JANEIRO BRANCO: COMO CUIDAR DA SAÚDE MENTAL DAS JUVENTUDES EM UM MUNDO ACELERADO 

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saúde mental das juventudes

Por: Guilherme Freitas 

Janeiro branco, mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental, convida a sociedade a olhar com mais atenção para os sofrimentos emocionais que atravessam a vida das pessoas e, para nós, de modo especial, a saúde mental das juventudes. Em um tempo marcado pela aceleração, pela hiperconexão digital e por múltiplas incertezas, adolescentes e jovens vivem desafios que impactam profundamente sua saúde mental, suas relações e seu modo de estar no mundo. 

Atenta a essa realidade, a Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, que atua no acompanhamento integral das juventudes à luz da espiritualidade inaciana, propôs um diálogo com a psicóloga e orientadora educacional Cláudia Zanchin, que há mais de vinte anos acompanha adolescentes e jovens em contextos educativos, comunitários e terapêuticos. 

Um silêncio que fala alto: saúde mental das juventudes hoje 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 7 adolescentes entre 10 e 19 anos, vive com alguma condição de saúde mental, muitas vezes sem diagnóstico ou acompanhamento adequado. Para Cláudia, esses números ganham vida no cotidiano de quem caminha ao lado das juventudes. 

“Tenho percebido um silêncio que fala alto, um silêncio que aparece nas redes sociais, nos gestos e nas entrelinhas do cotidiano. Muitos deles parecem carregar um cansaço que não é só físico, mas da alma, como se o mundo tivesse acelerado demais e eles tivessem ficado sem fôlego no meio do caminho.” 

Ao mesmo tempo, ela reconhece a intensidade própria dessa etapa da vida: 

“Vejo uma vontade enorme de viver e sentir tudo ao mesmo tempo. É o tempo do adolescente, o tempo do agora.” 

A pandemia, segundo Cláudia, não criou esse cenário, mas tornou visível algo que já estava presente: 

“Acredito que a pandemia apenas deixou à mostra o que já estava ali: ansiedade, incertezas e a pressa de um mundo que não dá tempo para respirar.” 

Essa realidade interpela também o modo como adultos, educadores e agentes pastorais se relacionam com as juventudes. Na espiritualidade inaciana, a escuta atenta da realidade e das pessoas é um ponto de partida fundamental para qualquer ação educativa e evangelizadora.

Pressões, comparações e sofrimento emocional entre os jovens 

Em sua vivência na escola e na clínica, Cláudia percebe que temas como ansiedade e depressão passaram a fazer parte do vocabulário dos jovens: 

“Ansiedade e depressão, antes temas raramente mencionados, hoje fazem parte do dia a dia. Às vezes, eles falam sem saber exatamente o significado, mas sentem algo. E isso é positivo, porque ao nomearem suas dores, rompem o silêncio.” 

No entanto, esse sofrimento não surge isoladamente. Ele é alimentado por uma série de pressões externas e internas, especialmente no ambiente digital: 

“O corpo ideal, o sucesso imediato, o consumo do momento e a felicidade exibida publicamente viram medidas de valor pessoal. O ‘like’, o número de seguidores ou até a manutenção do ‘foguinho’ passam a simbolizar aceitação e pertencimento.” 

Cláudia é direta ao afirmar que esse tipo de validação não sustenta o bem-estar emocional: 

“No fundo, nada disso é suficiente. A validação digital não preenche o vazio emocional nem substitui a presença verdadeira.” 

Ao final dessa reflexão, ela aponta caminhos concretos que dialogam com o trabalho educativo e pastoral com as juventudes: 

“Na psicoterapia, o adolescente encontra espaço para a escuta sem pressa. Na escola, o olhar atento do educador pode ser o primeiro sinal de amparo. E, na família, a escuta atenta e o tempo de qualidade fortalecem vínculos e o sentido de existir.” 

Redes sociais, identidade e impactos na saúde mental dos jovens 

Aqui, Cláudia desenvolve sua reflexão de forma mais direta, a partir da experiência cotidiana com os jovens: 

“Todos nós buscamos aceitação e reconhecimento, em qualquer idade. Para os adolescentes, as redes sociais transformam isso em uma busca urgente. Curtidas e filtros viram provas rápidas de valor, mas deixam um vazio quando a aprovação on-line não é suficiente e provavelmente nunca será.” 

Ela destaca que a adolescência é um período decisivo para a construção da identidade, processo frequentemente distorcido pela lógica das redes: 

“A exposição excessiva gera comparações constantes com padrões irreais de beleza e estilo de vida, alimentando ciclos de frustração.” 

