A gramática juvenil e vocacional do amor: no coração das juventudes uma renovada cultura vocacional 

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Giovani do Carmo Junior e Vinícius Pinto Alencar

O entusiasmo e o fascínio são elementos muito presentes na vida de um ou uma jovem que adentre ao seminário ou a uma casa de formação religiosa. Certa vez um jovem durante o seu primeiro ano de formação precisou ir a uma consulta médica por estar com uma gripe bastante agressiva que o impossibilitava de participar das atividades comunitárias. Durante a consulta uma pergunta muito típica: o que você faz da vida, meu jovem? Perguntou o médico. “Sou seminarista”, respondeu. A típica indagação veio na sequência: “Por que você tomou essa decisão?”. A resposta protocolar: “Para ajudar as pessoas a se encontrarem com Deus. Gosto muito de trabalhar com adolescentes e jovens nos grupos da Igreja. Quero testemunhar Deus para eles”. O médico muito impressionado logo rebateu: “Testemunhar e trabalhar para eles? Mas, você também não é jovem?”.  

Inauguramos com este conjunto de textos uma série de artigos sobre a animação vocacional e as juventudes os quais serão publicados nos próximos meses até o acontecimento do Congresso Vocacional entre os dias 4 e 6 de setembro de 2026. Propomos pensar a animação vocacional neste primeiro conjunto de textos de 2026 a partir de perguntas. Não desejamos propor respostas prontas à chamada “crise vocacional” presente nos discursos desde a realização do Concílio Vaticano II. Uma crise dada supostamente pelo secularismo, por um lado, e, por outro lado, pela mudança eclesiológica provocada pela assembleia conciliar. Não estamos negando a influência desses fatores, mas queremos propor algo diverso. Por isso, não se trata, em primeiro lugar, de propor métodos, estratégias ou itinerários de maneira isolada.  

Desejamos provocar o movimento de pensar essa relação: juventudes e animação vocacional. Pensá-la exige antes, um gesto mais difícil e mais raro atualmente, interromper. Suspender aquilo que já sabemos, ou julgamos saber, sobre as juventudes, sobre vocação, sobre os caminhos e vida (HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. p. 57). E, nesse movimento, deixar-se ser alcançado, interpelado e atravessado por uma perspectiva que amplie os horizontes de compreensão. 

Deixar-se interpelar pelas vidas concretas das juventudes 

Interpelar-se não por uma ideia abstrata de juventude, mas, pelos jovens que encontramos diariamente ao longo do caminho. “A juventude não é algo que se possa analisar de forma abstrata. Na realidade, ‘a juventude’ não existe; o que há são jovens com as suas vidas concretas” (Christus Vivit, n. 71).  As juventudes em seu modo de ser e existir são desconcertantes por sua linguagem, por suas formas de organização, por suas aspirações, por aquilo que nelas pulsa como busca de sentido, por suas formas de pertencimento que não se deixam capturar por categorias cristalizadas, por suas experiências de socialização marcadas pela amplificação, horizontalidade, circulação livre por entre espaços cheios de códigos e pela construção de si em redes e fluxos.  

Diante disso, percebemos que há aí uma nova gramática em curso que não nos é imediatamente inteligível. Quando observada, costumamos chamar de caos, desordem, baderna e assim por diante. Isso se deve porque as juventudes não se encaixam no ordenamento discursivo que em geral se propõe e se tenta, de maneira fracassada, encaixar as pessoas no cotidiano traçando caminhos e futuros. Talvez, a primeira questão a ser considerada em nossa reflexão seja exatamente essa: seria a inteligibilidade institucional da animação vocacional capaz de dialogar com as gramáticas juvenis? Se Deus continua a chamar e falar ao coração das juventudes, então antes de falar da pessoa jovem, talvez seja preciso reconhecer que Deus já se comunica com ela e ela já fala por si mesma.  

Um dos problemas pode estar na justaposição de gramáticas que se sobrepõem e não dialogam. Sem diálogo, não há acompanhamento possível. A dinâmica vocacional é caracterizada pelo chamar, escutar e responder. Isto é, a realidade vocacional supõe uma dinâmica dialógica. Nesse horizonte, torna-se quase inevitável confrontar uma constatação recorrente: a dita ‘crise vocacional’. Ao longo das últimas décadas, essa expressão se consolidou como chave interpretativa dominante no campo da pastoral juvenil e vocacional. No entanto, sua repetição contínua levanta uma suspeita legítima, o que exatamente está em crise quando afirmamos que há uma crise vocacional? A quem interessa a defesa desta “crise” e qual a sua utilidade? 

