Reflexão aborda as diferentes formas de violência que atingem as juventudes e destaca a urgência de promover ambientes seguros, acolhedores e comprometidos com o cuidado e a proteção da vida
Giovani do Carmo Júnior
Olá, cara leitora e caro leitor, quero te convidar para podermos tratar este mês de um tema de extrema relevância para o acompanhamento das juventudes na contemporaneidade: juventudes e violências. Outubro é, para a Igreja Católica, um tempo privilegiado para refletir sobre a missão revelada por Deus Pai pela força do Espírito Santo em Jesus de Nazaré. O mês missionário e da evangelização nos recorda o chamado a anunciar concretamente o Reino de Deus. O Evangelho é sempre uma pergunta provocadora de inquietude que nos desinstala em vista da conversão pessoal e comunitária estrutural.
Por isso, uma pergunta fundamental ecoa na contemporaneidade para a evangelização das adolescências e juventudes: como e quais vidas estamos ajudando a proteger, promover e fazer florescer? Como as comunidades cristãs católicas, a catequese, as pastorais, os grupos e os movimentos se tornam lugares socioespaciais onde adolescentes e jovens possam encontrar condições concretas para construir seus projetos de vida, experimentar relações saudáveis e alimentar horizontes de esperança?
Um caminho eclesial
Nas últimas décadas, a Igreja tem sido chamada a aprofundar a sua compreensão sobre o cuidado e a proteção das pessoas mais vulneráveis voltando o tema para o seu interior. A defesa em ambiente social e econômico é fundamental ao Evangelho desde Jesus de Nazaré, mas parece ser algo novo que a Igreja, comunidade dos batizados, refletia sobre a sua constituição socio-eclesial das relações. O Documento Final Para Uma Igreja Sinodal: comunhão, participação, missão afirma:
Muitos males que afligem o nosso mundo manifestam-se também na Igreja. A crise dos abusos, nas suas diversas e trágicas manifestações, trouxe sofrimentos indescritíveis e muitas vezes duradouros às vítimas e aos sobreviventes, bem como às suas comunidades. A Igreja deve escutar com particular atenção e sensibilidade a voz das vítimas e dos sobreviventes aos abusos sexuais, espirituais, económicos, institucionais, de poder e de consciência por parte de membros do clero ou de pessoas com cargos eclesiais. A escuta autêntica é um elemento fundamental do caminho para a cura, o arrependimento, a justiça e a reconciliação (n. 55).
Há uma crescente conscientização sobre as diferentes formas de violência que atingem crianças, adolescentes, jovens e adultos vulneráveis em ambientes sociais e eclesiais. Os abusos deixaram de serem tratados como fatos isolados e individualizantes das vítimas e dos agressores, para serem compreendidos como um fenômeno de natureza complexa, sistêmica e estrutural. No contexto brasileiro, essa reflexão ganha novo impulso a partir do caminho preparatório da Campanha da Fraternidade de 2027 cujo tema é “Fraternidade e cuidado das crianças”, bem como dos diversos processos formativos que vêm sendo desenvolvidos por instituições e organismos eclesiais comprometidos com a promoção de ambientes seguros.
A Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, em parceria com diferentes organismos da Igreja, desenvolve essa reflexão por meio de itinerários formativos sobre cuidado e proteção. Nesse sentido, neste segundo semestre de 2026 a Rede está promovendo um itinerário formativo sobre o ECA Digital e à prevenção das violências em ambientes pastorais em parceria com o Núcleo Lux Mundi (CRB/CNBB) e o Instituto São Paulo de Estudos Superiores em parceria com a Campanha da Fraternidade, a Comissão Episcopal Bíblico Catequética, Comissão Episcopal para Liturgia, Comissão Episcopal para Juventude, Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação, Grupo de Reflexão em Comunicação (GRECOM), Setor Juventude e Vocações e Novas Gerações da Conferência dos Religiosos do Brasil, Associação dos Liturgistas do Brasil, SEPAC Paulinas, Centro Marista de Defesa da Infância, Associação Nacional de Educação Católica (ANEC), Cáritas Brasileira Regional Santa Catarina, Congregação de Jesus, e PASCOM Brasil. Soma-se a esse processo a elaboração e publicação das Diretrizes e Protocolos de Cuidado e Proteção da Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, fruto de um caminho que reconhece a necessidade de fortalecer práticas institucionais voltadas à promoção da dignidade das juventudes.
