Por um acompanhamento vocacional encarnado na vida das juventudes

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Giovani do Carmo e Vinicius Alencar

Queridos (as) jovens e acompanhadores de jovens, 

Os caminhos percorridos até aqui evidenciam um deslocamento significativo na compreensão do fenômeno vocacional no horizonte das juventudes contemporâneas. Já não se trata de pensar como um ponto de chegada previamente definido, nem como mera adesão a estados de vida institucionalizados, mas como um processo existencial tecido no interior das experiências concretas de amar, pertencer, buscar e projetar-se. A chamada “gramática juvenil do amor” revelou que o lugar originário da vocação é a experiência relacional significativa; as reflexões sobre as comunidades juvenis explicitaram que o sujeito vocacional se constitui no entrelaçamento com outros; e o debate em torno do acompanhamento reafirmou que nenhuma trajetória vocacional se sustenta sem mediações concretas de escuta, discernimento e cuidado. 

Entretanto, reconhecer essas dimensões não é ainda suficiente. Há um risco recorrente nas práticas pastorais contemporâneas, o de permanecer no nível da análise sensível e bem fundamentada, mas sem conseguir traduzir essa compreensão em formas concretas, sustentáveis e eficazes de ação. Em outras palavras, há uma lacuna entre a “análise de conjuntura” muitas vezes cheia de certezas, e a práxis, frequentemente fragmentada, episódica ou ocasional que é incapaz de gerar processos duradouros em comunidades vocacionais permanentes. É exatamente nesse intervalo que este texto se insere, não para abandonar a densidade da conversa tecida até aqui, mas para radicalizá-la na direção de proposições possíveis. 

Assumir a vocação como processo implica aceitar que também a pastoral vocacional precisa se configurar como processo. Isso exige uma mudança de lógica, sair de uma pastoral vocacional centrada em eventos para pensar processos estruturados em itinerários; deslocar-se de propostas homogêneas para percursos humanizados e singulares; passar de iniciativas isoladas para uma atuação orgânica em rede; e, sobretudo, compreender que o acompanhamento não é uma etapa, mas o eixo transversal de toda a experiência. Trata-se, portanto, de pensar não apenas o “o quê” da vocação, mas o “como” ela pode ser vivida, mediada e sustentada no cotidiano das juventudes. 

Assim, emerge uma questão importante, como efetivar, na prática, uma cultura vocacional que seja, ao mesmo tempo, fiel à complexidade das vidas das juventudes e consistente o suficiente para gerar vínculos e sentido? A resposta não pode ser simplista nem imediata. Passa pela construção de ambientes de acompanhamento capazes de integrar a amplificação e complexificação da vida juvenil; pela configuração de comunidades que não apenas acolham, mas sustentem processos; e pela formação de acompanhadores que saibam habitar o tempo do outro sem antecipar respostas ou impor trajetórias. 

Mais do que propor modelos fechados, este texto se orienta pela busca de critérios e caminhos. Trata-se de delinear princípios operativos que possam inspirar práticas diversas, respeitando contextos, histórias e sujeitos concretos. Nesse sentido, a aposta fundamental permanece a mesma que atravessa os textos anteriores: a vida nasce e se desenvolve no interior de relações vivas. O fenômeno vocacional está entremeado à vida. Contudo, agora se trata de dar um passo adiante, a saber, compreender como essas relações podem ser intencionalmente cultivadas, organizadas e sustentadas, de modo que deixem de ser experiências pontuais e se tornem processos geradores de vida. 

Assim, esta reflexão assume um caráter eminentemente propositivo, deseja contribuir para a passagem de uma pastoral vocacional que intui para uma pastoral que estrutura; de uma experiência que acontece para uma experiência que se acompanha; de uma busca dispersa para um caminho compartilhado. Não se trata de oferecer respostas prontas, mas de abrir trilhas possíveis, suficientemente sólidas para orientar e suficientemente abertas para serem recriadas na dinâmica viva das juventudes. 