A melancolia vocacional 

O mais inquietante não é a possibilidade da existência de tal fenômeno, mas a permanência da constatação. Nomeia-se a crise, reiteram-se suas consequências, multiplicam-se análises e, ainda sim, algo permanece intocado. Há uma espécie de estabilidade, sintomática, própria na narrativa da crise, como se ela funcionasse menos como instrumento de compreensão e mais como forma de preservar esquemas a partir dos quais interpretamos a realidade. Sintoma esse que aponta para uma espécie de melancolia vocacional que não se dá no sentido clínico, mas como categoria analítica: a retroalimentação de um golpe na vaidade dos seminários e casas de formação entupidos de crianças, adolescentes e jovens. Uma quebra da imagem onipotente que não se elabora, não se projeta no horizonte e vive sempre de desesperança (Pereira, William Cesar CastilhoA ideologia da vergonha e o clero no Brasil. p. 261).  

Aqui é interessante dizer deste “sintoma”. Em um primeiro momento, o conceito de sintoma pode ser compreendido em sua acepção freudiana, como formação do inconsciente, portador de sentido, passível de interpretação. Contudo, o utilizamos neste texto a partir de uma outra perspectiva, a saber, do deslocamento operado por Jacques Lacan que conduz a uma inflexão decisiva. O sintoma deixa de ser apenas mensagem a decifrar para tornar-se aquilo que insiste como modo de organização e de gozo. 

sinthomática melancolia vocacional, tal como se manifesta na reiterada narrativa da crise, não se reduz a um sintoma no sentido clássico, mas se aproxima de um elemento que sustenta o sujeito ou, neste caso, o campo institucional, em sua consistência singular (Lacan, 1975–1976/2007). A crise continuamente enunciada não é apenas objeto de interpretação (sintoma), mas opera como amarração, reinscrevendo indefinidamente a perda que não se elabora e convertendo-a em condição de possibilidade da própria permanência institucional. Trata-se, portanto, de um sinthoma coletivo, uma forma de consistência que, ao mesmo tempo em que revela um impasse, também sustenta a estrutura que o repete. A crise, então, deixa de ser um problema a ser enfrentado e torna-se uma narrativa que sustenta a identidade da Animação Vocacional ferida em sua onipotência numérica. 

Nomear uma crise pode ser, também, uma forma de evitar uma pergunta mais radical, o que, de fato, está em crise? A busca por sentido, o desejo de buscar, a vocação ou os modos pelos quais aprendemos a confirmá-la? Ao insistirmos, simplesmente, no ideário sinthomático da crise, incorremos no risco de preservar intactos os esquemas de interpretação que já não dão conta do problema que se apresenta. E, assim, aquilo que emerge como possibilidade, novas formas de compromisso, de pertencimento, de construção e de sentido, são rapidamente traduzidas como falta, desinteresse ou incapacidade. Em suma, é bem mais fácil moralizar a situação culpabilizando a cultura e os indivíduos. 

Diante desse cenário, a reflexão que se segue não buscará, como dito no início, resolver a tensão instaurada, mas uma tentativa de habitar a sua tensão e sustentar o seu tensionamento. Trata-se de deslocar o olhar da tentativa de disciplinar os sujeitos para a problematização dos modos pelos quais os temos interpretado, acompanhado e, em certa medida, capturado a sua experiência vocacional. Não partiremos, portanto, da ideia melancólica de que as juventudes falham em responder, mas da hipótese de que talvez nossas gramáticas vocacionais não caminhem e nem mesmo dialoguem por vezes COM as juventudes. Afinal, falam muito sobre e para os jovens. Em alguns momentos recaímos na posição de sermos mestres em fazer monólogos ao invés de propor diálogos. 