Entretanto, antes de discutir protocolos, denúncias ou mecanismos de prevenção, é necessário enfrentar uma questão mais profunda: o que significa dizer que adolescentes e jovens são vulneráveis? Ao olharmos para o Motu Proprio Vos estis Lux Mundi publicado pelo Papa Francisco (versão final em 2023) e as demais legislações canônicas e protocolos advindos deste marco eclesial, percebemos que os jovens-adolescentes (15 a 17 anos) são enquadrados de maneira específica, mas os jovens de 18 a 29 anos são colocados dentro da categoria de adultos vulneráveis. Frequentemente, a vulnerabilidade aparece como uma categoria jurídica ou administrativa utilizada para identificar pessoas que demandam proteção especial como é o caso das pessoas com deficiência ou de neurodivergência. Em contexto canônico, nomeia pessoas incapazes de fazer uso da razão devido à idade ou deficiência. Embora essa compreensão seja importante, ela se mostra insuficiente para compreender a complexidade da experiência das juventudes contemporâneas.
A vulnerabilidade, como refletiremos no texto da próxima semana, não deve ser entendida somente como uma característica individual ou uma condição de natureza simplesmente biológica de determinados sujeitos. Todos os seres humanos são vulneráveis porque dependem de relações, instituições e comunidades para viver. Contudo, algumas pessoas e grupos tornam-se mais expostos ao sofrimento, à exclusão e à violência em razão das condições sociais, econômicas, culturais, raciais, territoriais e institucionais que atravessam suas vidas. Por isso, mais do que falar apenas de vulnerabilidade, é necessário falar de processos de vulnerabilização.
Juventudes e vulnerabilização
Esta semana quero iniciar nosso diálogo tratando justamente de podermos colocar em discurso de maneira que possamos iniciar nossa conversa desnaturalizando as violências sofridas pelas juventudes. Para tal, a distinção entre vulnerabilidade e vulnerabilização é fundamental. Enquanto a vulnerabilidade diz respeito à condição humana compartilhada, a vulnerabilização refere-se aos mecanismos sociais e institucionais que ampliam a exposição de determinados grupos à violência. As juventudes brasileiras vivem exatamente nessa encruzilhada ou numa expressão popular: entre a cruz e a espada.
Parece que podemos realmente enxergar processos de vulnerabilização das juventudes por contextos marcados pela desigualdade social, econômica, cultural, territorial; pelo racismo, pela discriminação de gênero, pela precarização do trabalho, pela ausência de oportunidades educacionais; e pela negligência das próprias instituições em que poderiam encontrar redes de apoio e proteção como é o caso da família, da escola e das comunidades religiosas. Por vezes, as violências ocorrem nesses espaços. Espaços que poderiam ser de vida e afeto, passam a ser verdadeiros infernos.
Os dados da violência contra adolescentes e jovens no Brasil revelam a gravidade desse cenário. O Atlas da Violência, elaborado a partir de bases oficiais como os registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde e de diferentes sistemas nacionais de notificação, demonstra que a violência contra jovens permanece como uma das mais graves expressões da desigualdade brasileira. Entre 2014 e 2024, mais de 300 mil jovens entre 15 e 29 anos tiveram suas vidas interrompidas por homicídios. Em 2024, aproximadamente 19.800 jovens foram assassinados. Isto é quase a metade de todas as vítimas de homicídio registradas pelos dados oficiais no Brasil, porque ainda temos muitas subnotificações.
A violência letal possui marcadores muito definidos. O decréscimo populacional de jovens do Censo de 2022 precisa ser analisado também cruzando os dados de morticínio das juventudes, especialmente das juventudes pretas. Porque trata-se de uma violência que atinge predominantemente homens jovens, negros e moradores das periferias urbanas. Não estamos diante de uma distribuição aleatória da violência. O que vemos é a expressão concreta de estruturas históricas de desigualdade: determinados grupos sociais morrem mais cedo e de forma mais violenta; uma certa parte da população parece estar mais suscetível à morte do que outras parcelas na posição diametralmente oposta dos marcadores sociais.
O Atlas também registra os dados referentes à violência não letal contra crianças, adolescentes e jovens. Tipifica essa violência mostrando o crescimento consistente e crescente de notificações relacionadas à negligência, violência psicológica, violência física e violência sexual. Em especial, chama a nossa atenção quando vemos os gráficos. Percebemos o aumento significativo das notificações de violência sexual nas diferentes faixas etárias, com forte concentração entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos.
