Sávio Reis, Centro Magis Burnier
É comum ouvirmos que a juventude é apática e desinteressada da política. Entretanto, essa percepção nem sempre corresponde à realidade. O que mudou, em muitos casos, foi a forma como os jovens participam da vida pública. Em vez de se identificarem exclusivamente com partidos políticos ou espaços institucionais, muitos encontram outras maneiras de atuar: em projetos sociais, coletivos culturais, movimentos ambientais, pastorais, ações de voluntariado, iniciativas comunitárias e organizações da sociedade civil. A participação política não se resume às eleições; ela também acontece quando alguém assume responsabilidade pela transformação da realidade e pelo cuidado com aquilo que é comum.
Na Christus Vivit, o Papa Francisco afirma que os jovens são o presente e que enriquecem o mundo com sua contribuição, participando do desenvolvimento da família, da sociedade e da Igreja (ChV, n. 64). A juventude possui uma capacidade própria de sonhar, indignar-se diante das injustiças e mobilizar pessoas em torno de causas que promovem a dignidade humana. O desafio, portanto, talvez não seja simplesmente despertar o interesse dos jovens pela política, mas criar espaços onde esse protagonismo possa ser acolhido, acompanhado e colocado a serviço da transformação social.
A espiritualidade inaciana também nos ajuda a compreender esse protagonismo. Santo Inácio de Loyola ensina que Deus chama cada pessoa a colocar seus dons a serviço dos outros. Quando um jovem decide servir sua comunidade, defender a vida, cuidar da Casa Comum ou promover a justiça, ele está respondendo a esse chamado. A participação na vida pública, quando orientada pelo bem comum, pode ser compreendida também como uma expressão concreta da fé.
O que significa ser politicamente desmobilizado?
Ser politicamente desmobilizado vai muito além de deixar de votar ou de acompanhar as notícias. A desmobilização acontece quando perdemos a esperança de que a realidade possa ser transformada. É acreditar que nada muda, que todas as escolhas são inúteis e que participar da vida pública não faz diferença. Esse sentimento favorece a indiferença, enfraquece os vínculos comunitários e reduz nossa capacidade de construir respostas coletivas para os desafios da sociedade.
Autores como Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han ajudam a compreender alguns aspectos dessa realidade. Vivemos em uma cultura marcada pelo individualismo, pelo excesso de informação, pela velocidade e pelo cansaço. Estamos permanentemente conectados, mas isso não significa necessariamente que estejamos mais comprometidos com a realidade ao nosso redor. O excesso de informações pode produzir conhecimento, mas também pode gerar saturação e afastamento. Quando tudo parece urgente e nada parece capaz de mudar, torna-se mais fácil escolher a indiferença.
A Fratelli Tutti reconhece que muitas pessoas possuem hoje uma má compreensão da política, alimentada pelos erros, pela corrupção e pela ineficiência, mas também questiona se é possível construir a fraternidade e a paz social sem uma “boa política” (FT, n. 176). A espiritualidade inaciana nos propõe justamente um caminho contrário à desesperança: o discernimento. Discernir é olhar a realidade com atenção, reconhecer os movimentos que nos aproximam ou nos afastam do bem e perguntar onde Deus nos chama a colaborar. Resistir à desmobilização significa permanecer disponível para servir e acreditar que nossas escolhas podem contribuir para transformar a realidade.
Votar em branco ou nulo é uma forma de protesto?
O voto em branco ou nulo costuma aparecer como uma forma de expressar descontentamento com o cenário político. Para algumas pessoas, essa decisão representa um protesto diante da falta de identificação com os candidatos; para outras, significa abrir mão de participar de uma escolha importante para a sociedade. Diante dessa questão, a espiritualidade inaciana nos convida a superar respostas simplistas e a buscar um discernimento mais profundo sobre as motivações que sustentam nossas escolhas.
Mais importante do que afirmar simplesmente se votar em branco ou nulo é certo ou errado é perguntar de onde nasce essa decisão. Ela é resultado de uma reflexão consciente sobre as alternativas existentes? É uma escolha feita depois de buscar informações e considerar suas consequências? Ou nasce do desencanto, da desinformação ou da indiferença? O Compêndio da Doutrina Social da Igreja afirma que os partidos políticos têm a função de favorecer uma participação ampla e o acesso às responsabilidades públicas, oferecendo aos cidadãos a possibilidade efetiva de contribuir para a formação das escolhas políticas e orientando as aspirações da sociedade civil para o bem comum (CDSI, n. 413). Além disso, o documento ressalta que a informação é um dos principais instrumentos da participação democrática, pois não é possível uma participação efetiva sem conhecer os problemas da comunidade, os fatos e as diferentes propostas para enfrentá-los (CDSI, n. 414).
Santo Inácio nos ensina que as decisões importantes precisam ser acompanhadas de liberdade interior, reflexão e discernimento. Também nas escolhas políticas somos convidados a perguntar não apenas aquilo que nos parece mais conveniente, mas aquilo que pode favorecer a dignidade humana, a justiça, a fraternidade e o cuidado com os mais vulneráveis. A fé não determina em quem votar, mas oferece critérios para que nossas escolhas sejam responsáveis e orientadas pelo bem comum.
A participação política acontece apenas nas eleições?
