Pedagogias missionárias para as juventudes 

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Dom Esmeraldo Barreto de Farias

 Frei Jeferson Felipe da Cruz

OSA Iracy Ferreira dos Santos Júnior 

A missão é o paradigma da vida da Igreja. Não se reduz a programas e atividades, mas se distingue como a “natureza” e a essência mesma do ser cristão. Partindo dessa constatação, quando falamos de pedagogias missionárias, evocamos as possíveis ferramentas e os elementos indispensáveis que devem compor os processos de formação das juventudes em vista de desenvolver essa consciência paradigmática da missão.  

Antes de tudo, é importante ter em mente que todo projeto pedagógico, independentemente de sua orientação teórica, expressa sempre uma intenção formativa e, consequentemente, a construção de um determinado perfil de sujeito. Como lembra Paulo Freire, “toda prática educativa implica uma concepção de sujeito e de mundo”. Assim, ao selecionar conteúdos, métodos, valores e formas de convivência, o projeto pedagógico define, explícita ou implicitamente, o tipo de ser humano que deseja formar.  

Quando pensamos na formação cristã das juventudes, precisamos definir de antemão qual perfil de jovens cristãos desejamos promover. Esse perfil, por sua vez, depende intrinsecamente da eclesiologia que o sustém. Se a Igreja se compreende como conservação de estruturas do passado, memória que não gera vida, inimiga do mundo e alheia aos dramas da humanidade, o perfil de juventudes que se visará desenvolver é aquele pautado em utopias retrospectivas. Se, ao contrário, a Igreja se compreende como sacramento da salvação para todos os povos, sinal e serva do Reino de Deus, companheira da humanidade em suas alegrias e tristezas, angústias e esperanças, o perfil de jovens que se procurará desenvolver e maturar é, obviamente, aquele mais conforme ao Evangelho e ao jeito de Jesus de Nazaré.  

Pelo que temos buscado demonstrar, o perfil cristão necessário e adequado aos “sinais dos tempos” é o do Discípulo Missionário. O Concílio Vaticano II, com sua agenda de aggiornamento, a Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Aparecida e o magistério do saudoso Papa Francisco não deixam dúvidas: a Igreja, se não é missionária, deixa de ser a Igreja de Jesus. A consequência desta constatação é, portanto, a urgente necessidade da assunção do discipulado missionário como estilo de vida cristã. É seguindo esta lógica que arriscamos falar de pedagogias missionárias para as juventudes.  

O desenvolvimento do sujeito sob a perspectiva da religiosidade 

Antes de sinalizar os elementos e as possíveis ferramentas para um projeto de formação em perspectiva missionária, é importante atentar para o arco de desenvolvimento do sujeito sob a perspectiva da religiosidade. Afinal, a maior parte das juventudes presentes nas comunidades eclesiais entende a vida cristã como uma genuína experiência religiosa; como fruto do encontro com uma Pessoa; como uma experiência que, de uma forma ou de outra, dá sentido e significado à sua existência. Nesse aspecto, compreender o fluxo de desenvolvimento sob a perspectiva da religiosidade é um passo indispensável quando se pensa em pedagogias missionárias.  

De acordo com James W. Fowler, em sua teoria dos “Estágios do Desenvolvimento da Fé” (Estágios da Fé: a Psicologia do Desenvolvimento Humano e a Busca de Sentido, 1992), o sujeito passa por sete estágios de desenvolvimento distintos entre si e processados de forma sequencial, crescente e acumulativa. O primeiro estágio é o da Fé Indiferenciada. A valorização e o cuidado recebidos na primeira infância tornam-se base para formar ou não uma concepção de Deus em quem pode ou não confiar. 

O segundo estágio é o da Fé Intuitivo-Projetiva. Neste estágio impera a imitação de ações e gestos. Nesta fase a afetividade predomina em detrimento da razão. Deus é apenas imaginário, de forma antropomórfica e mágica. O terceiro estágio, por sua vez, é o da Fé Mítico-Literal. Aqui começa-se a questionar as imagens trazidas do estágio anterior e a desenvolver minimamente o sentimento de pertença a uma coletividade.  

O quarto estágio é o da Fé Sintético-Convencional. A experiência de mundo do sujeito se amplia e, ultrapassando os limites familiares, integra outras esferas de relação como a escola, grupo de colegas, a mídia, a comunidade eclesial, entre outras. Neste estágio, o mais longo em termos cronológicos, a religião sintetiza valores e informações e, por consequência, fornece uma base para a identidade e a subjetividade.  

