Adelman Neto, SJ via MAGIS Brasil
Certas ocasiões são muito propícias para pensar, ou repensar, o nosso projeto de vida. Em meio às exigências do cotidiano e às mudanças que testemunhamos dentro e fora de nós, somos constantemente desafiados a nos perguntar: para onde estou caminhando? Que sentido têm as minhas escolhas? Esta necessidade de reflexão está longe de ser inútil, pois trata-se de uma condição para se viver com profundidade.
A frase “Uma vida não refletida não merece ser vivida”, dita por Sócrates no relato presente na obra Apologia, continua sendo uma provocação atual pois nos recorda que viver não é apenas acumular experiências e títulos, mas tomar consciência do caminho que se percorre. Refletir sobre a própria vida é, de certo modo, assumir a responsabilidade por ela.
Podemos associar esta atividade de refletir à palavra discernir, tão central na espiritualidade de Santo Inácio de Loyola. Etimologicamente, discernir significa separar, distinguir, ver com clareza. No horizonte inaciano, trata-se de aprender a reconhecer entre tantas vozes e moções interiores aquilo que verdadeiramente nos conduz à vida verdadeira. Num mundo marcado por tantos ruídos e por decisões rápidas e até automáticas, torna-se ainda mais necessário parar e rezar os próprios passos em vista do futuro, não desejando controlá-lo, mas para dispor o coração àquilo que mais nos conduz à vontade de Deus.
No n.º 23 dos Exercícios Espirituais, conhecido como “Princípio e Fundamento”, encontramos uma síntese de como o convite de Deus é para que cada ser humano tenha plena consciência de que foi criado com um propósito. Assim, as reflexões deste mês de junho que seguem terão como base trechos deste texto inaciano na tentativa de ajudar cada um dos jovens e dos acompanhadores de jovens que estão à procura da tecitura de uma relação entre o chamamento de Deus que nos cria e as nossas pequenas-grandes escolhas cotidianas.
“Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” (Jo 3, 3)
O ser humano vive hoje uma profunda necessidade de redescobrir-se criatura. Em meio a tantas vozes que exaltam um tipo de autonomia absoluta, corre-se o risco de esquecer algo essencial: não nos criamos a nós mesmos. A nossa existência é recebida porque fomos criados com amor: somos dom. Mais ainda, as Sagradas Escrituras nos atestam que não fomos criados de qualquer maneira, mas “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27). Esta consciência não diminui a dignidade humana, ao contrário, funda-a em alicerces que recordam a nossa origem num amor primeiro.
É precisamente nessa direção que apontam as primeiras linhas do Princípio e Fundamento dos Exercícios Espirituais: “O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e assim salvar a sua alma”. Aqui não se trata apenas de uma afirmação teórica, mas de uma orientação existencial. A vida humana encontra o seu sentido quando reconhece a sua origem e o seu fim em Deus mesmo.
Muitos estudiosos da tradição inaciana chamam a atenção para o Princípio e Fundamento como “porta” no caminho que o exercitante faz. E, alguns, enfatizam sobretudo o modo como o verbo “ser” se encontra conjugado no presente neste primeiro exercício apresentado por Santo Inácio. Este fato não é mera coincidência. Este é um modo intencional do Peregrino afirmar que não fomos apenas criados. Estamos sendo criados constantemente.
Deus continua a agir na história concreta de cada pessoa, nas experiências que vivemos, nos encontros que nos transformam, nos caminhos que se abrem. A criação não é apenas um acontecimento do passado, mas uma realidade viva que se atualiza no hoje da nossa existência. O cardeal português José Tolentino Mendonça tem um poema que ilustra bem esta graça.
Erra quem pensa que nascemos uma só vez. Para quem quer viver, a vida está repleta de nascimentos. Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de certas lágrimas. Nascemos na oração e no dom. Nascemos no perdão e no conflito. Nascemos no silêncio ou iluminados por uma palavra. Nascemos no levar ao termo um compromisso, e na partilha. Nascemos nos gestos ou para além dos gestos. Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.
Neste mesmo horizonte, os seguintes verbos louvar, reverenciar e servir deixam de ser palavras distantes e tornam-se atitudes bem objetivas. Louvar, além de ser uma disposição interior muito cara à espiritualidade inaciana, é reconhecer com gratidão tudo aquilo que recebemos. Reverenciar é tomar consciência da nossa pequenez diante do amor criador de Deus, não como diminuição, mas como abertura confiante. Servir, por sua vez, é compromisso: devolver ao mundo, em forma de cuidado e responsabilidade, aquilo que gratuitamente nos foi dado.
Assim, o homem “se salva”. É certo que se pode ler este aspecto em um sentido soteriológico. Contudo, deve-se ter presente que encontrar sentido na vida oportuniza ao ser humano experimentar o Reino já aqui. Uma frase atribuída ao servo de Deus Luciano Mendes de Almeida, bispo jesuíta morto em 2006, afirma que, “Descobri que o céu é ver os outros felizes!”
Neste sentido, nesta semana, quero convidar que possamos, à luz da herança inaciana, refletir sobre o que nos ajuda a buscar uma vida em plenitude, mais harmônica com a vontade de Deus que recorda que fomos feitos para o amor e para amar. Se vocação é ser chamado, então somos chamados encontrar nosso caminho segundo o que nos impulsionar a amar mais e melhor com todo nosso ser. Louvar, reverenciar e servir a Deus, abre-nos à certeza de que ninguém está “terminado” e que existe um mundo repleto de outros seres que estão por se fazer. Paciência e caridade são elementos fundamentais para este processo de acolhida de tantos dons que o Senhor nos oferece e que, se colocados em comum, renderão frutos incontáveis de alegria.
Nos encontramos na próxima semana. Até lá!
Referências:
Platão. Apologia de Sócrates. Disponível em: < https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/02/Apologia-de-Socrates.pdf>. Acesso em 2 jun. 2026.
Mendonça, José Tolentino. Nascemos, poesia adaptada. Disponível em: <https://www.centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/desdobramentos/quem-pensa-que-so-nascem os-uma-vez-engana-se>. Acesso em 2 jun. 2026.
Loyola, Santo Inácio. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 2000.