O lugar da animação vocacional hoje: sustentar o desejo e habitar o movimento 

Chegamos a um ponto importante de nossa travessia, propor um elemento para pensarmos o próprio lugar da animação vocacional no tempo presente. Não mais como um setor específico, voltado à promoção de estados de vida, mas como uma prática transversal, cujo núcleo é mais radical e, ao mesmo tempo, mais elementar que é o de sustentar o desejo humano de viver com sentido. Afinal, como nos convida o Texto-Base do 5º Congresso Vocacional do Brasil, a comunidade é por natureza vocacional e sem essa dimensão viva não se haverá possibilidade para pensar nas formas de vida e serviço específicas no interior do povo de Deus. 

A questão do sentido da vida, frequentemente tomada como ponto de partida da reflexão vocacional, precisa ser deslocada. Não porque tenha perdido relevância, mas porque sua forma de aparecer mudou. Nas juventudes contemporâneas, o sentido já não se apresenta como uma resposta a ser encontrada, estável e definitiva. Nesse contexto, insistir em oferecer respostas prontas pode não apenas ser ineficaz, mas também produzir distanciamento. A pergunta pelo sentido se tornou mais difusa, existencial, menos formulada em termos explícitos e mais vivida como inquietação. 

É nesse horizonte que a categoria de desejo se torna central. O desejo, diferentemente de uma necessidade que pode ser satisfeita, é estruturalmente aberto. Ele não se encerra em objetos específicos, mas se move, se desloca, se reconfigura. Desejar é, de certo modo, manter-se em relação com aquilo que ainda não está plenamente dado. Por isso, o desejo não pode ser reduzido a uma carência a ser preenchida, mas deve ser compreendido como dinamismo constitutivo da própria vida humana. Sustentar o desejo é, portanto, sustentar o movimento da existência. 

Se a vocação é compreendida nesse registro, deixa de ser pensada como uma resposta fixa a uma pergunta fechada e passa a ser entendida como a forma singular pela qual cada sujeito aprende a habitar esse movimento. A vocação não elimina a abertura do desejo, ela a orienta, a aprofunda e a encarna em escolhas concretas. O problema central da animação vocacional hoje não é “ajudar o jovem a decidir”, mas criar condições para que ele não desista de desejar, mesmo diante de uma realidade que constantemente fragmenta, dispersa e esvazia as experiências de sentido. 

A cultura contemporânea, marcada pela aceleração, pela lógica do consumo e pela multiplicação de possibilidades, tende a produzir uma dupla armadilha. Por um lado, a saturação de experiências superficiais em que as pessoas jovens são consumidoras-espectadoras; por outro, a ausência de sustentação processos longos e escolhas institucionalizadas. O desejo, nesse cenário, corre o risco de ser capturado pelo imediato ou de se enfraquecer diante da falta sentida de capacidade de conseguir dar continuidade aos processos de longo prazo. A Animação e o Acompanhamento Vocacional se inserem precisamente nesse ponto de tensão, são chamadas a valorizar o desejo proporcionando elementos capazes de gerar discernimento que o impede de ser capturado tanto pela dispersão quanto pelo esvaziamento. 

Isso implica uma mudança significativa de perspectiva pastoral. Animar e acompanhar as juventudes em perspectiva vocacional não é, antes de tudo, propor conteúdos ou apresentar predefinições, mas proporcionar espaços que favoreçam o cuidado do espaço interior onde o desejo pode emergir, ser reconhecido e amadurecido. Trata-se de favorecer experiências que não anestesiem a inquietação, mas que a tornem habitável; que não apressem respostas, mas que sustentem perguntas; que não ofereçam apenas alternativas, mas que ajudem a construir critérios. “A vida interior é um convite a mergulhar na profundidade do amor de Deus, que nos amou primeiro e nos escolheu” (Texto-Base, p. 49). 