Adultocentrismo vocacional 

A narrativa que contamos ao início deste texto nos convida a uma reflexão: o que acontece com os jovens quando encontram os processos de animação vocacional e decidem por um discernimento vocacional? Essa história nos mobiliza há algum tempo. Para propor um diálogo com as juventudes, queremos dar mais uma vez um passo atrás ao invés de responder impulsivamente cuspindo um monte de discursos que repetimos sem nenhuma convicção. A convocação de primeirear feita pelo Papa Francisco pode ser interpretada pela iniciativa de parar e escutar (Evangelii Gaudium, n. 24). Escutar é um verbo sempre ativo, comprometedor, implicador e propositivo de novos caminhos. Eis o caminho de Jesus que não mandava ninguém embora sem parar para escutar e sem entrar em diálogo. Nesse sentido, em uma Igreja Sinodal, um caminho de busca vocacional nunca está desvencilhado dos atravessamentos comunitários e sociais. O caminho vocacional não é um percurso individualista, mas um modo de viver caracterizado pela oração, escuta, análise, diálogo, discernimento e aconselhamento para a tomada de decisões que ocorrem na complexidade da existência concreta (Para uma Igreja Sinodal: comunhão, participação, missão, n. 51.87). 

Refletir a partir da escuta tem se tornado um gesto raro em tempos marcados pela urgência de respostas à crise. Um gesto que interrompe a pressa e suspende a evidência. Dar esse passo é recusar a tentação de respostas rápidas para sustentar a densidade das perguntas. É necessário um movimento que não avance imediatamente sobre o fenômeno, mas que recue. Não para negar o que aparece, mas para interrogá-lo em sua densidade e interpretá-lo à luz do Espírito da Vida. Como nos disse Papa Francisco na Saudação Final da 17º Congregação Geral em 26 de outubro de 2024, para um caminho sinodal “são necessárias as pausas, os silêncios e a oração. É um estilo que estamos a aprender juntos, um pouco de cada vez. O Espírito Santo chama-nos e sustenta-nos nesta aprendizagem, que devemos compreender como um processo de conversão”. Uma pastoral juvenil e vocacional em chave sinodal exige pausas para escuta, silêncios provocados pela admiração ou pela ausência de respostas e oração como a gramática do amor.  

Em A Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche (1844-1900) propõe justamente esse exercício de não tomar os valores como dados, mas investigar suas condições de emergência. Perguntar não apenas “o que é”, mas “como se tornou o que é?” e, sobretudo, “a serviço de que forças?”.  A genealogia, nesse sentido, não é apenas um método. É uma atitude crítica diante da evidência. Ela rasga a superfície da cultura para expor as disputas, os interesses e as vontades que sustentam aquilo que se apresenta como dado pois os valores não apenas emergem historicamente (GM (1998), II, §12), mas frequentemente se sustentam por uma vontade de conservação uma força que busca preservar formas de vida, mesmo quando já não correspondem à vitalidade do real.  

Realizar esse movimento no sentido da relação entre as juventudes e a animação vocacional implica deslocar o olhar. Não basta descrever os sujeitos jovens como “descomprometidos” ou “indecisos”. É preciso perguntar de onde vem essa leitura? Que gramática a sustenta? Que tipo de sujeito ela espera encontrar? E mais, o que quer aquele que assim interpreta? Essa última pergunta, profundamente nietzscheana, não é detalhe retórico. Ela nos obriga a reconhecer que toda interpretação carrega uma vontade. Não existe leitura neutra das juventudes. Há sempre, por detrás, uma expectativa de forma, de tempo, de estabilidade. Há sempre um modelo, muitas vezes implícito, de vida considerada legítima. 

Neste ponto se torna interessante o questionamento do médico e o espanto do jovem. Ele está com seu olhar tão condicionado por um discurso de superioridade em que se coloca como aquele que ajuda o outro que é ajudado. Uma relação assimétrica adultocêntrica caritativa que impede de perceber a própria condição juvenil. Ou melhor, percebe a si mesmo como um adulto em um processo dito “elevado” de maturação mesmo sendo jovem. Em suma, “um ser elevado”. Um ser adultizado. Torna-se capaz de enunciar uma verdade por se conformar ao ritual de enunciação da animação vocacional definido por gestos, comportamentos, circunstâncias, e todo um conjunto de signos que devem acompanhar o discurso. Este ritual vocacional fixa a eficácia suposta ou imposta das palavras e seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem e os limites entre a verdade vocacional e a mentira das motivações inconsistentes (FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. p. 39). Por isso, não está em jogo a ordem entre as juventudes e a vida concreta, mas a ordem do discurso que condiciona a sua percepção sobre si mesmo (CANDIOTTO, Cesar. Foucault e a crítica da verdade. p. 28). 

