Estudos I (Autobiografia 73).

Escrito por Pe. Felipe Soriano

Os estudos apareceram no caminho de Inácio como uma urgência para realizar a missão. O vivido em Salamanca com a inquisição espanhola foi um divisor de águas em sua vida, pois sem estudos não era possível tratar assuntos espirituais com os outros. Depois de vinte e dois dias de prisão em Salamanca, ao ouvir a sentença do tribunal eclesiástico que nada encontrou que desabone a primeira redação do livro dos Exercícios Espirituais, Inácio delibera em tudo acatar da sentença, aceitando dedicar quatro anos aos estudos (Au. 70). Decidiu cumprir a sentença plenamente, não tratando com ninguém assuntos espirituais enquanto estivesse na jurisdição eclesiástica de Salamanca, como havia pedido seus superiores.

Alguns amigos insistiram para que ele não fosse para Paris por causa dos horrores de guerras entre espanhóis e franceses. Depois de uns quinze dias, ao constatar que nada mudava o seu ânimo, com um burrinho e alguns livros, decide seguir para Paris, passando antes por Barcelona onde possuía alguns amigos. Sua decisão de ir à Paris segue em conformidade à recomendação recebida pelo tribunal eclesiástico. Como relata P. Polanco, mesmo sem falar francês, tinha por certo que na Universidade encontraria gente disponível para que a Deus pudesse servir tratando assuntos espirituais. Portanto, estudar primeiro e, em seguida, reunir alguns com o mesmo propósito de ajudar as almas.

“A persistência de Inácio aponta a forma como ele acolhia as mediações que Deus colocava em seu caminho. Se é necessário estudar, que seja onde possa encontrar os melhores”.

Para sanar algumas dificuldades em seus estudos básicos, instala-se numa casa onde alguns de seu país iam estudar humanidades. Ele mesmo revela a causa de precisar estar novamente nas primeiras classes, por o terem feito passar adiante nos estudos com muita pressa quando jovem. Inácio, mesmo em tenra idade, senta-se junto aos meninos, para aperfeiçoar sua gramática e poesia antes de entrar no curso de artes e filosofia na Universidade. Aqui, como registra P. Polanco, Inácio repetiu todos os estudos de humanidades durante os anos de 1528-1529, porque lhe desgostava tudo o que não fosse bem-feito. 

“Por causa deste fato, na formação dos membros da Companhia de Jesus, ainda hoje, há uma etapa anterior à Filosofia que se recolhe essas necessidades para uma maior maestria (Juniorado)”.

Como registra P. Ribadeneira, um dos primeiros padres da Companhia, Inácio cultivava a dúvida se depois dos estudos tomaria um hábito dos religiosos. Quando pensava nele considerava procurar uma congregação que pudesse entrar já mais afastada de suas regras, pois, lhe parecia, por uma parte, que talvez Nosso Senhor seria servido se aquela congregação fosse reformada com o seu trabalho e exemplo. E, por outra parte, nela teria ocasião de padecer e sofrer as muitas contradições e perseguições que lhe adviriam por parte dos que estavam acomodados pelo nome que tinham e o hábito que usavam. A sua resolução veio quando ainda estava na prisão em Salamanca, pois muito se inclinou seu coração a buscar e reunir companheiros para empenhar-se completamente na ajuda espiritual ao próximo (Ribardeneira, 2021, p. 83).

Inácio foi muito ajudado por um amigo de Barcelona que concedeu os primeiros valores garantindo-lhe alimentação e pousada para iniciar os estudos em Paris. Todavia, como esses recursos vieram logo a faltar, percebeu que não conseguiria se manter neste lugar. Passando a Quaresma, percebendo que quase nada restava do recurso que tinha, deixa a casa onde estava e passa a mendigar para se sustentar. Não havendo outro lugar para ficar, decide prestar pequenos serviços e se abrigar no hospital de Santiago. Inácio, para perseguir nos estudos, que é serviço às almas no caminho da fé, decide que em tudo o mais desejará e escolherá apenas o que mais ajude e conduza a este fim (Cf. EE 23).

Estudar é um ofício que exige tempo, meios e recursos, pois saber escolher o que toca buscar é um desafio para aqueles que trilham o caminho do Magis. Muitos jovens hoje encontram grandes dificuldades para seguir nos estudos, pois o que diferencia Inácio não são os desafios, mas, sim, suas motivações. Reconhecer as etapas de uma construção é saber discernir, evitando as armadilhas do ego e o medo que paralisa. Aprender a viver da providência e se confiar nela é o que nos ensina o testemunho da Viúva de Sarepta, pois, mesmo em grande penúria de seca e fome, nem o azeite e nem a farinha diminuíram enquanto o profeta Elias estava na casa.

Texto bíblico 1 Rs 17,9-16

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