A animação vocacional se aproxima de uma pedagogia do tempo. Sustentar o desejo exige desacelerar, criar ritmos, possibilitar continuidade. Exige também a construção de vínculos que não sejam meramente funcionais, mas que permitam ao sujeito experimentar-se reconhecido e acompanhado. É no interior dessas relações que o desejo pode ganhar densidade, deixando de ser apenas impulso momentâneo para se tornar orientação existencial. Uma pedagogia do tempo nos convida a olhar para o horizonte ao invés de permanecermos fincados no imediato do tempo-espaço. Como afirmou Papa Francisco, 

O tempo é superior ao espaço. Este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos. Ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de planos que o dinamismo da realidade impõe. É um convite a assumir a tensão entre plenitude e limite, dando prioridade ao tempo (Evangelii Gaudium, n. 222-223). 

Ao mesmo tempo, sustentar o desejo não significa deixá-lo indeterminado fora da concretude da temporalidade da vida cotidiana. Há aqui uma tensão fundamental: respeitar a abertura sem cair na indiferença; acolher o movimento sem abdicar de direção. A animação vocacional, nesse sentido, não elimina o horizonte de decisão, mas o reinscreve dentro de um processo mais amplo, no qual escolher não é fechar possibilidades, mas dar forma concreta a um modo de viver. Sair do gozo indeterminado e infantil, para abraçar com consciência a responsabilidade de existir em liberdade. A decisão vocacional, quando emerge desse percurso, não aparece como ruptura com o desejo, mas como sua configuração encarnada. 

Chegamos, assim, a um ponto de inflexão, a animação vocacional, hoje, é chamada a ser encorajadora do desejo. Não no sentido de controlá-lo, mas de cultivá-lo e ajudar as juventudes a construírem seu caminho com protagonismo e liberdade interior. Essa tarefa assume um caráter profundamente criativo e propositivo. Trata-se de afirmar que a vida não se reduz ao imediato, que o sentido não se esgota no consumo de experiências e que o humano permanece aberto, sempre, a algo mais que o convoca a ser mais. 

Sustentar o desejo é, em última instância, sustentar a possibilidade de sentir e saborear a realidade de ser chamado a algo mais, de ser vocacionado. É manter aberto o espaço onde a vida pode ser reconhecida como chamada, e onde cada sujeito pode, pouco a pouco, trilhar e construir caminhos não com fórmula pronta, com a própria existência em movimento. 

Espaços e processos de encontro com a pessoa de Jesus de Nazaré 

O Congresso Vocacional tem retomado o fundamento de toda fé cristã: o encontro com o Ressuscitado. Encontrar a Jesus Cristo é o divisor de águas de todo projeto de vida de um discípulo-missionário. Ao apontarmos no texto anterior para uma falência mistagógica da Animação e do Acompanhamento vocacional, estamos também a refletir sobre esta falência desde um ponto de vista da vida comunitária nas comunidades eclesiais desde o horizonte querigmático até o caminho mistagógico de inspiração catecumenal proposto a todo o povo de Deus. 

Uma pastoral verdadeiramente missionária não deve se preocupar em transmitir uma grande quantidade de doutrinas de forma desarticulada ou impositiva. Ao contrário, quando se adota uma abordagem pastoral com foco missionário, o anúncio do Evangelho deve priorizar o essencial, aquilo que é mais belo, relevante, atraente e necessário para a vida das pessoas (Texto-base, p.61-62). 

A comunidade eclesial é socioespacial por ser ambiente de socialização, sociabilidade e de produção de identidades e identificações coletivas. Os processos por meio dos quais os indivíduos são introduzidos na comunidade eclesial são de natureza de socialização eclesial que ocorrem por imposição de padrões sociais à conduta individual. Estes podem até mesmo interferir ou produzir ritmos fisiológicos do organismo. (BERGER, Peter; BERGER, Brigitte [1975]. Socialização: como ser um membro da sociedade). A linguagem, os espaços, as relações, os códigos comportamentais, os regimes de atenção, as gradações de impostação da voz, os símbolos e compreensões vão situando e ordenando os corpos no tempo e no espaço, no princípio e na eternidade, no agora e no além. Até a possibilidade de escolha por se tornar um religioso/a católico é fruto destes processos de socialização. Em suma, aprendemos a sermos quem somos nestes processos de sentido recebidos ao nascer e se desenvolver. 