O quinto estágio é o da Fé Individuativa-Reflexiva e acontece, segundo Fowler, a partir da idade adulta. No entanto, muitos adultos não o constroem, já que o autor explicita simultaneamente uma relação profundamente equilibrada entre o individual e o comunitário. O sexto estágio é o da Fé Conjuntiva. Nele o sujeito começa a rever as imagens do seu eu e depara-se com o desafio de ampliar a própria vida e a própria consciência de si e do mundo, sem esquecer o passado, sem ficar preso no presente, mas projetando-se para o futuro. Neste estágio, as crises e os dramas próprios da existência são iluminados pela experiência religiosa e conduzem à maturidade.  

O sétimo e último estágio é o da Fé Universalizante. Nele, o sujeito se entrega à transformação de si e da realidade à sua volta. Desde uma perspectiva da fé, deixa-se mover pelo amor e engaja-se na luta pela justiça, afrontando conceitos limitados e reducionistas, passando de uma religião intimista e egóica a uma vivência religiosa místico-transformadora.  

A consciência desses estágios, como dissemos anteriormente, é indispensável se quisermos desenvolver pedagogias missionárias eficientes. Além disso, ter clareza dos estágios de desenvolvimento religioso das juventudes aponta para outro elemento sumamente importante: a consideração dos sujeitos implicados nos processos pedagógicos. Respeitar a faixa etária, os territórios e os contextos nos quais os jovens estão inseridos é condição sine qua non para o desenvolvimento de uma pedagogia missionária ao estilo de Jesus de Nazaré.   

Elementos indispensáveis de uma pedagogia missionária. 

Elementos diversos compõem um projeto pedagógico. No caso da pedagogia missionária gostaríamos de destacar dois que julgamos indispensáveis: a) a Iniciação à vida cristã como evangelização e b) a espiritualidade como seguimento a Jesus. 

  1. Iniciação à vida cristã: evangelização ou simples catequese? 

Se o perfil cristão que almejamos desenvolver e amadurecer é o de Discípulos Missionários, o primeiro elemento que precisamos considerar em um projeto pedagógico missionário é a Iniciação à vida cristã. Embora o termo sugira uma “iniciação”, no sentido de introduzir alguém na vivência cristã, para que, pouco a pouco, desenvolva o jeito de ser cristão, a Iniciação à vida cristã em boa parte das paróquias e comunidades é compreendida, quase sempre, em vista da preparação para recepção dos Sacramentos. Essa prática confunde a Iniciação à vida cristã com a simples catequese e nem sempre se traduz como evangelização autêntica.  

Na Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, o saudoso Papa Francisco dizia que a evangelização procura o crescimento do ser humano tendo em conta o projeto de Deus para cada pessoa. Isso é mais que a simples formação doutrinal. Trata-se de assumir e “cumprir” aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor: “amai-vos como Eu vos amei” (Jo 15, 12). A Iniciação à vida cristã está a serviço desse crescimento, por isso não pode ser resumida à preparação sacramental. Ao contrário, deve ter como centro propulsor o querigma e deve entender-se como uma iniciação mistagógica que significa essencialmente duas coisas: a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos (cf. EG, 160-175).  

Aqui ganha especial relevância a figura e o papel dos acompanhadores das juventudes. Eles devem se portar como verdadeiros mistagogos, não como quem “explica coisas”, mas como alguém que ajuda, como alguém que colabora introduzindo progressivamente os jovens no sentido profundo da vida cristã, ajudando-os a reconhecer, viver e interpretar a experiência de Deus. E devem fazer isso não a partir de fora ou de referenciais teóricos simplesmente, mas a partir da sua experiência pessoal. Uma vez que eles já fizeram o caminho podem, agora, ajudar outros jovens a percorrer a mesma estrada, sempre com os olhos fixos em Jesus e no Evangelho.  

Fazer o encontro com Jesus, voltar ao Evangelho e partir sempre do Evangelho é a lógica de uma genuína Iniciação à vida cristã. Tudo o mais deve ser decorrente dessa fonte inesgotável. Nada pode substitui-la. Nada é mais importe do que ela. Porque a Iniciação à vida cristã deve ser, efetivamente, um processo de aproximação, encantamento e configuração com Jesus de Nazaré. Em outras palavras, deve se tornar um processo de genuína espiritualidade, que desemboque no seguimento a Jesus. Só assim que, de fato, alcançaremos a estatura de cristãos discípulos missionários.  

