São José de Anchieta e a liberdade de uma vida entregue
Ir. Douglas Turri, SJ
Ao longo dos séculos, José de Anchieta recebeu muitos títulos. Missionário, poeta, fundador, educador, Apóstolo do Brasil, Santo. Sua memória permanece ligada a alguns dos episódios mais conhecidos da história do Brasil e da Igreja. Contudo, talvez a melhor maneira de compreender sua vida não seja partir das obras que realizou, mas de uma frase escrita pelo próprio Anchieta nos últimos anos de sua existência.
Em carta escrita de Reritiba, nos últimos anos de sua vida, já idoso e com a saúde bastante fragilizada, Anchieta relatava sua situação e o trabalho que continuava realizando junto aos indígenas. Em determinado momento da carta, recorda que lhe fora concedida licença para escolher onde desejaria permanecer. A resposta que oferece é surpreendente:
“Seria grande desatino quando eu, há 42 anos que deixei tudo à livre disposição em mãos dos meus superiores, querer eu agora, no fim da minha velhice, dispor de mim.”
A força dessa frase está justamente em sua simplicidade. Anchieta não procura resumir a própria trajetória por meio das missões realizadas, dos textos escritos ou dos desafios enfrentados. Ao olhar para trás, identifica um único fio condutor que atravessa toda a sua história: a decisão de colocar a própria vida à disposição.
O contexto em que essas palavras foram escritas torna-as ainda mais significativas. Não se trata do entusiasmo de um jovem que acaba de ingressar na Companhia de Jesus nem do fervor de alguém que inicia sua missão. São palavras escritas depois de mais de quatro décadas de vida religiosa, quando já poderia reivindicar descanso ou alguma estabilidade. No entanto, o que aparece na carta é a mesma atitude fundamental que havia orientado toda a sua caminhada: a disposição de continuar sendo enviado.
Uma frase que atravessa uma vida
Já no anoitecer da vida, quando poderia reivindicar descanso, Anchieta reafirma a escolha feita décadas antes. Sua vida não havia sido construída em torno dos próprios planos, mas da confiança em Deus e da disponibilidade para a missão.
Ao reler sua história a partir dessa carta, os grandes acontecimentos parecem ocupar um lugar secundário. O centro não está nas viagens realizadas, nos escritos produzidos ou nas obras fundadas. O centro está numa atitude interior que permaneceu a mesma ao longo dos anos.
Por isso, a frase continua tão atual. Ela nos permite olhar para Anchieta não apenas como personagem histórico ou santo venerado, mas como alguém que encontrou um modo profundamente livre de viver sua vocação.
A liberdade de não pertencer apenas a si mesmo
À primeira vista, essa afirmação pode soar estranha aos nossos ouvidos. Estamos habituados a compreender a liberdade como capacidade de decidir autonomamente os rumos da própria vida. Anchieta parece mover-se em outra direção. Pouco antes de afirmar que havia deixado tudo à disposição de seus superiores, escreve: “Não quis tamanha liberdade, pois que só há de ser causa de seguir e de errar o caminho, não sabendo o homem escolher o que lhe convém”.
Longe de representar uma negação da liberdade, essa afirmação revela uma compreensão espiritual da existência. Anchieta desconfia não da liberdade em si, mas da ilusão de autossuficiência que frequentemente a acompanha. Reconhece os limites do próprio julgamento e escolhe confiar que Deus pode conduzir sua vida.
Não é difícil reconhecer aqui um dos traços mais profundos da espiritualidade inaciana. Nos Exercícios Espirituais, Inácio convida a uma liberdade interior que permita à pessoa buscar e encontrar a vontade de Deus. Trata-se de um caminho de disponibilidade que torna possível colocar a própria vida a serviço da missão.
Desde os primeiros tempos da Companhia de Jesus, essa disponibilidade tornou-se uma de suas características mais marcantes. Não se trata de uma obediência passiva nem da renúncia à própria personalidade, mas da busca por uma liberdade interior capaz de colocar os próprios dons, capacidades e desejos a serviço de algo maior. O jesuíta é chamado a viver com o coração suficientemente livre para perguntar não apenas o que deseja fazer, mas sobretudo onde pode servir mais.
Antes das obras, a disponibilidade
Vista sob essa luz, toda a trajetória de Anchieta ganha novos contornos. Ao chegar ao Brasil em 1553, com apenas dezenove anos, dificilmente poderia imaginar os caminhos que teria pela frente. Viveu entre indígenas e colonos, participou de negociações delicadas em momentos de conflito, percorreu longas distâncias, ajudou na fundação de comunidades, escreveu cartas, poemas, peças teatrais e textos catequéticos. Sua atuação foi tão ampla que, ao longo do tempo, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da presença jesuíta no Brasil.