É aqui que a crítica ao adultocentrismo se torna decisiva. O documento Juventudes. Olhares sobre adultocentrismo, gênero e masculinidades (2021) evidencia que a compreensão sobre as juventudes contemporâneas continua organizada a partir de uma matriz que privilegia a adultez como lugar de autoridade epistemológica e moral (DUARTE QUAPPER, Klaudio. Sociedades adultocêntricas: sobre suas origens e reprodução, p. 48). O adulto aparece como aquele que sabe, define, que orienta. O jovem, como aquele que deve ser conduzido, corrigido, formado. Essa assimetria não é apenas geracional, ela é estrutural. Trata-se de uma estrutura de apreensão da realidade cuja força esconde a sujeição produzida pelos esquemas adultos sobre as formas juvenis de existir e a partir deste escondimento produz sua intepretação da realidade como sendo a verdade sobre a animação e o discernimento vocacional. 

Neste ordenamento de palavras e coisas, as juventudes são frequentemente capturadas por uma dupla operação: por um lado, é romantizada como potência cheia de sonhos e força de mudança; por outro lado, é controlada como risco pois essa energia de transformação e esses sonhos não possuem maturidade e nem mesmo chão de realidade. A juventude passa a oscilar entre ser “objeto de cuidado” e “objeto de suspeita”, sem que sua capacidade de produzir sentido seja plenamente reconhecida (MARTÍNEZ DÍAZ, Valentina. Juventud: entre la potencia y el riesgo. p. 56). Essa estrutura adultocêntrica tem consequências diretas para a animação vocacional. Porque define, de antemão, o modo como a pessoa jovem é “escutada”. Se ela não corresponde às expectativas de linearidade, estabilidade e definição, sua experiência tende a ser interpretada como falha.  

Surge então, um mecanismo sutil, mas poderoso, de culpabilização: a pessoa jovem não responde, não decide, não assume. Jovens não… não e nem…nem. Tomando a máxima verdadeira que Deus continua a chamar, então passa-se à responsabilização/culpabilização sempre transferida para a pessoa que, “em tese”, não estaria sabendo responder de maneira adequada ou estaria subvertendo a vontade de Deus. Mas será que os jovens não respondem ao chamado vocacional feito por Deus? Ou respondem em uma linguagem que institucionalmente não se reconhece e, por conseguinte, com a qual não se dialoga? Ou que não são reconhecidas ou são deslegitimadas: sem voz, sem verdade, sem espaço-tempo? Ou vozes que ecoam em espaços específicos produzidos para que sejam escutadas de maneira condicionada? Uma escuta dissimulada e hipócrita! 

Nos trabalhos mais recentes na área da sociologia das juventudes, encontramos indicadores que demonstram estarmos diante de uma transformação profunda das trajetórias de vida. As juventudes nunca foram e continuam a não serem uma etapa homogênea e linear, mas são pluralmente marcadas por desigualdades, diferenças e diversidades. Trajetórias existenciais atravessadas por experimentações e recomposições constantes. Essa pluralização não é superficial; ela atinge o modo como os sujeitos se relacionam com o tempo, o espaço e as realidades emancipatórias do universo familiar como o trabalho, as relações afetivas e a educação superior. Estamos, portanto, diante de uma reconfiguração da própria experiência de ser pessoa jovem. 

As diferenças de gênero, classe, geração, etnia, território e ocupação fazem com os jovens masculinos e femininos, operários e estudantes, indígenas e mestiços, rurais e urbanos, e depois as manifestações de culturas juvenis não possam jamais serem homogeneizadas. No imaginário comum ser jovem é associado a homens, brancos, estudantes, subversivos, fitness, revolucionários e que não precisam trabalhar. No entanto, a experiência de ser jovem hoje é outra para mulheres, pretas, indígenas, pobres, moradoras de periferias, trabalhadoras, deficientes e população LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexos, assexuais e outras possibilidades de gêneros e sexualidades dissidentes) (PEREZ, Olivia Cristina. A importância das diversidades nas análises sobre juventudes e participação política. p. 740-741). 

