Pe. Ronaldo Zacharias, SDB
Para o Papa Francisco, levar os jovens a sério implica dar a devida atenção à educação sexual, ajudando-os “a preparar-se seriamente para um amor grande e generoso” (Amoris Laetitia, 284). No entanto, tal responsabilidade tem sido negligenciada pela maioria das instituições católicas de ensino, tanto na educação básica quanto no ensino superior. Como consequência, adolescentes e jovens ficam desamparados no que diz respeito a compreender a própria identidade sexual e a integrá-la ao seu projeto de vida.
As razões que explicam esse fenômeno são múltiplas e complexas e exigiriam uma abordagem crítica, o que excede o escopo desta reflexão. O fato é que, num processo de animação e acompanhamento vocacional, nós – enquanto comunidade de fé que privilegia o discernimento da vontade de Deus – não podemos ser indiferentes a uma dimensão constitutiva da identidade humana: a sexualidade. Afinal, referimo-nos a processos dirigidos a pessoas cuja identidade de gênero e orientação afetivo-sexual marcam profundamente sua existência; pessoas que discernem a vontade de Deus como homens ou mulheres, endossexo ou intersexo, cisgênero ou transgênero, heterossexuais ou homossexuais; pessoas que amam como são; pessoas chamadas a santificar-se na própria condição de vida.
O percurso que aqui faremos parte do significado do seguimento a Jesus na vida de todo aquele que se reconhece como discípulo missionário. Em seguida, considera elementos imprescindíveis para a integração da afetividade e da sexualidade no processo de discernimento da vontade de Deus e no projeto de vida assumido como resposta ao chamado divino.
No seguimento a Jesus, a centralidade do amor
Todo cristão é chamado a viver como discípulo missionário de Jesus, o Cristo. Pôr-se no seguimento a Jesus implica, na prática, percorrer um processo gradativo de conformação tanto com os sentimentos quanto com as opções que Ele assumiu. Jesus deve ser, portanto, o paradigma para todo discípulo missionário: o indicativo da Sua vida fundamenta o imperativo da existência de quem O segue.
Tanto o Jesus dos Evangelhos quanto o Evangelho de Jesus não apresentam aos discípulos missionários um manual de moralidade, mas caracterizam-se por revelar o que, de fato, é definitivo no Novo Testamento: uma maneira de viver completamente enraizada no amor. Jesus viveu para os outros, aceitou livremente dar Sua vida e, ao fazê-lo, transformou Sua própria atitude em norma suprema para os cristãos (Jo 13,34). À luz de tal novidade, a vida moral consiste na manifestação visível de uma existência que procura fazer-se ministério, dom de amor na vida dos outros. Isso exige esforço contínuo para discernir, em cada momento histórico e em cada situação concreta, as exigências que derivam desse amor.
O amor, na perspectiva evangélica, é uma firme decisão da vontade de afirmar o bem do outro, decisão que implica optar por sair do centro e colocar a pessoa do outro no próprio lugar para poder servi-la conforme suas necessidades. As atitudes e as palavras proferidas por Jesus na última ceia com seus discípulos (Jo 13-17) corroboram esse significado. Quando o discípulo missionário fixa o olhar em Jesus, percebe que, por meio de Suas palavras e ações, Ele confirmou o amor de Deus como amor inclusivo e salvífico; um amor que visa à cura, à realização, à reintegração e à libertação de todos, especialmente dos mais pobres e vulneráveis.
Se, na época de Jesus, os mais pobres e vulneráveis eram aqueles cujas necessidades corporais não estavam incluídas na hierarquia convencional de valores do tempo em que viviam, hoje são também aqueles cujas identidades não são reconhecidas e reafirmadas em sua dignidade e em seus direitos fundamentais. Se, ontem, Jesus propôs que a experiência de Deus transcendesse os critérios meramente convencionais para que as necessidades concretas dos mais frágeis e vulneráveis fossem atendidas (Lc 10,25-37), hoje Ele pede que o discípulo missionário tome a iniciativa de colocar-se no caminho daqueles que sofrem as consequências da violência, discriminação, perseguição, marginalização e exclusão por causa do que são e/ou de quem amam. É por aqui que passa a conformação com os sentimentos e com as opções d’Ele.
Pôr-se em tal dinâmica exige dos discípulos missionários uma opção clara e decidida por amar como Jesus amou, a ponto de dar a vida para afirmar o bem do próximo, retirar-se quando necessário para que o outro cresça, fazer-se presente no processo de humanização que cada pessoa é chamada a percorrer. Significa, ainda, evitar toda espécie de narcisismo, autorreferencialidade, duplicidade e mediocridade. Tudo isso implica assumir uma postura diante do outro que se caracterize pela qualidade e significatividade das relações.