  1. Espiritualidade como Seguimento a Jesus de Nazaré 

De acordo com Valdir José de Castro, na raiz de toda espiritualidade existe sempre determinada experiência do Absoluto, vivenciada por pessoas concretas. Neste sentido, podemos falar de espiritualidade cristã, judaica, budista, hinduísta etc. Quando falamos de espiritualidade “cristã”, nos referimos à experiência do Absoluto à luz do Deus revelado por meio das palavras e das ações de Jesus de Nazaré.   

O teólogo Gustavo Gutiérrez sintetiza a espiritualidade cristã como “um modo de ser cristão”. Ser cristão é ter Jesus Cristo como referência para a vida. Essa afirmação, porém, leva a uma importante indagação: quem é Jesus para nós? Se para determinado cristão Jesus é reduzido a um ser divino, que mora nas alturas, sem se preocupar com os problemas da humanidade, a consequência será uma espiritualidade desencarnada. Se Jesus Cristo, no qual se acredita, é o Jesus humano e divino dos evangelhos, inserido nas tramas da história e comprometido com a transformação da sociedade, então a consequência será uma espiritualidade vivida concretamente na realidade histórica. A espiritualidade cristã autêntica é aquela que leva ao encontro de Jesus na sua integralidade. Como diz João, ‘fala da parte de Deus todo aquele que reconhece que Jesus Cristo se encarnou’ (1Jo 4,2)… ‘Quem diz que está com Deus deve comportar-se como Jesus se comportou’ (1Jo 2,6)”  

(Espiritualidade Cristã: mística da realização humana, p.18). 

Assim, a espiritualidade cristã significa viver no e a partir do Espírito de Jesus. Deixar-se guiar pelo Espírito que O ungiu, incluindo no nosso projeto de vida o projeto e as causas de Jesus de Nazaré. Esse processo, por sua vez, desenrola-se na dinâmica do seguimento discipular. É preciso aproximar-se de Jesus, encantar-se com seu projeto e aprender dele como viver e fazer a vontade do Pai.  

Ora, o seguimento discipular é o que caracteriza e define a espiritualidade cristã, tal como reconhecida nos evangelhos (Mt 16, 24; Lc 9, 23; Mc 8, 34). Em última instância, a espiritualidade é uma maneira concreta de viver a fé em Jesus; é uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o evangelho. “Maneira precisa de viver ‘diante do Senhor’ em solidariedade com todos os homens, ‘com o Senhor’ e diante dos homens” (Gutierrez, Gustavo. Teologia da Libertação. p. 172). 

O seguimento de Jesus é a forma mais importante de explicitar a identidade cristã. Nele está a característica que qualifica essencialmente toda a espiritualidade cristã como verdadeiramente cristã. E em virtude disto a pedagogia missionária deve orientar-se sempre pelo itinerário de Jesus, por sua prática.  

Em linhas gerais, poderíamos resumir o itinerário prático de Jesus considerando três aspectos: 1) Jesus é um pobre totalmente aberto ao Pai e inabitado pelo Espírito (cf. Lc 4, 18-21). A correlação desses dois elementos – pobreza e Espírito – faz com que o anúncio e a realização do Reino se demonstrem pela implicação de duas dimensões essenciais: a transformação do mundo e adoção de um novo estilo de vida movido pela lei do Espírito inscrita no coração; 2) Jesus não elaborou, nem formulou um “corpus theologicus”. A teologia de Jesus era a teologia da sua prática. (cf. Mt 1, 23); 3) Jesus chama ao seguimento. Seus ensinamentos não são teorias livrescas, mas uma mensagem clara sobre a proximidade do Reino de Deus (cf. Mc 1, 16-20; Mt 28, 19-20), o que implica perseguições. Seguir significa tomar parte ativa no destino inseguro e até perigoso de Jesus. Seguimento e discipulado se orientam, então, para a participação na tarefa e na meta única de Jesus: o reinado de Deus (cf. MÚGICA, 1986, p. 34-35). 

Dispostos esses elementos indispensáveis para uma pedagogia missionária, concentremos nossa atenção, agora, em uma ferramenta concreta que materializa uma pedagogia missionária: as Experiências Missionárias.  