Estes processos são porosos e intercambiáveis em ambiente eclesial são atravessados por outros espaços de socialização pelos quais os indivíduos transitam ao longo de sua vida e mesmo ao longo do seu dia. A pessoa começa seu dia em seu espaço familiar; passa o dia em ambientes de trabalho, estudo ou outra ocupação; faz o terceiro turno de jornada em ambiente eclesial em uma reunião, formação ou celebração; finaliza-o retornando ou não ao seu espaço familiar. As lógicas destes socio-espaços cortam os corpos e colocam-no em um movimento mecânico automático de contração e expansão a depender das bordas possíveis de existir nestes lugares de tal maneira que em alguma medida as lógicas se cruzam, se intercambiam, se conectam, se coagulam e formam dispositivos de sentido para a vida. 

A experiência religiosa das juventudes em ambientes eclesiais é perpassada pela ampliação e complexificação de suas vidas que experimenta uma multiplicidade de possibilidades de se relacionar com “o sagrado”. As possibilidades de ambientes de socialização em famílias plurirreligiosas ou de mixagem (bricolagem) religiosa ou de hibridismo de técnicas e experiências múltiplas de espiritualidade formam um caldo experiencial em que é impossível sustentar uma hermeticidade. “O que se vê é que neste terreno informe que é a religiosidade brasileira, afunda-se toda homogeneização, tratamento de massa, e pretensa representatividade” (Atlas da Juventude, 2021, p. 310). 

Embora haja jovens a quem agrada ver uma Igreja que se manifesta humildemente segura dos seus dons e capaz de exercer uma crítica leal e fraterna, outros jovens reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe o tempo a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida, mas tampouco desejam que esteja sempre em guerra por dois ou três assuntos que a obcecam. Para ser credível aos olhos dos jovens, precisa às vezes de recuperar a humildade e simplesmente ouvir, reconhecer, no que os outros dizem, alguma luz que a pode ajudar a descobrir melhor o Evangelho. Uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite ser questionada, perde a juventude e transforma-se num museu. Como poderá uma Igreja assim receber os sonhos dos jovens? Embora possua a verdade do Evangelho, isto não significa que a tenha compreendido plenamente; antes, deve crescer sempre na compreensão deste tesouro inesgotável (Christus Vivit, n. 41). 

Tomando a sério a afirmação que as juventudes são um lugar teológico no qual e a partir do qual Deus nos ajuda a descobrir melhor o Evangelho, a vida das juventudes está a nos dizer que há uma tarefa a ser feita na Animação e Acompanhamento Vocacional. Para não ser um museu conservador de peças passadas colocadas em pedestais intocáveis, é preciso sentir e saborear a vivacidade da experiência da vida. As juventudes nos estão a dizer que o conteúdo formativo é importante, todavia ainda mais importante é a experiência de encontrar a Jesus. Jesus é a experiência que impulsiona e encoraja a ousadia de ser mais do que se está dado. A comunidade eclesial carrega consigo um tesouro de metodologias experienciais os quais tem sido apagado pela imediata ansiedade de produzir artificialmente atração por Jesus Cristo através da promoção de peças, técnicas e estratégias publicitárias que afunilam da vida. 

A vida das juventudes tem nos mostrado que a fragmentação é produzida dentro de um modo de vida neoliberal. O espaço de socialização gerado pela forma neoliberal de capital é estruturador da vida de tal maneira que os corpos são submetidos a um treinamento de natureza extremamente complexa para dar conta de minimamente responder a uma série de múltiplos, díspares e difusos estímulos e vivências existentes em um único dia (BENJAMIN, Walter. Sobre alguns temas em Baudelaire. p. 105). O que se torna uma vida em que se aprende a responder a estímulos sem se perguntar ou mesmo sem a possibilidade de significá-los, nem mesmo poder interpor outro horizonte possível de sentido. O que há é a nua crueza do existir animalizado da satisfação dos instintos e necessidades. 