Entre crianças de 0 a 4 anos, os registros passaram de 1.671, em 2014, para 7.845, em 2024, o que representa um crescimento superior a quatro vezes. Na faixa de 5 a 14 anos, o aumento foi de 6.594 para 29.135 notificações, aproximadamente 4,4 vezes maior. Já entre adolescentes de 15 a 19 anos, os casos cresceram de 1.632 para 6.869, aumento de mais de quatro vezes. Em 2024, a distribuição etária se configura assim: cerca de 66% dos casos concentram-se entre 5 e 14 anos, 18% entre 0 e 4 anos e 16% entre 15 e 19 anos.
Os dados apontam que a violência letal frequentemente representa o estágio extremo e/ou final de uma série de processos violentos vividos anteriormente. Antes do homicídio, há a negligência; antes da evasão ou exclusão escolar, há violência psicológica através do bullying; antes do adoecimento psíquico, há o silenciamento direto ou simbólico; antes da violência extrema, ocorrem outras formas de agressão que são naturalizadas nos ambientes de socialização.
Nesse contexto, o Atlas lança mão do conceito de polivitimização (polyvictimization) para compreender que as experiências de violência raramente acontecem isoladamente. Um jovem pode ser vítima de negligência familiar, violência psicológica, violência física, violência sexual, bullying, discriminação, violência institucional e violência digital ao longo de sua trajetória. Essas experiências se sobrepõem.
A criança negligenciada pode tornar-se a adolescente vítima de violência psicológica. O jovem submetido ao assédio ou à humilhação pode carregar consigo experiências anteriores de abuso. As violências formam camadas traumáticas que se sobrepõem e produzem impactos profundos no desenvolvimento socioemocional e espiritual dos sujeitos jovens.
Entre os elementos que dificultam o enfrentamento dessas situações está a subnotificação. Muitas violências permanecem invisíveis porque não chegam aos sistemas de proteção, às autoridades ou às próprias lideranças comunitárias. No caso da violência sexual, esse fenômeno é particularmente preocupante. A subnotificação está associada a uma série de fatores: medo, vergonha, culpa, dependência emocional, ameaças explícitas, receio de não ser acreditado e temor das consequências que a denúncia pode provocar.
Entre adolescentes e jovens do sexo biológico masculino, por exemplo, somam-se ainda as barreiras produzidas por determinadas concepções de masculinidade, que dificultam o reconhecimento de si mesmo como vítima e desencorajam a busca por ajuda. Ser homem consiste em enfrentar a dor e superá-la a qualquer custo. A dor é e deve ser vencida sem chorar, falar, espernear ou manifestar: “engole o choro, porque homem não chora” é a expressão que talvez mais se escute na infância.
A violência sexual, psicológica, espiritual, patrimonial dentre outras não é um processo fácil ou automático para “os sobreviventes”. Revelar uma agressão significa frequentemente revisitar experiências traumáticas, reorganizar memórias dolorosas e enfrentar os impactos que a denúncia pode provocar nas relações familiares, comunitárias no bairro ou na Igreja, e institucionais no ambiente de trabalho ou educacional. A denúncia não apaga o trauma. A fala não elimina a dor, pode aprofundá-la em um contexto em que não se encontra rede de apoio para ser acolhido, suportado e ajudado a elaborar. Muitas vezes, o processo de nomear a violência representa o início de um caminho longo e difícil de reconstrução da própria história. Há um sistema estrutural que sufoca e tampona, mas há também a dor real de pessoas violentadas cuja destruição interior pode nunca ser curada ou reparada integralmente.
Juventudes e violências em ambiente eclesial
Durante muito tempo, os ambientes religiosos foram pensados como espaços seguros. Talvez, por uma concepção atrelada a uma analogia. Espaços religiosos são espaços sagrados e o sagrado remete à segura. Logo, os espaços religiosos são espaços seguros. Se a violência pertencia ao homem, à sua profanação e à secularização, então a proteção de Deus como elemento sagrado de segurança era garantida em ambiente social pelos espaços sagrados e comunidades religiosas. É inegável que durante tempos de calamidade, epidemias, guerras e perseguições, as comunidades religiosas levantaram sua voz e meios concretos para protegerem a dignidade humana. Ressalto o livro recém-publicado Nunca Mais escrito por Camilo Vannucchi em que se narra o engajamento da Arquidiocese de São Paulo, por Dom Evaristo Arns, de religiosos e religiosas, do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e de irmãos e irmãs de diversas confissões cristãs na escrita do maior de livro de denúncias sobre a violência da Ditadura Militar, Brasil: nunca mais.
