Entre distanciamento e desejo de transformação, juventudes são chamadas a redescobrir a política como compromisso com o bem comum
Guilherme Freitas
Falar de política com jovens hoje é entrar em um território de tensões. Ao mesmo tempo em que cresce o desejo de transformação, também aumenta o distanciamento em relação à política, muitas vezes associada à corrupção, conflitos e interesses particulares.
Esse afastamento não é casual. Ele está ligado, em grande medida, à fragilidade da educação política na sociedade. Em muitos contextos, política foi apresentada como algo negativo ou restrito a governantes e partidos, e não como uma dimensão constitutiva da vida em comunidade. Com isso, formou-se uma compreensão limitada, que separa “vida cotidiana” e “vida política”, como se não houvesse relação entre elas.
A terceirização da responsabilidade e a corrosão da vida comum
Esse tipo de formação favorece uma lógica recorrente: a ideia de que os problemas da sociedade são sempre responsabilidade de terceiros: governantes, partidos ou “o sistema”. Essa postura moralizante tende a ignorar as pequenas práticas cotidianas que também corroem a vida comum: furar filas, mentir para obter vantagens, desrespeitar regras de convivência ou normalizar pequenas ilegalidades. A sensação de que “meu erro é menor” reforça um processo silencioso de corrosão ética, no qual a responsabilidade coletiva é constantemente terceirizada.
Crise de confiança e representação política entre jovens
Relatórios internacionais ajudam a compreender esse cenário. O Global State of Democracy Report, do International Institute for Democracy and Electoral Assistance (International IDEA), aponta que a confiança nas instituições democráticas vem diminuindo, especialmente entre jovens, mesmo quando há interesse por temas sociais e políticos. Em sua edição mais recente, o relatório indica que mais de 50% dos jovens em vários países afirmam sentir-se pouco ou nada representados politicamente.
Política e polis: participação e bem comum
A palavra política tem origem na Grécia antiga e está vinculada à polis, a cidade. Para os gregos, a política não se reduzia à administração do poder, mas dizia respeito à participação ativa na vida da comunidade. Aristóteles afirmava que o ser humano é, por natureza, um zoon politikon, ou seja, um ser que só se realiza plenamente na vida em comum (Política, Livro I, cap. 2). Viver à margem da polis não era sinal de liberdade, mas de ruptura com a própria condição humana.
Essa compreensão encontra ressonância na tradição cristã. A Constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, afirma que o bem comum consiste “no conjunto das condições sociais que permitem tanto às coletividades como a cada um de seus membros alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (GS, n. 26).
Política como expressão do cuidado e da caridade social
Nesse horizonte, política é cuidado com a vida comum. Quando se distancia desse sentido, ela tende a se converter em disputa permanente, esvaziando sua dimensão ética e comunitária.
O Papa Francisco retomou essa perspectiva ao afirmar que a política é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum (Fratelli Tutti, n. 180).
Juventudes e participação política no Brasil
No Brasil, os dados revelam um cenário ambivalente. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições de 2022, aproximadamente 74% dos jovens entre 16 e 24 anos estavam inscritos para votar, indicando interesse formal no processo eleitoral.
Por outro lado, a participação juvenil em espaços permanentes de decisão política e social é significativamente menor. Pesquisa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre engajamento cívico juvenil aponta que jovens tendem a se mobilizar mais em ações pontuais, como protestos, campanhas digitais, manifestações, do que em processos institucionais e contínuos, como conselhos, associações ou partidos políticos.
Entre mobilização pontual e compromisso duradouro
Esse dado ajuda a compreender um traço importante da experiência juvenil: a juventude é tempo de sonhos, de desejo de transformação rápida e de afirmação. No entanto, a transformação social exige processos, continuidade e disposição para sustentar compromissos mesmo quando os resultados não são imediatos.
O Papa Francisco alertava para esse risco ao afirmar que “o ativismo sem reflexão pode nos levar a perder o sentido das coisas” (Christus Vivit, n. 174).
Política, corresponsabilidade e discernimento
Um dos equívocos mais comuns na compreensão da política é reduzi-la aos agentes políticos eleitos. Governantes e parlamentares exercem funções de representação, mas não substituem a responsabilidade cidadã. Eleger representantes é apenas uma dimensão da participação política.
A vida cotidiana como espaço político
A política se expressa também na vida cotidiana: na comunidade, na escola, nas associações, nos movimentos sociais, nas pastorais, nos conselhos locais e nas escolhas que fazemos no espaço público e digital. Reconhecer-se como sujeito político é compreender que a vida comum é construída por ações pequenas e grandes, individuais e coletivas.
Discernimento inaciano e responsabilidade social
Nesse sentido, a espiritualidade inaciana oferece um critério importante. Santo Inácio de Loyola insiste que a ação humana deve ser precedida por discernimento, isto é, pela capacidade de reconhecer os movimentos interiores que conduzem à vida ou à sua negação (Exercícios Espirituais, EE 23; EE 316–317).
Aplicado à vida social e política, o discernimento ajuda a perguntar não apenas o que fazemos, mas a partir de onde fazemos: quais afetos nos movem, que tipo de relações construímos e se nossas escolhas contribuem para o bem comum ou aprofundam divisões.
Para além das respostas prontas
Este texto não pretende oferecer soluções fechadas. Ele propõe, antes, algumas provocações:
- Que compreensão de política orienta nossas escolhas?
- De que forma nossas ações cotidianas contribuem, ou não, para a vida comum?
- Nosso engajamento busca transformação duradoura ou apenas resposta imediata?
Como recordava o Papa Francisco, “a realidade é mais importante do que a ideia” (Evangelii Gaudium, n. 231).
Pensar a política como cuidado com a vida em comum não é tarefa simples nem imediata. Mas talvez seja justamente aí que reside sua força: transformar o desejo de mudança em compromisso cotidiano, discernido e sustentado, capaz de gerar vida para todos.