Entretanto, quando observamos sua trajetória a partir da carta de 1595, todos esses acontecimentos parecem ocupar um segundo plano. O que emerge com mais clareza não são as realizações, mas a atitude interior que as tornou possíveis.
Antes de ser missionário, poeta ou fundador, Anchieta foi um homem disponível.
Essa talvez seja uma chave importante para compreender não apenas sua santidade, mas também sua atualidade. Em uma cultura frequentemente marcada pela preocupação em controlar o futuro, acumular garantias e manter todas as possibilidades abertas, a vida de Anchieta aponta para outra lógica. A fecundidade de sua existência não nasceu da tentativa de conduzir cada passo segundo os próprios interesses, mas da confiança que o tornou capaz de responder aos apelos que encontrava pelo caminho.
Um coração sempre a caminho
Os parágrafos seguintes da carta permitem perceber que essa não era uma afirmação retórica. Mesmo já envelhecido, Anchieta fala da possibilidade de acompanhar entradas pelo sertão e conclui com palavras que revelam o horizonte espiritual que sustentou toda a sua vida: “Maior caridade não há do que dar a vida pelos amigos.”
Não há traços de heroísmo calculado nem de busca por grandeza. Há apenas a serenidade de quem continua compreendendo a própria existência como dom e serviço.
Não surpreende, portanto, que a tradição o tenha conservado na memória como um homem sempre a caminho. Descalço e a pé. Entre aldeias, praias, trilhas e montanhas. Não apenas porque percorreu grandes distâncias, mas porque fez da própria vida um caminho de disponibilidade ao Evangelho.
Uma pergunta para o nosso tempo
Há algo nessa atitude que continua a falar ao nosso tempo. Não apenas pelas obras que realizou ou pela importância histórica de sua atuação, mas porque sua vida continua testemunhando uma verdade profundamente humana e evangélica: a de que uma existência encontra seu sentido mais profundo quando deixa de girar em torno de si mesma e se abre ao serviço de Deus e dos outros.
No fim da vida, Anchieta poderia ter falado de muitas coisas. Poderia ter recordado suas viagens, suas fundações, seus escritos ou suas conquistas. Preferiu falar de uma escolha.
Havia quarenta e dois anos que escolhera colocar tudo à livre disposição.
Talvez seja justamente nessa fidelidade silenciosa, renovada dia após dia, que se encontre o segredo de sua extraordinária fecundidade espiritual.
Mais de quatro séculos depois, sua vida continua lançando uma pergunta a cada um de nós: Por qual amor vale a pena colocar a vida à disposição?
Da pena do próprio Anchieta
As reflexões deste artigo nasceram de uma carta escrita por São José de Anchieta em Reritiba, atual cidade de Anchieta (ES), no dia 6 de dezembro de 1595. Nela, já nos últimos anos de sua vida, ele oferece um testemunho precioso sobre a disponibilidade que marcou toda a sua trajetória missionária:
O Padre Provincial me mandava licença para que eu estivesse em qualquer parte da Província que quisesse. Não quis tamanha liberdade, pois que só há de ser causa de seguir e de errar o caminho, não sabendo o homem escolher o que lhe convém.
E seria grande desatino quando eu, quarenta e dois anos, que deixei tudo à livre disposição, em mãos dos meus superiores, querer eu agora, no fim da minha velhice, dispor de mim.
Pus-me nas mãos do Padre Fernão Cardim, Reitor no Rio de Janeiro. Ordenou Nosso Senhor que acompanhasse ao Padre Diogo Fernandes nesta aldeia de Reritiba, para o ajudar na doutrina dos índios, com os quais me dou muito melhor do que com os portugueses, porque aqueles vêm buscar no Brasil, não há estes.
E já pode ser queira a Divina Providência que acompanhe o mesmo Padre em alguma entrada ao sertão, a trazer alguns deles ao grêmio da Igreja; e, pois não mereço por outra via ser mártir, ao menos me ache a morte, desamparado em alguma dessas montanhas.
Porque maior caridade não há do que dar a vida pelos amigos. A disposição corporal é fraca, mas esta basta com a força da graça, que da parte de Nosso Senhor não faltará.
E porque eu, da minha parte, não falte, ergue tua mão direita e abençoa teu filho em Jesus Cristo, Nosso Senhor.
José de Anchieta
6 de dezembro de 1595
Reritiba, Capitania do Espírito Santo