Embora de fato possam e devam ser lugares de acolhida, cuidado e formação integral, ao tratar do tema das violências, parecer ser necessário também perceber que, como mostrou o Sínodo, nenhuma instituição está imune à reprodução de dinâmicas de violência. Quando falamos em violências socio-eclesiais, estamos nos referindo não apenas aos casos de abuso sexual, embora estes sejam gravíssimos e exijam o devido tratamento, atenção e responsabilização. Estamos falando também de formas mais sutis de violência que podem se manifestar por meio da manipulação espiritual e psicológica, do autoritarismo, da invisibilização e silenciamento direto e indireto dos sujeitos juvenis, da exclusão dos processos decisórios e da negligência diante de denúncias ou pedidos de ajuda.
Em maio de 2026, uma Equipe de Pastoralistas e colaboradores voluntários dos Centros MAGIS da Rede Inaciana de Juventude participou do curso “Abuso de poder na vida religiosa” promovido pelo Núcleo Lux Mundi e ministrado pela Irmã Anna Maria Amarante. Durante o curso, após os momentos de exposição teórica, havia momentos de trabalho em grupos em que pudemos refletir sobre o abuso de poder a partir de uma perspectiva estrutural e sistêmica.
Durante os trabalhos em grupo, os membros da Rede Inaciana de Juventude, foram provocados a refletirem sobre as violências e abusos em ambiente eclesial a partir da perspectiva das juventudes. O primeiro movimento foi, de fato, muito interessante. Muitos se deram conta de que não haviam ainda refletido ou mesmo tratado sobre o que acontece com as juventudes voltando-se o foco para o ambiente eclesial. Ainda mais, lendo a experiência juvenil como realidade de violências sociais, culturais e econômicas sobrepostas e vividas intensamente no socio-espaço eclesial que também é sistêmico.
Nas rodas de diálogo e trabalho em grupo que tivemos, percebemos que as violências em ambientes eclesiais nem sempre se manifestam por meio de episódios explícitos ou facilmente identificáveis. Claro que estes fatos existem, mas podem ser o último momento de uma série de violências sofridas ininterruptamente e silenciadas. Inúmeras vezes as violências se estruturam no cotidiano das relações pastorais, comunitárias e formativas, sendo naturalizadas por práticas aparentemente legítimas ou justificadas em nome do evangelho, da missão, da autoridade ou do cuidado pastoral.
A ausência de processos construídos de forma participativa, a imposição de decisões sem diálogo, a confusão entre vida pessoal e função institucional e as relações marcadas por forte assimetria de poder entre lideranças e jovens criam contextos propícios para diferentes formas de abuso. Nesses cenários, o problema não está apenas nas ações individuais, ele é complexificado ao percebermos estruturas fragilmente definidas que favorecem as decisões monocráticas potencializado pela concentração de poder de lideranças leigas, religiosas e ordenadas. Papa Francisco chamou esse elemento de clericalismo, como sendo a visão elitista e excludente em que o ministério ordenado ou o liderar é compreendido como poder a ser exercido sobre os outros. Desnaturalizar a violência exige, portanto, compreender que os abusos e violências emergem de dinâmicas relacionais que tornam determinadas práticas aceitáveis, silenciosas e imperceptíveis.
Essa realidade torna-se particularmente evidente nos casos de abuso espiritual. Expressa-se quando a autonomia das pessoas é progressivamente transferida para figuras de autoridade dentro da comunidade, quando a vontade de Deus se confunde com a vontade do superior ou do acompanhador, ou ainda quando a experiência de fé é utilizada como instrumento de controle, culpabilização e exclusão. A fragmentação entre fé e vida, a construção de imagens de Deus marcadas pela vigilância, pelo medo e pela punição, o clericalismo, o machismo e o isolamento de pessoas ou grupos constituem elementos que alimentam sistemas de vulnerabilização. Em tais contextos, a violência decorre também de lógicas simbólicas e institucionais que conferem legitimidade ao exercício abusivo da autoridade. Quanto mais a função, o serviço ou o cargo são idealizados, mais difícil se torna reconhecer que quem exerce determinada autoridade também pode abusar de sua força e poder nas relações.