Experiências Missionárias: um processo pedagógico 

De antemão, para se ter uma compreensão mais ampla do processo histórico e do que significam as “Experiências Missionárias com Seminaristas”, trabalho desenvolvido e animado por Dom Esmeraldo no contexto da Igreja do Brasil, sugerimos a leitura do nosso livro Experiências Missionárias com Seminaristas: caminhos para uma formação presbiteral em chave missionária, publicado pelas Edições CNBB, em 2024. Mas a rigor, essas Experiências servem apenas para os seminaristas, que aliás também são jovens? Não. Elas foram desenvolvidas pensando uma metodologia que envolve a participação de toda a comunidade, pois têm como um de seus objetivos justamente animar, em chave missionária, a caminhada pastoral da paróquia, reforçando a compreensão de uma iniciação à vida cristã autêntica e estimulando a vivência de uma espiritualidade missionária e de comunhão. Nosso intuito aqui dar ênfase mais à metodologia e aos objetivos, recolhendo os testemunhos do bem que elas fazem à Igreja do Brasil, especialmente às juventudes. 

As experiências missionárias nascem de uma intuição inquietante do Espírito face às considerações que a Igreja pedia acerca da formação dos ministros ordenados e leigos, como um processo iluminado pela fé onde o Espírito Santo trabalha para nos ajudar a descobrir os sinais de Deus, a rever nossas contradições e a buscar nossa conversão pessoal e pastoral. Elas possibilitam a inserção dos seminaristas e jovens leigos nas realidades, escutando as pessoas; fazendo-se próximos dos doentes, dos mais pobres e vulneráveis; conhecendo as dificuldades cotidianas pelas quais passam as comunidades eclesiais; proporcionando também que eles percebam os sinais de Deus naquela realidade e em sua própria vida; favorecendo o discernimento para aqueles que se sentem chamados à vida ministerial, que supõe assumir o mesmo estilo de vida e missão de Jesus. Inspiradas também pelos anseios do Vaticano II, pelo caminho latino-americano e pela insistência do Papa Francisco numa Igreja em saída, essas experiências foram se tornando espaços de encontro entre Palavra e Vida, nos quais a missão é refletida, assumida e vivida como eixo estruturante da caminhada da Igreja, promovendo deslocamentos interiores, conversões, mudança de mentalidades e práticas.  

A metodologia dessas experiências revela claramente seu caráter pedagógico e se baseia no método da ação católica: ver, iluminar e agir. Com duração de três a quatro semanas, as Experiências Missionárias se organizam como processos formativos integrados e contínuos, geralmente estruturados em três momentos: preparação, execução e avaliação, etapas que incluem aprendizado da realidade, visitas missionárias, encontros com a comunidade, um momento de retiro, meditação da Palavra, e levantamento de propostas para serem retomadas no processo de formação durante todo ano. Após escolhido o lugar para a realização da experiência missionária, normalmente uma paróquia ou um setor pastoral, passa-se à etapa da preparação. A preparação consiste em ver a realidade eclesial e social desse lugar. A pedagogia utilizada inverte a lógica do missionário como detentor do saber, porque quem é enviado para viver esse momento deve, primeiramente, aprender a enxergar os desafios da realidade, a ver e escutar os testemunhos dos missionários residentes, num processo de intercâmbio de saberes e vivências, envolve também escuta das lideranças, estudo da Palavra, oração. Esse momento é decisivo para educar o olhar e o coração missionário, ajudando os missionários visitantes a reconhecerem que não vão “levar” algo pronto, mas se colocar em atitude de aprendizagem diante da vida do povo.  

A etapa das visitas, constitui o núcleo das experiências missionárias e se realiza a partir do envio de pequenos grupos formados pelos missionários visitantes, acompanhados por jovens e pessoas das próprias comunidades e, quando possível, por padres, que colaboram tanto na celebração dos sacramentos quanto no acompanhamento formativo e na avaliação do processo. As visitas seguem um roteiro próprio que envolve a todos: os missionários se apresentam de maneira simples, explicam o sentido da presença e da visita, saúdam os moradores com atenção aos nomes e iniciam a conversa a partir da vida cotidiana, escutando desafios, dores e esperanças. Esse clima de escuta prepara o momento da partilha da Palavra, que inclui a invocação da Trindade, a leitura do Evangelho, uma breve reflexão dialogada, preces espontâneas, a bênção da casa e o abraço da paz, concluindo com o Pai-Nosso e o convite à participação na vida comunitária.  

