Juventudes, relações e responsabilidades: política além das urnas 

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Entre tensões cotidianas e desejo de transformação, juventudes brasileiras enfrentam desafios complexos que moldam não apenas suas escolhas individuais, mas também sua participação na vida coletiva. Entre estudos, trabalho, pressões familiares e constantes estímulos digitais, muitos jovens sentem o peso do futuro

Guilherme Freitas

Dados do Observatório Nacional das Juventudes (ONJ, 2024) mostram que 18,5% dos jovens entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham, sendo que essa condição atinge 24,7% das mulheres. Esses números evidenciam desigualdades estruturais que atravessam a juventude brasileira, impactando oportunidades, engajamento e participação social. 

Desconfiança institucional e percepção de corrupção 

Apesar de 74% dos jovens entre 16 e 24 anos estarem inscritos para votar em 2022 (TSE, 2022), muitos percebem a política institucional como distante e marcada por corrupção. Estudos demonstram que essa desconfiança leva os jovens a buscar formas alternativas de engajamento, como participação em movimentos sociais, projetos comunitários e ações digitais (Barros & Martins, 2013; Rocha, Faeti & Ribeiro, 2022). 

A sensação de impotência frente a problemas complexos como desigualdades, violências, falta de oportunidades e entre outros, molda tanto a percepção quanto as escolhas de engajamento, tornando o cuidado com a vida comum uma responsabilidade que precisa ser exercida cotidianamente. 

Cultura digital e desafios da participação 

O cotidiano dos jovens se dá em grande parte no ambiente digital, que oferece oportunidades de mobilização, mas também pressiona por visibilidade e resultados imediatos. A Pesquisa TIC Domicílios 2024 indica que 68% dos adolescentes usam inteligência artificial para pesquisas escolares, 60% para buscar informações e apenas 12% para discutir questões pessoais ou emocionais; 84% manifestam preocupação com a segurança de seus dados, e 83% com conteúdos potencialmente prejudiciais. 

Como destacou o Papa Leão XIV: “Não apenas remendar o que foi partido, mas construir outras novas: redes de relações, redes de amor, redes de intercâmbio gratuito, na qual a amizade seja profunda… Redes que abram espaço para o outro, onde nenhuma bolha de filtros possa apagar a voz dos mais frágeis”. O desafio digital, portanto, não é apenas acessar informações, mas discernir, interpretar e agir de forma responsável, evitando respostas superficiais ou polarizadas. 

Engajamento cotidiano e cuidado com a vida comum 

A política se manifesta também nas pequenas ações do dia a dia. Cada gesto de cuidado, cada iniciativa local, cada participação em causas sociais ou defesa de minorias, incluindo populações LGBTQIA+, comunidades quilombolas, indígenas e mulheres , representa um exercício de corresponsabilidade e engajamento político concreto (Silva & Castro, 2015; Camargo, 2020). 

Esses atos conectam os jovens à vida coletiva, mostrando que o cuidado com a vida comum é construído diariamente e não apenas nos processos eleitorais ou institucionais. Como enfatizou o Papa Francisco: “a política é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (Fratelli Tutti, n.180). 

Discernimento inaciano na vida cotidiana e digital 

Santo Inácio de Loyola ensina que toda ação deve ser precedida pelo discernimento, isto é, reconhecer quais afetos conduzem à vida e quais produzem divisão ou indiferença (EE 23; EE 316–317). Para os jovens, isso significa refletir sobre como suas escolhas, sejam elas presenciais ou digitais, fortalecem ou enfraquecem vínculos sociais, promovem solidariedade e contribuem para o cuidado da vida em comum. 

O documento Christus Vivit lembra que a juventude “não é um problema a ser resolvido, mas uma riqueza a ser reconhecida” (ChV 65), reforçando que a responsabilidade e o protagonismo ético se exercem em cada ação cotidiana. 

Caminho para corresponsabilidade 

Cuidar da vida em comum exige consciência e compromisso contínuo. Cada escolha e cada ato, seja na escola, na comunidade, nos projetos sociais ou no ambiente digital, impacta diretamente o outro e também a própria vida do sujeito que age. O verdadeiro engajamento surge quando indignação, reflexão e ação se entrelaçam: transformar superficialidade em atenção, isolamento em solidariedade, desejo de mudança em cuidado concreto. 

É nesse cotidiano que a juventude brasileira exerce seu papel mais político: construindo passo a passo uma vida coletiva justa, solidária e inclusiva, respeitando minorias, promovendo direitos e fortalecendo a corresponsabilidade. 

REFERÊNCIAS:

ATLAS DAS JUVENTUDES. Disponível em: https://atlasdasjuventudes.com.br/wp-content/uploads/2021/11/ATLAS-DAS-JUVENTUDES-2021-COMPLETO.pdf. Acesso em 16 mai. 2026.  

BARROS, A. T.; MARTINS, L. M. Juventude e engajamento político despartidarizado: estudo sobre os egressos do Parlamento Jovem Brasileiro (20042013). Revista Latitude, 2013.  

CAMARGO, A. C. Usos e apropriações de tecnologias digitais para a participação políticocidadã: perspectivas das juventudes brasileiras. Tese (Doutorado) – UNESP, 2020. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/192739. Acesso em 16 mai. 2026.  

FRANCISCO. Christus Vivit, n.65, Vaticano, 2019. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20190325_christus-vivit.html. Acesso em 16 mai. 2026.  

FRANCISCO. Fratelli Tutti, n.180, Vaticano, 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html. Acesso em 16 mai. 2026.  

LEÃO XIV. Discurso aos Missionários Digitais e Influenciadores, 29 de julho de 2025. Disponível em: https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2025-07/papa-leon-xiv-misioneros-digitales-influencers-agentes-comunion.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 16 mai. 2026. 

LOYOLA, S. I. Exercícios Espirituais, EE 23; EE 316–317.  

OBSERVATÓRIO NACIONAL DAS JUVENTUDES (ONJ). Dados sobre população jovem e NEET no Brasil, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/assuntos/onj-observatorio-nacional-de-juventude/observatorio-de-juventude. Acesso em 16 mai. 2026.  

ROCHA, D.; FAETI, F.; RIBEIRO, E. Engajamento online e comparecimento eleitoral de jovens: o caso das eleições de 2022. Caderno CRH, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/article/view/55392. Acesso em 16 mai. 2026.  

SILVA, C. F. S.; CASTRO, L. R. Brazilian Youth Activism: In Search of New Meanings for Political Engagement. SAGE Journals, 2015.  

TSE. Dados de inscrição eleitoral de jovens, 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas. Acesso em 16 mai. 2026. 

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