Juventudes e política: desafios da participação dos jovens hoje 

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Educadora Rafaela Molina reflete sobre o distanciamento juvenil da política, o impacto das redes sociais e o papel da escola na formação cidadã

Por Guilherme Freitas

 Compreender a relação entre juventudes e política hoje exige olhar atento às transformações recentes na forma como os jovens se informam, se relacionam e participam da vida em sociedade. 

Em sintonia com a missão da Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, que acompanha as juventudes na construção de seus projetos de vida à luz da espiritualidade inaciana, a educadora Rafaela Molina de Paiva oferece uma leitura crítica sobre esse cenário. 

Com 15 anos de atuação entre sala de aula, gestão escolar e formação de docentes, ela destaca desafios como o individualismo, o imediatismo e a perda do sentido de comunidade, ao mesmo tempo em que aponta caminhos possíveis para fortalecer uma participação mais consciente e comprometida com o bem comum. 

Juventudes e política: entre interesse e distanciamento

A relação entre juventudes e política, hoje, não pode ser compreendida sem considerar as mudanças profundas nos modos de socialização. Relatórios internacionais, como o Global State of Democracy, do International IDEA, têm apontado uma queda na confiança democrática entre jovens, mesmo diante do interesse por temas sociais, revelando uma tensão entre engajamento e distanciamento. 

A partir de sua experiência na educação, Rafaela Molina de Paiva identifica na pandemia um ponto de inflexão importante nesse processo. 

“Antes da pandemia da COVID-19, o mundo dos estudantes girava em torno da escola. Após esse período, passou a ser a internet e as redes sociais, que se tornaram o principal meio de socialização, comunicação e enfrentamento de desafios político-sociais.” 

Segundo a educadora, esse deslocamento não significa ausência de interesse, mas uma transformação nas formas de participação. 

“Os jovens agora querem ser vistos por meio de representatividades políticas, o que se torna desafiador quando olhamos para as instituições tradicionais brasileiras.” 

Ao mesmo tempo, ela aponta que esse cenário contribui para o crescimento do individualismo e para o enfraquecimento das experiências coletivas. 

“Esse novo cenário se configura a partir de interesses sociais defendidos na internet, de forma individualizada, cada um em sua casa, esvaziando o sentido de coletividade e organização política.” 

Educação e formação crítica: desafios para o ensino hoje

Diante desse contexto, a escola enfrenta o desafio de reafirmar seu papel na formação cidadã, um horizonte que também atravessa a atuação da Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, especialmente no eixo da Pedagogia da Formação. 

“A escolarização e a curricularização, que visam apenas à lógica do mercado, estão cada vez mais distantes da formação crítica e cidadã.” 

Para Rafaela, o ensino de História pode contribuir de forma decisiva para esse processo, especialmente quando se aproxima da realidade dos estudantes. 

“Trabalhar com a metodologia da História Local e Regional é importante para aproximar a História das vivências dos estudantes. Dessa forma, o ensino se torna mais significativo, e os jovens se sentem mais representados.” 

Nesse sentido, a sala de aula também se torna espaço para problematizar as informações que circulam nas redes e ampliar a capacidade crítica dos jovens. 

“Os conteúdos que chegam até eles precisam ser problematizados […] a fim de propiciar uma formação política capaz de ‘estourar bolhas’.” 

Recuperar o sentido de comunidade

Desde a tradição clássica, com Aristóteles, a política é compreendida como dimensão constitutiva da vida em comum. No contexto atual, recuperar esse sentido de comunidade aparece como um dos principais desafios. 

“De fato, precisamos recuperar os clássicos da tradição filosófica. Creio que recuperar o sentido de comunidade seja o grande desafio do século XXI.” 

Rafaela destaca que a formação política das juventudes não pode ser responsabilidade exclusiva da escola. 

“A família, as instituições políticas, as escolas, as igrejas e todas as demais instituições sociais precisam contribuir para a educação das crianças e dos jovens.” 

Nesse horizonte, experiências concretas de participação ganham relevância, como é o caso do Grêmio Estudantil. 

“O Grêmio […] é um caminho importante para o desenvolvimento da cidadania e da participação coletiva dos estudantes.”