A vida na modernidade tardia é particularmente desnuda. Ela carece de qualquer fantasia narrativa. As informações não se deixam vincular em uma narração. Com isso, as coisas se desfazem. O contexto significativo cede seu lugar à justaposição e à sucessão sem sentido de acontecimentos. Não há horizonte narrativo para nos elevar além da pura vida (HAN, Byung-Chul. A crise da narração. p. 66). 

A questão fundamental é, portanto, esta: como recuperar a capacidade de agir simbolicamente. O agir simbólico é capaz de dar sentido ao existir e, por consequência, ao encontro com Jesus Cristo (Desiderio Desideravi, n. 27). Afinal, tratamos de um encontro com Jesus através de uma experiência fundamental para a fé cristã chamada de “memória”. Fazer memória é atualizar a presença e a vida de Jesus para quem o encontra no hoje da história. Fazer memória, como afirmou Paulo Coríntios 11,24, é uma ação remetida pelo verbo poieó (ποιέω) que consiste em fazer, agir ou causar. A memória é provocada por uma série de mecanismos e símbolos que ajudam o corpo a encontrar nesse espaço de socialização a Jesus de Nazaré. “Poderia dizer-se que ‘lembrar’ é um verbo performativo, realiza algo, expressa uma ação com consequências para o presente e o futuro e, com isso, uma ação que irrompe no presente abrindo futuro” (TABORDA, Francisco. O memorial da Páscoa do Senhor: ensaios litúrgico-teológicos sobre a eucaristia. p. 66). 

A vida em tempos de neoliberalismo e inteligência artificial tem perdido a capacidade de simbolizar a própria existência e, por conseguinte, o empobrecimento da memória. A perda de sensibilidade e de afetação deixar-se tocar produz um esquecimento e alienação de si de tal maneira que a poesia e o amor são desconsiderados dos elementos necessários para salvar a experiência humana (Dilexit nos, n. 20). A experiência do fenômeno religioso aponta que um dos elementos decisivos para mediação do encontro com o sagrado é restituição da dimensão simbólica sem a qual a religião se torna um emaranhado de afirmações e teses sem vida alguma. “Na experiência do homo religiosus, o transcendente que o símbolo convoca não objetivável nem definível em palavras. Percebe-se como mistério, como claro-escuro, por isso é preciso a mediação das coisas de nossa experiência comum” (CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. p. 87). 

Nas comunidades eclesiais, diante dessa desertificação da experiência humana contemporânea, ao invés de apostarmos em processos, relações e experiências provocadoras da memória, terminamos por nos aferrar a propostas formativas engessadas em questões doutrinais e morais “sobre os males do mundo atual, sobre a Igreja, a doutrina social, sobre a castidade, o matrimônio, o controle da natalidade e sobre tantos outros temas”. A vida das juventudes tem nos provocado a refletir com seriedade que o cerne está em “suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã” (Christus Vivit, n. 212). 

Uma renovada cultura vocacional a partir do ethos batismal 

Talvez a contribuição mais profunda das juventudes à reflexão vocacional hoje não esteja apenas nas suas demandas explícitas, mas naquilo que sua própria forma de viver, buscar e significar a existência nos revela. Escutar as juventudes implica a necessidade de recuperar um fundamento que se perdeu como experiência, ainda que permaneça como discurso. As novas gramáticas juveniis, marcadas pela centralidade da experiência, pela busca de autenticidade, pela recusa de respostas pré-fabricadas e pela abertura do desejo, parece nos conduzir, ainda que de modo indireto, a uma interrogação mais radical: o que sustenta, de fato, uma vida vivida como resposta? É nesse ponto que emerge, não como repetição doutrinal, mas como redescoberta existencial, a noção de ethos batismal

A categoria de ethos, tal como trabalhada na tradição filosófica não se reduz a um conjunto de normas ou valores abstratos. Ethos é, antes de tudo, um modo de habitar o mundo, uma forma de vida encarnada em práticas, gestos, sensibilidades e relações. Quando, portanto, falamos de ethos batismal, não estamos nos referindo primariamente a uma doutrina sobre o batismo, mas à sua capacidade de configurar a existência, de se tornar forma concreta de viver, perceber, desejar e agir: um estilo de vida. 