Para além da percepção que as lógicas vocacionais não operem nessa gramática, cabe-nos perguntar como podemos hoje produzir gramaticais vocacionais capazes de acompanhar as juventudes diversas, diferentes e desiguais? Ao invés de uma lógica adultocêntrica, elitista e baseada em uma ideologia da vergonha, parece-nos ser necessária uma gramática do amor que seja capaz de anunciar o Evangelho de Jesus de Nazaré ao coração das juventudes. O coração que é o centro de toda pessoa. Papa Francisco já nos disse que:

Nesta busca, deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios. É necessário aproximar-se dos jovens com a gramática do amor, não com o proselitismo. A linguagem que os jovens entendem é a de quantos dão a vida, a daqueles que estão ali por eles e para eles, e a de quem, apesar das suas limitações e fraquezas, se esforça por viver coerentemente a sua fé (Christus Vivit, n. 211). 

Como afirma o Padre Arturo Sosa (Os jovens, a fé e o discernimento vocacional), “são os jovens, com sua perspectiva, os que podem nos ajudar a compreender melhor esta mudança de época que estamos vivendo, como também sua novidade cheia de esperança”. Por isso, ao contrário de um ordenamento vocacional que transforma os jovens em estatísticas vocacionais e em miniadultos clericalizados, faz-se necessária uma gramática do amor que opere a partir da gratuidade e da construção de sentido para vida à luz do encontro com a pessoa de Jesus de Nazaré. Precisamos desmobilizar uma lógica vocacional proselitista e clericalizante, em vista da construção de uma cultura vocacional sustentada no acompanhamento vocacional na busca e construção do sentido da vida.  

Gramáticas e culturas juvenis: busca e construção de sentido 

E é nesse ponto que a noção de uma gramática do amor em uma cultura vocacional se torna fecunda. Trata-se de um conjunto de práticas, sensibilidades e modos de organizar a vida que emergem no cotidiano dos jovens e que interpela hoje instituições mediadoras sociais e religiosas.  

Essa gramática opera por deslocamentos, o tempo deixa de ser linear para tornar-se múltiplo; a identidade deixa de ser fixa para tornar-se processual; o pertencimento deixa de ser exclusivo para tornar-se transitivo. Esses deslocamentos implicam uma verdadeira transmutação conceitual, novamente, em chave nietzschiana. Os conceitos que herdamos, compromisso, responsabilidade, vocação, não desaparecem, mas são retraduzidos. Compromisso já não se identifica necessariamente com permanência institucional, mas com fidelidade a processos significativos. Responsabilidade já não se reduz à obediência a normas externas, mas se articula com a coerência interna do sujeito. Vocação já não se apresenta como resposta definitiva, mas como construção constante do projeto de vida. 

Projetar a vida é um processo efetuado pelas subjetividades juvenis dialogicamente relacionadas ao espaço e ao tempo. A territorialidade juvenil não se restringe ao espaço físico: ela inclui as redes de afetos, pertencimentos, saberes e espiritualidades que dão sentido à vida em comunidade (SANTOS, Milton. A natureza do espaço). Dizer que um espaço está atravessado por gramáticas cotidianas das juventudes consiste em afirmá-lo caracaterizado por uma cultura:  

A cultura pode ser entendida como um conjunto de significados compartilhados; um conjunto de sinais específicos que simbolizam a pertença a um determinado grupo; uma linguagem com seus específicos usos, particulares rituais e eventos, através dos quais a vida adquire um sentido. Esses ‘significados compartilhados’ fazem parte de um conhecimento comum, ordinário, quotidiano” (PAIS, José Machado. Culturas Juvenis. p. 70). 

Os jovens constituem modos de vida por mecanismos infinitesimais de estratégias e táticas investidas, utilizadas e transformadas no processo de introjeção e impacto sobre as culturas institucionais. Entremeadas às culturas, há diversas gramáticas juvenis reguladas por códigos linguísticos-simbólicos construídos pela negociação de significados, narrativas, estruturas sociais, compreensões arraigadas e pactos produzidos ou legitimados na relação entre eles (Conselho Episcopal Latino-americano e Caribenho. Nuevos escenarios y Subjetividades juveniles en América Latina. Desafíos y oportunidades pastorales, p. 40). 

Isso faz com que em um processo de acompanhamento vocacional se constitua grupos ou comunidades juvenis vocacionais cuja linguagem medie a coexistência de jovens diversos, diferentes e desiguais em uma mesma tessitura de linguagem na qual se reconheçam e construam horizontes de sentido. As gramáticas juvenis são as linguagens que os jovens vão criando para representar e imaginar individualmente ou coletivamente sua integração ou exclusão social (BENDIT, René; MIRANDA, Ana. La gramática de la juventud: un nuevo concepto en construcción, p. 33). Tendo isso em vista, os processos de acompanhamento vocacional dados na animação vocacional se encontram diante de singularidades atravessados por diversos códigos simbólicos extremamente díspares quando analisados desde o ponto de vista da cultura, mas que ganham sentido quando analisados a partir da história de cada pessoa. 

