Juventudes e leitura da realidade: senso crítico, polarização e espiritualidade inaciana 

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Juventudes e leitura da realidade

Como a espiritualidade inaciana pode ajudar as juventudes a ler o mundo em tempos de polarização 

Guilherme Freitas 

Com o início de um novo ano, muitas pessoas costumam traçar metas, rever escolhas e desejar novos caminhos. O ano de 2026 será marcado por ao menos duas vivências importantes no Brasil: as eleições e a Copa do Mundo. Acontecimentos que atravessam diretamente a vida social, cultural e política do país. 

Esses eventos não acontecem de forma isolada. Eles se inserem em um contexto mais amplo de profundas transformações sociais, políticas e culturais, intensificadas pelo impacto das tecnologias digitais, pela rapidez das informações e pela globalização impulsionada pela internet. Nesse cenário, tudo parece acontecer ao mesmo tempo, em ritmo acelerado. 

Cada vez mais pessoas sentem que são empurradas para um lado ou para o outro, quase “forçadas” a escolher posições, opiniões e identidades, muitas vezes sem espaço para dúvidas, processos ou amadurecimento. 

Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil  

Polarização e juventudes: desafios para o protagonismo consciente 

Essa dinâmica de polarização se manifesta com muita força no campo juvenil. A juventude é, por natureza, uma fase de busca, de afirmação e de desejo de ser protagonista da própria história. É o momento em que se quer “ser dono do próprio mundo”, mas, ao mesmo tempo, nem sempre se encontram referências sólidas, informações confiáveis ou espaços de escuta que ajudem a construir esse protagonismo de forma consciente. 

O resultado é que muitos jovens acabam pressionados a assumir posições extremadas, como se não houvesse espaço para o processo, para a dúvida ou para a mudança. Em vez de diálogo, surgem disputas; em vez de escuta, guerras simbólicas; em vez da busca pela verdade, a defesa apaixonada de “verdades absolutas”. 

As redes sociais intensificam ainda mais esse cenário, premiando discursos agressivos, simplificados e emocionalmente carregados, que geram engajamento rápido, mas pouca reflexão. 

Política, heróis e vilões: quando a realidade é simplificada 

No campo político, essa lógica se expressa na chamada cultura dos heróis e vilões. Cria-se o desejo de encontrar alguém em quem colocar toda a culpa pelo que não dá certo e, ao mesmo tempo, um salvador que supostamente resolverá todos os problemas. 

Essa narrativa é sedutora, mas profundamente ilusória. A realidade social é complexa, construída por múltiplos fatores históricos, econômicos, culturais e políticos. Reduzi-la a personagens messiânicos ou a inimigos únicos impede uma leitura madura e responsável da realidade e enfraquece o compromisso com o bem comum. 

A realidade é mais complexa do que os discursos 

Relatórios internacionais confirmam que essa sensação de confusão e tensão não é apenas subjetiva. Estudos como o Global State of Democracy (International IDEA) e o Freedom in the World  (Freedom House) apontam para o enfraquecimento do diálogo democrático, o aumento da polarização e a perda de confiança nas instituições em várias partes do mundo. 

Ao mesmo tempo, o Digital News Report, do Reuters Institute, mostra que cada vez mais pessoas se informam principalmente pelas redes sociais, onde os conteúdos são filtrados por algoritmos que priorizam engajamento, não necessariamente profundidade ou verdade. 

Diante disso, o Papa Francisco oferece um critério fundamental na Evangelii Gaudium: “a realidade é mais importante do que a ideia”(EG 231). Nenhuma narrativa, ideologia ou postagem dá conta sozinha da complexidade do mundo. Quando ficamos presos apenas às ideias, corremos o risco de defender discursos sem enxergar as pessoas reais que vivem suas consequências. 

Essa mesma intuição aparece na Laudato Si, ao falar de ecologia integral, recordando que as crises ambiental, social, econômica, cultural e política estão profundamente interligadas. 

Espiritualidade inaciana: uma chave para ler o mundo 

É justamente aqui que a espiritualidade inaciana se mostra extremamente atual. Longe de propor fuga da realidade, Santo Inácio de Loyola convida a encontrar Deus em todas as coisas, inclusive nas contradições da história. 

A espiritualidade inaciana parte de uma convicção fundamental: não existe neutralidade, mas existe discernimento. 

Como indicam as Regras de Discernimento da Primeira Semana dos Exercícios Espirituais (EE 316–317), é essencial aprender a reconhecer os movimentos interiores de consolação e desolação. Em tempos de polarização, isso significa perceber o que nos conduz à vida, à esperança, ao amor e à justiça e o que nos fecha no medo, na raiva, na agressividade e na desumanização do outro. 

Discernimento inaciano e vida digital 

As mesmas regras alertam que, em tempos de desolação, não é prudente fazer mudanças importantes (EE 318). Aplicado à vida digital e ao debate público, isso nos ajuda a compreender que decisões tomadas no calor da indignação, do ódio ou da ansiedade dificilmente conduzem ao bem comum ou à verdade. 

Ainda segundo as Regras de Discernimento, quando a confusão aumenta, o caminho não é desistir, mas aprofundar a oração, o exame e a reflexão (EE 319). Para as juventudes, isso é um convite a não ceder à pressa das redes sociais e a sustentar processos de amadurecimento pessoal e coletivo. 

O magis como caminho para as juventudes 

Dentro da espiritualidade inaciana, o magis ocupa um lugar central. Ele não significa fazer mais coisas, mas buscar aquilo que mais conduz à vida plena e ao sentido profundo da existência. 

Viver o magis hoje, especialmente para as juventudes, significa:

– Não se contentar com explicações rasas; 

– Sustentar dúvidas e processos; 

– Buscar fontes diversas; 

– Escolher o diálogo em vez do cancelamento; 

– Cultivar a liberdade interior, aquilo que Inácio chama de indiferença inaciana (EE 23). 

A declaração Dignitas Infinita, do Dicastério para a Doutrina da Fé, reforça esse critério ao lembrar que a dignidade da pessoa humana deve ser respeitada em qualquer circunstância, impedindo que a fé seja usada para justificar exclusões ou violências simbólicas. 

Caminhos práticos para fortalecer o senso crítico 

Para muitas juventudes, a pergunta principal é: como fazer isso na prática? Alguns caminhos simples podem ajudar: 

1. Desconfiar de discursos que só geram raiva: Conteúdos que apenas inflam emoções raramente ajudam a compreender a realidade. 

    2. Comparar fontes e narrativas: Ler mais de uma fonte amplia o olhar e reduz a manipulação. 

      3. Perguntar quem fica invisível: Toda narrativa destaca alguém e silencia outros. 

        4. Fazer o exame inaciano da vida digital: O que consumo nas redes me torna mais humano, mais aberto, mais compassivo? 

          5. Cultivar silêncio e interioridade: Sem pausa interior, não há discernimento possível. 

            Esperança como escolha consciente 

            Em meio a tantas tensões, a esperança cristã não é ingenuidade nem fuga da realidade. Como recorda a bula do Jubileu 2025, Spes non confundit, a esperança nasce do compromisso e da perseverança, não da negação dos problemas. 

            Para as juventudes, ler a realidade com senso crítico e espiritualidade é escolher não ser refém da polarização nem do cinismo. É apostar que outro modo de viver, comunicar e fazer política é possível, mesmo que seja mais exigente, mais lento e menos “viral”. 

            A espiritualidade inaciana não oferece respostas prontas, mas oferece algo talvez mais valioso: um caminho para aprender a ler o mundo com profundidade, liberdade interior e compromisso com a vida.

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