As visitas não se orientam por metas quantitativas, mas por encontros personalizados, realizados ao longo de vários dias em cada comunidade, adaptando-se à realidade local. Nelas, os missionários são chamados não a oferecer respostas prontas, mas a acompanhar as pessoas com proximidade, sensibilidade e abertura, reconhecendo sinais de Deus na vida das famílias e vivendo a missão como presença solidária, fraterna e gratuita. Um fruto particularmente significativo dessa pedagogia missionária é o fortalecimento do sentimento de pertença à Igreja local, especialmente à diocese. Ao se inserirem nas comunidades concretas, os participantes passam a conhecer o território, as pessoas, as fragilidades e as riquezas da Igreja particular. A diocese deixa de ser apenas uma circunscrição administrativa e passa a ser percebida como corpo vivo, feito de rostos, histórias e relações. Essa pertença tem uma dimensão profundamente espiritual e existencial: nasce da partilha da vida, da proximidade com o povo e da descoberta de que a missão se realiza sempre em comunhão. Para os jovens, essa experiência é decisiva, pois contribui para superar uma vivência fragmentada ou individualista da fé, favorecendo uma espiritualidade eclesial encarnada, de comunhão, marcada pela acolhida, escuta, corresponsabilidade, gratuidade e pelo serviço. Aprende-se, assim, que a missão não é projeto pessoal, mas construção de uma identidade coletiva e compartilhada nomeada de Povo de Deus. 

A avaliação constitui um momento imprescindível das experiências missionárias, pois permite realizar sínteses, bem como partilhar testemunhos e experiências vividas. Realizada ao final da experiência missionária, ela reúne, por dois dias, todos os envolvidos, encerrando com a celebração eucarística e um retiro. A avaliação se desenvolve em duas etapas complementares: pessoal e conjunta. A avaliação pessoal retoma a caminhada a partir de um roteiro de perguntas que ajudam a refletir sobre os sentimentos experimentados, as ressonâncias da vivência missionária, os questionamentos e esperanças que emergem para o discernimento vocacional, as dificuldades encontradas e o alcance dos objetivos inicialmente propostos. A avaliação conjunta destaca os sinais da presença de Deus nas comunidades visitadas e analisa seus contextos sociais, econômicos, políticos e religiosos, além de avaliar a organização, a preparação, o conteúdo e a metodologia das experiências. Por fim, na plenária de avaliação, recolhem-se sugestões para o aprimoramento das próximas experiências, sistematizando-as à luz da Palavra de Deus, num exercício que ajuda a integrar fé e vida, Evangelho e compromisso como fundamento do processo formativo missionário. 

Nesse horizonte, as experiências missionárias são um verdadeiro processo mistagógico, e colaboram para o processo de gestação de uma vocação missionária. Elas introduzem progressivamente os missionários no mistério da fé vivida na experiência dos encontros cotidianos. A missão torna-se oportunidade para viver melhor a iniciação cristã: a escuta atenta da Palavra de Deus, a leitura da realidade, o discernimento comunitário e a prática concreta da caridade. Ela possui uma pedagogia que conduz do encontro com Jesus à conversão (interioridade), da conversão à maturidade eclesial e, a partir disso, ao discipulado e compromisso (exterioridade), ajudando a integrar contemplação e ação, espiritualidade e vivência comunitária. Nesse processo, os jovens são convidados a reconhecer que a missão não é algo exterior à sua vida, mas um caminho no qual sua própria existência vai sendo configurada ao estilo de Jesus de Nazaré.  

Conforme sinalizamos no início, todo projeto pedagógico visa desenvolver certo perfil de sujeito. No caso da pedagogia que embasa as Experiências Missionárias, o perfil que se busca promover e maturar é o do discípulo missionário. A oferta dessas experiências para as juventudes revela-se, portanto, uma opção privilegiada para o desenvolvimento da consciência e da vivência cristã a partir do paradigma da Missão.  

Referências 

CASTRO, Valdir José de. Espiritualidade Cristã: mística da realização humana. São Paulo: Paulus, 2008.  

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 

FOWLER, James W. Estágios da Fé: a Psicologia do Desenvolvimento Humano e a Busca de Sentido. São Leopoldo: Sinodal, 1992.  

GUTIERREZ, Gustavo. Teologia da Libertação. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1985. 

MÚGICA, Guillermo. O método teológico uma questão de espiritualidade. In: Vida e reflexão: contributo da teologia da libertação ao pensamento teológico. São Paulo: Paulinas, 1986. 

Farias, Dom Esmeraldo Barreto de; et al (Orgs). Experiências missionárias: caminhos para uma formação presbiteral em chave missionária. Brasília: Edições CNBB, 2024. 

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