A questão, e aqui se torna evidente a interpelação das juventudes, é que o batismo deixou, em grande medida, de operar nesse nível. Como já apontaram autores como Louis-Marie Chauvet (2001), ao falar da necessidade de uma experiência existencial da fé, ou, ao insistir na dimensão simbólica dos sacramentos, há uma distância crescente entre o que a teologia afirma e o que o sujeito efetivamente vive. O batismo permanece como referência teológica e como rito celebrado, mas já não estrutura, de modo perceptível, a experiência cotidiana de ser sujeito. 

As juventudes, ao privilegiarem a experiência sobre a mera transmissão de conteúdos, ao buscarem sentido na concretude da vida e não em formulações abstratas, acabam por evidenciar essa ruptura. Elas nos mostram, ainda que implicitamente, que uma cultura vocacional não se sustenta sobre ideias, mas sobre experiências habitáveis. E, nesse sentido, nos obrigam a perguntar: o batismo é, hoje, uma experiência que organiza a vida, ou apenas uma memória distante, sem incidência real? 

Recuperar o ethos batismal significa, então, recolocar o batismo no lugar de princípio gerador de existência. Significa compreender que ele não é apenas o fundamento da vocação, mas a própria forma originária de toda vocação. Antes de qualquer escolha específica, há uma experiência primeira, a de ser chamado a existir como filho e filha, inserido em uma relação que precede e sustenta todas as demais. Como insiste Ratzinger, a identidade cristã não nasce de uma decisão ética, mas de um encontro que nos dá um novo horizonte e, com isso, uma nova forma de viver (DCE, 1). Então, não se trata mais de perguntar, em primeiro lugar, “qual é a minha vocação?”, mas de reconhecer que a própria existência já é vocação. Não há alguns vocacionados e outros não; há uma condição vocacional comum, que depois se singulariza em caminhos concretos. A vocação deixa de ser exceção e se torna condição. 

Mas o que significa, na prática, viver esse ethos batismal? Significa, antes de tudo, habitar a vida a partir de uma experiência de filiação. Não como ideia, mas como experiência concreta de ser reconhecido, chamado pelo nome, inserido em uma história que não começa em si mesmo. Essa experiência, quando vivida, reconfigura o modo de se relacionar com o mundo, o outro deixa de ser ameaça ou instrumento e passa a ser lugar de encontro; a vida deixa de ser mera sucessão de estímulos e passa a ser espaço de resposta; o tempo deixa de ser urgência e passa a ser caminho. 

Significa também viver em chave de relação e de missão. O ethos batismal não é intimista. Ele insere o sujeito em uma trama comunitária e o convoca à colaboração na missão de Jesus. Nesse sentido, a comunidade não é apenas espaço de pertença, mas lugar onde se aprende a viver vocacionalmente, onde o chamado se torna visível, narrável e sustentado. Além disso, viver o ethos batismal implica assumir a vida como processo contínuo de resposta. A vocação não se reduz a um momento decisório, mas se expressa na forma como se vive o cotidiano: nas escolhas pequenas, nos vínculos construídos, na capacidade de sustentar o desejo sem reduzi-lo ao imediato. Aqui, a reflexão sobre o desejo, tão presente nas gramáticas juvenis, encontra seu lugar, como dito, o desejo não é negado, mas orientado, aprofundado, configurado como abertura ao outro e ao totalmente Outro. 