Entre as adolescências e juventudes, esses processos aparecem de diversas formas: na normalização de comportamentos abusivos, em brincadeiras humilhantes nos encontros e grupos, na exposição indevida de imagens e informações pessoais sem o devido tratamento segundo a legislação vigente, na dificuldade de denunciar lideranças e na culpabilização de vítimas quando situações de violência vêm à tona. O silenciamento, a impunidade e a ausência de protocolos claros de proteção contribuem para a perpetuação desses ciclos, enquanto estruturas adultocêntricas tendem a deslegitimar a palavra dos jovens e a minimizar suas experiências de sofrimento. As violências precisam ser vistas também a partir da perspectiva de sistemas e estruturas institucionais, simbólicas, sociais, culturais e econômicas que precisam ser reconhecidas, questionadas e transformadas.
Desnaturalizar as violências socio-eclesiais
Há um apelo sentido nessa realidade social e eclesial de extrema urgência: desnaturalizar a violência. Isso significa deslocar o foco para a centralidade das vítimas – dos sobreviventes – reconhecendo que o abuso é resultado de mecanismos estruturais, culturais e simbólicos reiterados ao longo do tempo (Magnifica Humanitas, n.89). A Igreja tem convidado a todos os batizados a refletirem que a contraposição a uma cultura contemporânea de violência passa pela resposta escutada de Jesus de Nazaré, que foi vítima de um sistema imperial e religioso pelo qual foi abusado, violentado e assassinado em uma cruz.
‘Torna-se evidente a tarefa de erradicar as formas de exercício da autoridade nas quais se entroncam aqueles [os diversos tipos de abuso], e de contrastar a falta de responsabilidade e transparência com que foram geridos muitos casos. O desejo de dominação, a falta de diálogo e transparência, as formas de vida dupla, o vazio espiritual, bem como as fragilidades psicológicas constituem o terreno onde prospera a corrupção’. O clericalismo é uma tentação permanente dos sacerdotes, que interpretam ‘o ministério recebido mais como um poder a ser exercido do que como um serviço gratuito e generoso a oferecer; e isto leva a julgar que se pertence a um grupo que possui todas as respostas e já não precisa de escutar e aprender mais nada’. Sem dúvida, o clericalismo expõe as pessoas consagradas ao risco de perderem o respeito pelo valor sagrado e inalienável de cada pessoa e da sua liberdade (Christus Vivit, n. 98).
Jesus de Nazaré convoca à construção de espaços seguros. Os socio-espaços eclesiais são promovidos por uma conversão pessoal e comunitária cujo centro é uma nova forma de compreender a organização da vida eclesial. Não mais a centralização, mas a sinodalidade, a criação de processos participativos e intergeracionais; a acolhida, a abertura e a valorização da diversidade das experiências juvenis; a escuta efetiva das juventudes como sujeitos de direitos e sujeitos da evangelização.
Proteger, assim, significa criar condições para que pessoas possam se desenvolverem plenamente e se constituírem sujeitos autônomos e livres. Um ambiente verdadeiramente seguro é aquele que permite aos jovens desenvolver suas capacidades, experimentar relações saudáveis, construir pertencimento comunitário, exercer sua participação social e eclesial e construírem seus projetos de vida. Este espaço não garante absolutamente e de maneira determinada que crescer em ambiente seguro causará o florescimento de pessoas livres, autônomas e comprometidas com o evangelho. Mas, quando adolescentes e jovens encontram espaços onde são respeitados, escutados e valorizados, as condições possibilitam a tornarem-se capazes de construírem projetos de vida consistentes e de enfrentar os desafios do presente sem perder a esperança no futuro.
Por essa razão, discutir vulnerabilidade significa reconhecer os obstáculos concretos que limitam suas possibilidades sociais, econômicas, culturais e eclesiais de viverem plenamente e assumirem o seu protagonismo na história individual e coletiva. A missão da Igreja, especialmente em tempos marcados por profundas desigualdades e múltiplas formas de violência, passa necessariamente por esse compromisso. Evangelizar, hoje, implica construir comunidades seguras. Implica reconhecer as feridas produzidas pela violência e criar caminhos de cuidado, escuta e reparação. Somente quando a proteção deixa de ser uma resposta ocasional e se torna uma cultura compartilhada é que os ambientes eclesiais conseguem cumprir plenamente sua vocação de anunciar o Reino de Deus: um Reino de justiça, reconciliação, cuidado e esperança, onde as juventudes possam não apenas sobreviver porque o projeto de Deus é a vida em abundância com dignidade garantida e promovida para sonhar e construir futuros possíveis.
Referências
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