Imediatismo e desafios para o pensamento crítico

Outro elemento que atravessa a formação das juventudes hoje é o crescimento do imediatismo, fortemente influenciado pelas dinâmicas das redes sociais. 

“Os jovens querem respostas rápidas e imediatas; buscam resultados na mesma velocidade das informações disponíveis na internet.” 

Esse cenário impacta diretamente processos que exigem tempo e aprofundamento, como a leitura e a construção do conhecimento. 

A educadora também aponta a presença crescente da inteligência artificial como um novo desafio para o ambiente educacional. 

“De forma rápida, os estudantes obtêm respostas […] o que acaba diminuindo seu interesse pelo processo de criação, elaboração de ideias e argumentação.” 

Ética, cotidiano e responsabilidade coletiva 

A formação política não se limita a conteúdos ou debates formais, mas se constrói também nas práticas cotidianas. Nesse sentido, a ética ocupa um lugar central no processo educativo. 

“A escola ainda possui o dever de educar o indivíduo para a ética e a cidadania.” 

Temas como respeito, dignidade e responsabilidade coletiva atravessam o cotidiano escolar e exigem atenção constante de educadores e instituições. 

“É necessário que haja professores […] capazes de intervir e transformar situações-problema em oportunidades educativas.” 

Participação política dos jovens hoje 

Estudos sobre engajamento cívico juvenil, como os da OCDE, indicam que jovens tendem a participar mais de ações pontuais do que de processos contínuos, o que ajuda a compreender os desafios de sustentar vínculos mais duradouros com a política. 

Ao tratar da participação juvenil nos processos democráticos, Rafaela observa uma diminuição no interesse pelo título de eleitor, refletindo um distanciamento das instituições políticas. 

Ainda assim, ela aponta caminhos possíveis para fortalecer o engajamento. 

“Precisamos de mais jovens disputando cargos políticos, de mais jovens dialogando com outros jovens.” 

Ao mesmo tempo, reconhece que há experiências positivas em curso. 

“Existem muitos jovens atentos e ativos nos debates políticos […] defendendo a democracia, a ciência e o bem comum.” 

Entre reação e discernimento 

Em um contexto marcado por respostas rápidas e posicionamentos imediatos, o Papa Francisco, na exortação Christus Vivit (n. 174), chama atenção para o risco de um ativismo sem reflexão, que pode levar à perda de sentido. Nesse contexto, a construção de uma postura crítica e responsável se torna ainda mais necessária. 

Para Rafaela, esse caminho passa por três elementos fundamentais: “Leitura, pesquisa e reflexão.” 

Segundo ela, somente a partir de um processo formativo consistente será possível construir uma participação política que vá além de reações imediatas e contribua efetivamente para a vida em comum.

Caminhos possíveis para o futuro

Ao olhar para os desafios atuais, a educadora reforça a importância de experiências coletivas e concretas, que ultrapassem o ambiente digital e favoreçam o encontro, o diálogo e a construção compartilhada. 

“Os jovens precisam vivenciar experiências coletivas […] a fim de desenvolver a empatia, o respeito e a tolerância.” 

Ela também destaca a responsabilidade das diferentes instituições na formação das juventudes e na construção de uma sociedade mais justa. 

“A sociedade como um todo precisa refletir […] sobre a política que deseja construir com a juventude daqui para frente.” 

Ao final, o horizonte apontado pela educadora encontra eco na missão do MAGIS Brasil: acompanhar as juventudes para que possam discernir, com liberdade e responsabilidade, seu lugar no mundo. Em sintonia com as Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus, esse caminho passa por acompanhar os jovens na construção de um futuro cheio de esperança.  

Em um tempo marcado por polarizações e incertezas, fortalecer processos formativos que integrem fé, justiça e participação social não é apenas um desafio — é um compromisso fundamental para que as juventudes sigam sendo protagonistas na construção de uma sociedade mais justa e solidária. 

Sobre a entrevistada

Rafaela Molina de Paiva é doutoranda em História da Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestra em Ensino de História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Graduada em História pelo UNISAL, é professora da rede pública do estado de São Paulo, com experiência em gestão escolar e formação de professores. Atua nas áreas de História da Educação, cultura regional, literatura, gênero e feminismo, sendo autora do livro Pelos Caminhos de Oblivion: Representação e Resistência da Cultura Caipira e o Ensino de História.

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