Por fim, viver o ethos batismal significa recuperar a dimensão simbólica da existência. O símbolo não é acessório, mas aquilo que dá a pensar e a viver. Sem símbolos, ritos e narrativas, a vida se fragmenta. As juventudes, imersas em um mundo saturado de estímulos, nos mostram a urgência de reconstruir experiências que permitam significar a vida. O batismo, enquanto experiência simbólica fundante, pode, e precisa, voltar a ser esse lugar de reconfiguração do sentido. 

Diante disso, a interpelação das gramáticas juvenis se torna objetiva para uma renovada cultura vocacional, não basta multiplicar iniciativas, nem aprimorar estratégias de acompanhamento. É preciso uma retomada mais radical: a recuperação do ethos batismal como forma de vida compartilhada. Trata-se de reencontrar o lugar comum onde todos são chamados, o espaço onde a vocação não é exceção, mas modo de existir; onde a Igreja não é apenas instituição, mas comunidade de iniciados em um mesmo modo de viver; onde o acompanhamento não é técnica, mas mediação de uma experiência originária. 

Talvez seja justamente aqui que se decide o futuro da cultura vocacional. Não na elaboração de novos discursos, mas na capacidade de gerar experiências nas quais a vida possa ser reconhecida como chamada. Talvez estejamos diante de uma crise de iniciação, mais do que de vocação propriamente dita. Isto é, não uma dificuldade de escolha ou de acompanhamento em si, mas uma fragilidade nos modos de introdução a uma experiência que dê espessura à fé e consistência ao viver. Nesse horizonte, a animação e o acompanhamento vocacional são desafiados a se repensarem não apenas como mediações de discernimento, mas como espaços que favoreçam processos reais de inserção em uma experiência vivida, onde o sujeito possa aprender, progressivamente, a reconhecer-se implicado em uma história, em uma comunidade e em um modo de existir que o ultrapassa.  

A interpelação das juventudes parece apontar justamente para isso, sem uma vivência que articule corpo, tempo, linguagem e relação, a fé permanece exterior, e a vocação, abstrata. Retomar a dimensão mistagógica, portanto, não é um complemento, mas condição para que a experiência cristã se torne, de fato, habitável. As juventudes, com sua sensibilidade e sua inquietação, já apontam esse caminho. Cabe agora escutá-las até o fim, e reconhecer que aquilo que elas nos pedem é, ao mesmo tempo, profundamente novo e radicalmente originário: viver como quem foi chamado desde o princípio. 

Referências 

ATLAS DAS JUVENTUDES. Disponível em: < https://atlasdasjuventudes.com.br/wp-content/uploads/2021/11/ATLAS-DAS-JUVENTUDES-2021-COMPLETO.pdf>. Acesso em 22 abr. 2026. 

BENTO XVI. Deus caritas est. Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). São Paulo: Paulinas, 2006. 

BERGER, Peter; BERGER, Brigitte [1975]. Socialização: como ser um membro da sociedade. In: FORACCI, Marialice; MARTINS, José (org.). Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977. 

BENJAMIN, Walter. Sobre alguns temas em Baudelaire. In: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Carlos Martins Barbosa; Hemerson Alves Baptista. 3. v. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 103-149. 

CHAUVET, Louis-Marie. Símbolo e sacramento: uma releitura sacramental da existência cristã. Tradução de Luiz João Gaio. São Paulo: Paulinas, 2001. 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Texto- Base do 5º Congresso Vocacional do Brasil – comunidades vocacionais: encontro, testemunho e missão. Brasília: CNBB, 2025. 

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. Trad. Carlos Maria Vásquez Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001. 

HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Trad. Daniel Guilhermino. Petrópolis: Vozes, 2023. 

FRANCISCO. Christus Vivit. Brasília: CNBB, 2019.  

FRANCISCO. Dilexit nos. Brasília: CNBB, 2024.  

FRANCISCO. Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013. 

TABORDA, Francisco. O memorial da Páscoa do Senhor: ensaios litúrgico-teológicos sobre a eucaristia. São Paulo: Loyola, 2009. 

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