber as pessoas que se aproximam dele e, pouco a pouco, encontrar também o nosso lugar. A imaginação ajuda a Palavra a ganhar corpo, presença e voz dentro de nós. Isso não significa inventar livremente outra história. O ponto de partida, e o lugar para onde sempre podemos voltar, é o próprio texto bíblico. 

Como fazer, na prática? 

Imagine uma câmera começando com um plano aberto: primeiro vemos o lugar, a paisagem, as pessoas. Aos poucos, a câmera se aproxima, e começamos a perceber os rostos, os gestos, as mãos, as palavras. Na contemplação, fazemos algo parecido. 

1. Leia a Palavra 

Comece pela passagem bíblica. Leia devagar, talvez mais de uma vez, sem pressa de procurar explicações. Primeiro, deixe o texto chegar até você. A imaginação nasce da Palavra, não a substitui. 

2. Prepare a oração 

Coloque-se diante de Deus. Perceba que você está entrando num tempo de encontro, e peça a graça que deseja receber. Nos Exercícios, Santo Inácio propõe, ao contemplar a vida de Jesus, pedir uma graça muito bonita: conhecê-lo mais intimamente, para mais amá-lo e segui-lo. Talvez essa possa ser também a sua oração. 

3. Entre na cena 

Agora, imagine o lugar onde tudo acontece. Veja o ambiente, perceba quem está ali, observe a cena primeiro de longe e, aos poucos, aproxime-se. Não se preocupe em construir todos os detalhes. Apenas esteja ali. 

4. Veja, escute e observe 

Veja as pessoas, escute o que dizem, observe o que fazem. Se ajudar, envolva também os outros sentidos: perceba os sons, o ambiente, a proximidade das pessoas, aquilo que torna a cena viva para você. E não tenha medo de se colocar ali: talvez você esteja perto de Jesus, talvez entre a multidão, talvez apenas observando, talvez perceba que gostaria de falar com alguém. Deixe a oração acontecer. 

5. Perceba o que acontece em você 

Uma palavra chamou sua atenção? Um gesto de Jesus tocou você? Alguma coisa provocou alegria, resistência, desejo, medo, esperança? Permaneça ali. Você não precisa terminar todo o roteiro. Na oração, às vezes encontramos alguma coisa que merece ser saboreada devagar; quando isso acontecer, não tenha pressa de passar para o próximo ponto. Fique. Escute. 

6. Converse com Jesus 

Ao final, converse com Jesus. Santo Inácio chama esse momento de colóquio. Não precisa procurar palavras bonitas ou uma fórmula pronta: fale do que aconteceu durante a oração, conte o que sentiu, pergunte, agradeça, reclame, peça, ou simplesmente permaneça em silêncio. Converse com Ele como um amigo fala com outro. Depois, se ajudar, recorde brevemente sua oração: o que mais ficou? Que palavra voltou? Onde você percebeu mais vida? O que foi difícil? Talvez seja justamente aí que alguma coisa continue sendo trabalhada dentro de você. 

“Será que estou fazendo certo?” 

Essa dúvida é muito comum. Talvez você comece a rezar e pense: “Será que não estou apenas inventando coisas?” Não é preciso preencher todos os detalhes, nem enxergar tudo como se estivesse assistindo a um filme. Algumas pessoas visualizam as cenas com muita facilidade; outras percebem mais as palavras; outras sentem os movimentos interiores sem formar imagens muito nítidas. Não force. A oração não depende da sua capacidade de imaginar. 

Se perceber que se afastou demais da cena, ou simplesmente se perdeu, volte para a Palavra. Pergunte novamente: quem está ali? O que dizem? O que fazem? E recomece daí. 

Também não compare sua oração com a de outra pessoa. Duas pessoas podem contemplar a mesma passagem e serem tocadas por coisas completamente diferentes. Isso faz parte do encontro. O importante é permanecer disponível a Deus e perceber, com o tempo, para onde essa oração está conduzindo sua vida: está ajudando você a amar mais? A servir mais? A se aproximar de Jesus? A olhar para os outros e para a própria vida de um jeito novo? Talvez essas perguntas sejam mais importantes do que simplesmente perguntar se você “fez certo”. 

Agora, é sua vez de entrar na cena 

Durante o mês de setembro, a série Ver, Escutar e Seguir, do Vocações Jesuítas, vai fazer justamente esse convite. A cada episódio, uma cena do Evangelho, uma obra de arte para nos ajudar a olhar, algumas perguntas para abrir caminhos e, no final, um convite muito simples: pegue sua Bíblia e contemple. 

Não queremos fazer a oração por você. Queremos ajudar você a encontrar a porta. A contemplação não é uma técnica para produzir sentimentos ou encontrar respostas. É um modo de permanecer com a Palavra e deixar que ela se torne encontro, no seu tempo, do seu jeito. 

Veja, escute, e deixe que o encontro mostre por onde seguir.

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