O descompasso da conversa: crise ou déficit da gramática vocacional? 

No entanto, quando essas gramáticas juvenis são lidas a partir de uma gramática que não se transformou, elas aparecem como déficit. A crítica de Judith Butler (1990-2019) permite aprofundar de maneira decisiva o problema da inteligibilidade das experiências juvenis ao afirmar que as categorias que utilizamos para nomear o mundo não apenas o descrevem, mas produzem a realidade. Quando insistimos em categorias que já não correspondem às experiências vividas, produzimos sujeitos que aparecem como inadequados. A questão não é apenas descritiva, ela é profundamente ética e pastoral. Porque diz respeito ao modo como acompanhamos os jovens e ao que fazemos com aquilo que escutamos deles durante o trilhar do próprio caminho. 

Em Problemas de gênero (p. 33) e posteriormente em Desfazendo gênero (p. 58), Butler demonstra que as categorias através das quais reconhecemos os sujeitos, identidade, gênero, coerência de vida e trajetória não são neutras. Elas operam como normas de reconhecimento, isto é, estabelecem quais vidas podem aparecer como legíveis, coerentes e legítimas. Quem está preparado em seu caminho vocacional e, por isso, confirmado pelos aceites formativos ou aqueles dispensados por não terem vocação. 

Isso implica perceber que não se trata apenas de afirmar que os jovens estão mudando, mas de reconhecer que os critérios pelos quais avaliamos suas vidas permanecem, em grande medida, inalterados. Assim, quando um jovem não apresenta uma trajetória linear, quando revisa constantemente suas escolhas, quando constrói sua identidade de maneira processual ou quando vive pertenças múltiplas, religiosas, afetivas, profissionais, ele não aparece apenas como alguém “em busca”, mas frequentemente como alguém que não corresponde às condições normativas de reconhecimento de uma vida considerada madura ou vocacionalmente válida. Isto é, alguém que não encontrou sua vocação por não ter se encaixado nos papeis sociais definidos pelas estruturas em oposição àqueles que se realizaram plenamente por terem se identificado totalmente com o papel social estabelecido para as vocações específicas no seio da comunidade cristã. O que reforça as máximas como: “se eu não for padre, então não serei realizado segundo a vontade de Deus”. 

Butler nos ajuda, então, a compreender que o problema não reside simplesmente na diversidade das experiências juvenis, mas naquilo que poderíamos chamar de um déficit de inteligibilidade vocacional. Certas formas de existir não são recusadas explicitamente; elas são, antes, não reconhecidas como portadoras de sentido pleno em face do adulto (a) religioso (a) maduro (a) e realizado (a) em sua escolha vocacional que se eleva em contraposição aos fracassados da existência. Tornam-se vidas precárias no plano simbólico: existem, produzem sentido, constroem trajetórias, mas não são facilmente nomeáveis dentro das categorias disponíveis. 

Isso tem consequências diretas para a animação vocacional. Se a animação e o acompanhamento vocacional continuarem a ser tratados a partir de critérios como linearidade, estabilidade, clareza precoce de decisão, permanência e cristalização de escolhas e projetos, então uma série de experiências juvenis contemporâneas serão automaticamente lidas como indecisão, imaturidade ou falta de compromisso. No entanto, o que está em jogo pode ser outra coisa: formas distintas de construir fidelidade, de sustentar o desejo e de responder ao chamado com sentido. 