Para que isso seja possível, os discípulos missionários devem visar à integração da afetividade e da sexualidade no próprio projeto de vida, bem como à edificação de uma nova cultura das relações, em que autonomia e autenticidade, liberdade e responsabilidade, justiça e fidelidade, cuidado e serviço tenham prioridade sobre qualquer forma de poder e autoridade. Nesse sentido, alguns elementos fundamentais precisam ser considerados.
O amor se expressa em múltiplas formas de ser e viver
Somos pessoas sexuais. A sexualidade é uma dimensão constitutiva da personalidade, que caracteriza o modo de a pessoa ser, manifestar-se, comunicar-se, sentir, expressar e viver o amor. Não há outra forma de existir a não ser “na carne”, isto é, como alguém profundamente marcado pela própria sexualidade. É a partir da própria condição – como homem ou como mulher, endossexo ou intersexo, cisgênero ou transgênero – que cada pessoa sai de si e entra em relação com os outros, com Deus e com o mundo. Consequentemente, não há outro modo de se realizar a não ser como pessoa sexual, pessoa que “abraça” a sexualidade como dom, fazendo de si um dom para os outros e inserindo-se no mundo como dom para toda a criação. A sexualidade é, portanto, “lugar” de relação. Orientada, elevada e integrada pelo amor – que é o único capaz de torná-la verdadeiramente humana –, a sexualidade é chamada a ser “lugar” de relações amorosas significativas, isto é, de relações que humanizam e afirmam o bem do outro. Por outro lado, quando reduzida à genitalidade e desvinculada de um projeto de vida que lhe dê significado, a sexualidade, por expressar também toda a fragilidade humana, pode tornar-se “lugar” de experiências desumanizadoras. Em outras palavras, assim como ela pode ser linguagem de amor, fidelidade, reciprocidade, abertura, diálogo e autodoação, pode também converter-se em linguagem de infidelidade, abuso, exploração, violência, uso e posse.
Somos pessoas que têm desejos. A orientação afetivo-sexual, assim como a sexualidade, é uma dimensão constitutiva da pessoa, faz parte de sua personalidade e condiciona seu modo de ser e viver. Ela se define pelo fato de a orientação do objeto do próprio desejo ser predominante ou exclusiva por pessoas do mesmo gênero, do outro gênero ou até mesmo por mais de um gênero, caracterizando o tipo de atração que cada um sente. Ninguém escolhe o objeto do próprio desejo; todos o descobrem à medida que crescem e amadurecem. Portanto, não se pode dizer que a orientação afetivo-sexual seja uma escolha. O que entra no campo da opção pessoal é o modo como a pessoa vivencia o próprio desejo, mas não o desejo e/ou a atração em si. A orientação afetivo-sexual também deve ser integrada ao próprio projeto de vida, pois as pessoas amam como homens e mulheres que, em relação à própria identidade sexual, são heterossexuais, homossexuais ou bissexuais.
Somos pessoas chamadas à castidade. Castidade significa a integração da sexualidade na personalidade e no próprio projeto de vida. Ela não é sinônimo de continência, que implica abster-se do sexo na experiência do prazer. Alguém pode ser abstinente sem, necessariamente, ser casto; isto é, pode ficar sem sexo e, ainda assim, não conseguir integrar sua sexualidade. É preciso ter presente, também, que a abstinência, por si mesma, não é capaz de controlar o desejo sexual. A energia sexual é tão potente que não depende unicamente da vontade da pessoa ou de uma autoridade externa. Em outras palavras, não basta querer ficar sem sexo: é preciso ter condições objetivas para isso; não basta impor a abstinência: é preciso considerar o que ela significa na vida das pessoas. Uma das condições objetivas é a capacidade de sublimação – isto é, de reorientar e ressignificar o próprio desejo –, capacidade essa que também não depende unicamente da própria vontade. Por isso, a definição do próprio projeto de vida é condição para viver tanto a castidade quanto a sublimação do desejo sexual, pois é esse projeto que vai nortear o modo de amar e de realizar tal desejo.
Somos pessoas em processo de amadurecimento. É impossível separar da maturidade pessoal o modo como as pessoas vivem sua sexualidade, pois a maturidade sexual faz parte da maturidade humana. A maturidade afetivo-sexual está profundamente relacionada à consistência fundamental entre o que a pessoa é e o que professa ser, como resultado da integração entre identidade autônoma e interdependência mútua. Portanto, a maturidade torna-se externamente evidente por meio da capacidade de a pessoa ser fiel aos seus compromissos e deveres e de assumir relações significativas de reciprocidade. Por fazer parte da maturidade humana, a maturidade sexual é mais do que um estado a ser alcançado: trata-se de um processo a ser assumido, processo este que deve caracterizar-se pela abertura e doação de si ao outro e, consequentemente, pelo distanciamento de um estilo de vida que favorece a atração narcisista, a autocontemplação e a autorreferencialidade. O amadurecimento afetivo-sexual, ao mesmo tempo que pressupõe, manifesta-se como abertura, partilha, diálogo, mutualidade e respeito em relação ao outro.