Como contraponto, Cláudia aponta a importância de fortalecer espaços de convivência real, algo central tanto no trabalho educativo quanto na proposta inaciana de formação integral: 

“Penso em escolas que abram espaço para futebol, vôlei, rodas de conversa e música no intervalo; famílias que parem a correria para estar juntas, sem celular.” 

E conclui:

“Nas trocas reais, nos olhares diretos e nas risadas compartilhadas, o reconhecimento chega de forma autêntica. É aí que a saúde mental se fortalece, acolhendo cada um como é, sem filtros.” 

Espiritualidade, educação e cuidado com a saúde mental 

Ao refletir sobre espiritualidade e sofrimento emocional, Cláudia chama atenção para a importância do acolhimento: 

“No convívio com os adolescentes, percebo o quanto o espaço que acolhe e escuta faz diferença. O cuidado emocional e a fé se encontram: ambos buscam restaurar o equilíbrio, o sentido e a esperança.” 

Ela destaca que escutar o jovem é um gesto profundamente educativo e espiritual: 

“Escutar o adolescente com atenção, perceber suas dores, necessidades e conflitos é fundamental. Mas também é essencial ajudá-lo a descobrir suas potencialidades.” 

Nesse ponto, Cláudia recorre à pedagogia de Dom Bosco, sacerdote italiano do século XIX e fundador da Família Salesiana, reconhecido por seu trabalho educativo com jovens em situação de vulnerabilidade. Inspirado por uma espiritualidade profundamente encarnada, Dom Bosco afirmava que todo jovem carrega um ponto acessível ao bem. 

“Todo jovem tem um ponto acessível. Cabe a nós, com paciência e amor educativo, encontrar esse ponto e fazê-lo florescer.” 

Essa visão dialoga com a espiritualidade inaciana ao reconhecer que Deus age na história concreta das pessoas e que o acompanhamento atento é caminho de transformação. 

Cuidar da saúde mental é cuidar da vida das juventudes 

Depois de mais de duas décadas de escuta e acompanhamento, Cláudia sintetiza: 

“Saúde mental não é estar bem o tempo todo, mas poder existir inteiro: com cansaço, alegria, medo e desejo, sem precisar fingir.” 

Ela reforça que o cuidado começa em práticas simples: 

“Dormir melhor, se alimentar, mover o corpo, respirar fundo quando o mundo aperta, perceber quando a mente pede pausa.” 

Mas também passa pelo pertencimento e pela comunidade, elementos centrais no trabalho com as juventudes: 

“Pertencer a um grupo, saber que há adultos disponíveis, educadores sensíveis, comunidades acolhedoras e famílias aguardando sua chegada faz toda a diferença.” 

Ao final, Cláudia deixa uma mensagem direta aos jovens, em sintonia com o espírito do Janeiro Azul: 

“Sua dor é séria, mas ela não é toda a sua história. Peça ajuda, mesmo com vergonha ou medo. Falar é um jeito de continuar. Você é um jovem em travessia e toda travessia merece companhia. Vamos juntos?”   

Sobre a entrevistada

Cláudia Zanchin é psicóloga, orientadora educacional e atua há mais de vinte anos no acompanhamento de crianças, adolescentes e jovens em contextos educativos, comunitários e pastorais. É formada em Psicologia e possui trajetória acadêmica e profissional voltada especialmente à promoção da saúde mental no ambiente escolar e ao cuidado integral das juventudes. 

Nascida em São Carlos (SP), teve sua formação humana profundamente marcada pela experiência no Oratório Salesiano, onde despertou sua vocação para a educação e o cuidado com jovens, inspirada pela pedagogia de Dom Bosco. Essa vivência influenciou decisivamente sua escolha profissional e sua forma de compreender a educação como espaço de escuta, presença e afeto. 

Ao longo de sua trajetória, atuou como orientadora de medidas socioeducativas, psicóloga social e docente universitária, além de ter sido responsável técnica pelo Serviço Escola de Psicologia do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP). Desenvolveu projetos de promoção da saúde mental em instituições educativas, produziu conteúdos como professora-autora em cursos de pós-graduação em Psicologia (UNISAL/SP) e trabalhou em iniciativas sociais voltadas a adolescentes em situação de vulnerabilidade. 

Atualmente, é orientadora educacional no Colégio Salesiano Santa Teresinha, em São Paulo, e atua também como psicóloga clínica no atendimento de adolescentes e adultos. Sua prática profissional é marcada pela integração entre educação, saúde mental e espiritualidade, com especial atenção às vivências, desafios e potencialidades das juventudes. 

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