Desafios para animação vocacional 

A partir do que foi dito até aqui, a animação e o acompanhamento vocacional são colocados diante de desafios decisivos. Não se trata apenas de adaptar linguagens ou atualizar métodos. Trata-se de pensar uma questão mais densa, o lugar da animação e do acompanhamento vocacional em um mundo no qual os próprios modos de existir estão sendo reconfigurados. Precisamos nos interrogar sobre seu local profético diante de uma realidade contemporânea pouco afeita à escuta do sentido, mas cheia de resposta e trajetória pré-fabricadas para aplacar a angústia de construir o próprio projeto de vida. Essa questão desdobra outras, que não podem ser evitadas. A animação vocacional está escutando a emergente gramática existencial das juventudes ou continua operando a partir de códigos que já não as alcança? Estamos acompanhando processos de elaboração do desejo ou oferecendo respostas prontas para angústias que não suportamos sustentar? O discernimento que propomos nasce da experiência concreta do sujeito ou da necessidade institucional de garantir números? Temos espaços qualificados por pessoas que testemunham sua fé em Jesus e são capazes de acompanhar as pessoas jovens ou precisamos acelerar decisões para que as pessoas se tornem funcionalmente úteis à comunidade eclesial?  

Esse conjunto de indagações revelam que o plano de fundo dos desafios que as juventudes provocam hoje é muito mais profundo que somente uma alteração estética nas formas de construção de cards e propagandas vocacionais. Ele diz respeito à capacidade ou incapacidade de reconhecer o agir pluriforme de Deus que escapa aos nossos esquemas pré-definidos. Como recorda o Papa Francisco, é preciso confiar que Deus já está presente na vida dos jovens, agindo em suas buscas, em suas inquietações, em seus caminhos (Christus Vivit, n. 234). As juventudes são um lugar teológico. Lugar desde onde Deus se comunica na história. A animação vocacional e o acompanhamento vocacional, nesse sentido, não impõem direções, mas colaboram para discernir a presença, a voz e o desejo de Deus de estar em comunhão plena com os seus filhos e filhas. Discernir exige escuta e deslocamento! 

Tal afirmação do Papa Francisco abre um espaço de tensão que não pode ser suavizado. Se Deus já fala na vida concreta das juventudes, a animação vocacional está discernindo essa presença ou tentando enquadrá-la? Pois, há, por vezes, o risco de o discernimento ser reduzido a um processo de confirmação de caminhos já esperados institucionalmente  

Nesse caso, não se trata mais de escutar o agir de Deus nos sinais dos tempos, mas de administrar respostas e gerenciar demandas. A tensão, portanto, não é apenas em relação à metodologia, como dito anteriormente, mas à compreensão, nesse caso, especificamente teológica vocacional: Deus chama a todos à plenitude da vida (cf. Jo 10, 10). Estamos dispostos a reconhecer que o Espírito pode conduzir a animação e o acompanhamento vocacional por caminhos que escapam às formas tradicionais de consagração, pertença e missão? A resposta vocacional se dá por meio de mediações sócio-históricas, mas o Espírito supera e extrapola os meios. É dinamismo que conduz a cada ser humano que clama pelo encontro de sentido com a Trindade de amor (cf. Gl 4, 6). Se as juventudes são, de fato, um lugar teológico, então isso implica escutar o que Deus está a nos dizer e que ainda não sabemos nomear. Mais ainda, que talvez desestabilize nossas formas consolidadas de compreender o horizonte vocacional. 

No fundo, um dos maiores desafios que as juventudes apresentam à animação e ao acompanhamento vocacional hoje seja o de aprender a habitar uma tensão. A tensão entre gramáticas. Entre aquilo que herdamos e aquilo que emerge. Entre o desejo de preservar e a necessidade de transformar. Porque as juventudes não estão em silêncio. Elas estão falando e falando muito. A questão é, estamos dispostos a escutar e ser implicados com uma linguagem que ainda não sabemos sequer compreender que dirá dialogar? 

Referências 

BENDIT, René; MIRANDA, Ana. La gramática de la juventud: un nuevo concepto en construcción. Última Década, Santiago-Chile n° 46, julio, 2017, p. 4-43.  

BUTLER, Judith. Desfazendo gênero. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015 

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003  

CANDIOTTO, Cesar. A dignidade da luta política: incursões pela filosofia de Michel Foucault. Caxias do Sul: Educs, 2020. 

CANDIOTTO, Cesar. Foucault e a crítica da verdade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica; Curitiba: Champagnat, 2013. 

Conselho Episcopal Latinoamericano e Caribenho. Nuevos escenarios y Subjetividades juveniles en América Latina. Desafíos y oportunidades pastorales. Bogotá: CELAM, 2023. 

DiÓGENES, Glória. Cidade, arte e criação social: novos diagramas de culturas juvenis da periferia. ESTUDOS AVANÇADOS 34 (99), 2020. p. 373-389. 

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HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida: Ideias & Letras, 2006. 

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