Somos pessoas vulneráveis. O autoconhecimento é fundamental para que se possam reconhecer, inclusive, determinadas patologias na forma de ser e amar e, consequentemente, superá-las ou tratá-las. Nem sempre as pessoas são o que gostariam de ser; nem sempre amam como gostariam de amar. A tendência a uma vida autoerótica é uma possibilidade concreta, que se manifesta por um estilo de vida egocêntrico, ensimesmado e narcisista, o qual leva o indivíduo a servir-se do outro para a satisfação dos próprios desejos, busca apenas o que oferece prazer ou gratificação de forma imediata. O reconhecimento humilde, mas honesto, da condição de vulnerabilidade intrínseca ao humano – e, consequentemente, da necessidade de se estabelecerem e respeitarem determinados limites –, associado à consciência do dever de conformar-se aos sentimentos e às opções de Jesus – e, consequentemente, de impor-se um estilo de vida caracterizado por ser expressão do amor e da misericórdia de Deus –, constitui um dos melhores instrumentos preventivos contra toda espécie de abuso.
Somos pessoas chamadas a viver como vocacionadas. No seguimento a Jesus, o Cristo, a vocação do discípulo missionário não é apenas uma escolha que depende unicamente da pessoa. Trata-se de um chamado divino que se dá num constante processo dialogal. Em outras palavras, viver como vocacionado implica optar pela experiência do êxodo de si, isto é, sair de um “eu” autocentrado para receber-se como um “eu” chamado e constantemente provocado por Deus. A fidelidade de Deus precede e sustenta a resposta do discípulo missionário ao chamado divino. É a percepção e a convicção dessa realidade que fazem com que a pessoa vocacionada tenha consciência dos desafios morais da própria vocação. Viver como vocacionado pressupõe permitir que a própria identidade seja definida ou redefinida por um “eu” constantemente interpelado pela vontade do Pai, seduzido pela pessoa do Filho e guiado pela força e ação do Espírito. Em outras palavras, é a relação amorosa com Deus que capacita o discípulo missionário a estabelecer relações significativas com os outros. Ninguém pode ignorar o fato de ser um “vaso de barro” e, portanto, de ser chamado a uma contínua conversão da mente e do coração. O cuidado com o vaso é de suma importância, a fim de que o tesouro não se perca ou deixe de resplandecer toda sua beleza. O melhor modo de cuidar tanto do vaso quanto do tesouro é permanecer unido à videira para poder produzir bons frutos (Jo 15,5).
Concluindo
Em tudo, mas de modo especial na esfera da sexualidade, o discípulo missionário é convidado a ter como máxima a orientação dada pelo apóstolo Paulo aos coríntios: “a mim tudo é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12). O discernimento entre uma coisa e outra dependerá da capacidade de amar como Jesus amou, da integração entre sexualidade e projeto de vida, e da edificação de uma cultura que priorize a qualidade das relações.
Referências:
ALMEIDA, André Luiz Boccato de. Moral Sexual. O amor humano transformado na graça redentora de Cristo. Petrópolis: Vozes, 2025.
FRANCISCO. Amoris Laetitia. Disponível em: < https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html >. Acesso em 1 jul. 2026.
JUNG, Patricia B.; CORAY, Joseph Andrew (orgs). Diversidade sexual e catolicismo: para o desenvolvimento da teologia moral. São Paulo: Loyola, 2005.
MOSER, Antônio. Casado ou solteiro, você pode ser feliz. Petrópolis: Vozes, 2006.
MOSER, Antônio. O enigma da esfinge: a sexualidade. Petrópolis: Vozes, 2001.
SALZMAN, Todd A.; LAWLER, Michael G. A pessoa sexual. Por uma antropologia católica renovada. São Leopoldo: UNISINOS, 2012.
TRASFERETTI, José A.; ZACHARIAS, Ronaldo (orgs.). Sexualidade e Pastoral: aos párocos e agentes de pastoral. São Paulo: Paulus, 2022.
ZACHARIAS, Ronaldo. Por uma ética da sexualidade informada pelas virtudes: a prática das virtudes como caminho de realização da pessoa sexual. In: ZACHARIAS, Ronaldo (Org.). Sexualidade e Virtudes: por uma ética da sexualidade à luz das virtudes. Aparecida: Santuário, 2024, p. 67-89.
ZACHARIAS, Ronaldo. Ética e Direitos Sexuais. São Paulo: Ideias & Letras, 2021.