Reduzir a política ao período eleitoral significa limitar a própria democracia. A participação política acontece diariamente, quando acompanhamos a atuação dos representantes eleitos, participamos de associações, conselhos comunitários, pastorais, movimentos sociais, organizações estudantis ou iniciativas de voluntariado. Sempre que nos organizamos para cuidar daquilo que pertence a todos, estamos vivendo uma experiência política. A informação, inclusive, é parte fundamental dessa participação, pois conhecer os problemas da comunidade e as diferentes propostas para enfrentá-los é condição para uma participação democrática efetiva (CDSI, n. 414).
A Lumen Gentium ajuda a compreender que o compromisso cristão com a sociedade não é algo externo à vocação dos fiéis. O Concílio Vaticano II afirma que, por sua própria vocação, os leigos são chamados a procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus (LG, n. 31). Assim, a vida social, profissional, cultural e política também pode ser espaço de testemunho cristão. A participação cidadã não precisa ser compreendida como algo separado da fé, mas como uma das formas pelas quais os cristãos vivem sua responsabilidade no mundo.
É justamente aqui que podemos compreender a relação entre fé e vida: aquilo que professamos precisa encontrar expressão concreta nas nossas escolhas. A fé celebrada e anunciada pela comunidade cristã nos envia ao encontro da realidade e das pessoas, especialmente daqueles que mais sofrem. O compromisso com a justiça, o cuidado com os mais vulneráveis e a busca pelo bem comum não são acréscimos à vida cristã, mas consequências de uma fé que reconhece no outro um irmão e uma irmã.
O que a espiritualidade inaciana pode nos ensinar sobre isso?
A espiritualidade inaciana parte da convicção de que Deus pode ser encontrado em todas as coisas. Isso significa que também as realidades sociais, políticas e culturais podem tornar-se lugares de discernimento e encontro com Deus. Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio propõe um caminho no qual a pessoa aprende a reconhecer os movimentos interiores, ordenar seus afetos e escolher aquilo que mais conduz ao serviço de Deus e do próximo. Não se trata de encontrar respostas prontas, mas de aprender a olhar a realidade com liberdade e responsabilidade.
Essa perspectiva dialoga profundamente com o ensinamento do Concílio Vaticano II. A Lumen Gentium afirma que os leigos, incorporados a Cristo pelo Batismo, participam da missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo e são chamados a atuar nas realidades temporais, contribuindo para sua transformação segundo o espírito do Evangelho (LG, n. 31). A fé, portanto, não nos retira do mundo, mas nos envia a ele. A oração, o discernimento e a experiência comunitária encontram sua continuidade na maneira como nos relacionamos com as pessoas e assumimos nossa responsabilidade diante da sociedade.
É justamente esse movimento que encontramos na espiritualidade inaciana: contemplar a realidade, deixar-se afetar por ela, discernir os caminhos possíveis e colocar-se a serviço. Santo Inácio não propõe uma espiritualidade afastada do mundo, mas um caminho que conduz a encontrar Deus em todas as coisas e a buscar, em cada escolha, aquilo que mais conduz ao amor e ao serviço. Por isso, o compromisso com a justiça e com o bem comum pode ser compreendido como consequência concreta de uma fé que se deixa transformar pela realidade.
Como a juventude resiste hoje?
Em um contexto marcado pela polarização, pela desinformação e pelo crescimento da indiferença, resistir significa recusar a lógica do isolamento e continuar acreditando na força da participação. A juventude resiste quando escolhe organizar-se, estudar, dialogar, cuidar das pessoas, defender a dignidade humana e construir espaços de convivência e solidariedade. Resiste quando transforma indignação em ação e quando decide que as dificuldades da realidade não serão suficientes para fazê-la abandonar o compromisso com o mundo.
A Fratelli Tutti apresenta a fraternidade e a amizade social como caminhos concretos para enfrentar a fragmentação e construir uma sociedade mais humana. Ao falar sobre a política, Francisco afirma que reconhecer cada pessoa como irmão ou irmã e procurar uma amizade social que inclua todos exige decisão e capacidade de encontrar caminhos concretos. Quando uma pessoa se une a outras para gerar processos sociais de fraternidade e justiça, entra no campo da “caridade política” (FT, n. 180). O Papa também afirma que o amor possui uma dimensão civil e política e se manifesta nas ações que procuram construir um mundo melhor (FT, n. 181).
A juventude resiste, portanto, quando transforma sua fé em serviço e sua esperança em compromisso. Não se trata apenas de denunciar aquilo que está errado, mas de participar da construção de alternativas. É nesse ponto que a espiritualidade inaciana encontra a experiência concreta dos jovens: olhar a realidade, deixar-se afetar por ela, discernir os caminhos possíveis e colocar-se a serviço. O Reino de Deus também se constrói assim, através de pessoas que acreditam que a realidade pode ser transformada e que escolhem, todos os dias, fazer parte dessa transformação.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium: Constituição Dogmática sobre a Igreja. Vaticano, 1964.
FRANCISCO. Christus Vivit: Exortação Apostólica Pós-Sinodal aos jovens e a todo o povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2019.
FRANCISCO. Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. São Paulo: Paulus, 2020.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.
LOYOLA, Inácio de. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 2004. PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.







