Adelman Neto, SJ via MAGIS Brasil
Em nosso primeiro texto refletimos sobre a dimensão do discernimento pessoal da vida como chamado vocacional primeiro. Se a vocação consiste em ser chamado, então somos chamados a encontrar nosso caminho segundo o que nos impulsiona a amar mais e melhor com todo nosso ser. À vista disso, no segundo texto tratamos que não há chamado vocacional enclausurado em si mesmo, fechado no individualismo ou encerrado em horizontes apequenados, há uma dimensão social que constitui intrinsecamente todo percurso vocacional. Neste terceiro texto da nossa série lançamos o olhar para a dimensão da liberdade para compreendê-la no horizonte vocacional a partir da espiritualidade inaciana.
“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou…” (Gl 5, 1)
Uma das questões mais decisivas que se impõe diante de nós durante o período de nossa juventude é a da liberdade. Somos livres e este é um dos maiores dons que recebemos. Mas, como temos lidado com a liberdade? Muitas vezes, confundimos ser livre com ausência de limites, como se significasse simplesmente fazer tudo aquilo que se deseja. No entanto, a verdadeira liberdade não consiste em poder escolher qualquer coisa, está em desenvolver a capacidade de escolher aquilo que conduz à vida, ao crescimento pessoal e comunitário, ao sentido profundo da nossa existência.
Nesse horizonte, a espiritualidade inaciana oferece uma luz particularmente importante. Inácio de Loyola compreendeu que a liberdade está intimamente ligada à responsabilidade. Somos livres para responder àquilo para o qual fomos criados. E justamente por isso, a responsabilidade não é um peso que limita a liberdade, mas aquilo que a faz amadurecer. A liberdade sem responsabilidade transforma-se facilmente em impulso ou, quem sabe, em fuga. Já a responsabilidade assumida conscientemente torna-nos verdadeiramente livres. É nesse equilíbrio delicado e exigente que se constrói solidez num processo de projeto de vida.
Santo Inácio escreve nos Exercícios Espirituais:
Donde se segue que há de usar delas tanto quanto o ajudem a atingir o seu fim, e há de privar-se delas tanto quanto dele o afastem. Pelo que é necessário tornar-nos indiferentes a respeito de todas as coisas criadas em tudo aquilo que depende da escolha do nosso livre-arbítrio, e não lhe é proibido (Exercícios Espirituais, n. 23).
Talvez hoje a grande pergunta seja precisamente esta: o que significa viver o “tanto quanto”? Ou como discernir aquilo que ajuda e aquilo que nos afasta do fim para o qual fomos criados?
Essa questão torna-se ainda mais difícil num mundo saturado de estímulos. Vivemos mergulhados em ofertas constantes de consumo e distrações e tudo parece acessível imediatamente. Obviamente as tecnologias podem nos ajudar muitíssimo, mas já não é preciso procurar muito pois nossos algoritmos procuram por nós, nos oferecendo tanto respostas rápidas, quanto a esquiva do silêncio e da paciência. Nesse cenário, torna-se especialmente difícil para um jovem perceber o que realmente é saudável e o que o ajuda a crescer.
O Evangelho oferece um critério simples e ao mesmo tempo profundo: “A árvore é conhecida pelos seus frutos” (Lc 6, 44). Talvez seja preciso reaprender a olhar os frutos daquilo que vivemos. O que determinadas escolhas produzem em nós: paz ou ansiedade? Sinto-me mais disponível para amar ou estou mais fechado em mim?
Para isso, é indispensável olhar para dentro, conhecer-se e olhar-se com honestidade. Esse exercício interior exige coragem, porque nem sempre gostamos daquilo que encontramos em nós mesmos. Contudo, sem autoconhecimento não existe discernimento verdadeiro e sem discernimento a liberdade torna-se frágil e manipulável.
Em outras palavras, o “tanto quanto” inaciano pode nos ajudar a ponderar as coisas e cada pessoa precisa encontrar uma justa medida para si mesma, visto que somos diferentes. Aquilo que para alguém pode ser saudável e pode ajudá-lo a ser mais livre, para outro pode tornar-se uma prisão. Isto porque a vida vista sob a ótica inaciana nunca funciona como uma regra mecânica aplicada igualmente a todos. Trata-se antes de perceber concretamente o que ajuda (ou não) cada pessoa a caminhar em direção ao seu fim.
E aqui aparece outra palavra difícil para o nosso tempo: privar-se. Falar em renúncia ou sacrifício parece quase absurdo numa cultura que promete satisfação e conforto instantâneos. Todavia, nenhuma liberdade amadurece sem a capacidade de dizer “não”. Muitas vezes romantizamos o “sim”, por vezes disfarçado de bondade, mas é o “não” que precisa ser dito como canal de preservação de nossa saúde e dignidade.
Existe uma coragem necessária para privar-se de algumas coisas, não porque elas sejam más em si mesmas, talvez estejam ocupando um lugar excessivo, fazendo-nos criar dependência(s). Quando já não conseguimos escolher livremente, quando somos arrastados automaticamente por impulsos, o discernimento fica comprometido. Passamos a decidir não a partir daquilo que verdadeiramente buscamos, mas desde as tendências que nos dominam. E essas tendências podem conduzir-nos justamente para longe daquilo que nos realiza de modo mais profundo.
Neste ponto se encontra uma das noções mais importantes da espiritualidade inaciana: a “indiferença”. À primeira vista, a palavra pode soar negativa, como estamos habituados a associá-la à frieza ou falta de envolvimento com algo. Para Inácio, ao contrário, a indiferença não é a ausência de sensibilidade. Ela é justamente liberdade interior.
Ser indiferente, então, significa não estar preso antecipadamente a um desejo desordenado ou a um apego que impeça a escuta verdadeira. Na verdade, é estar disponível para escolher aquilo que mais conduz ao bem, ao sentido mais profundo da própria vocação de onde se cria uma disposição interior aberta ao discernimento. Assim, reconhecemos que somos chamados a uma liberdade que aprende a discernir, que examina honestamente os próprios afetos, que reconhece os próprios condicionamentos e que busca ordenar os desejos mais profundos.
Por isso, é tão importante recuperar práticas simples de exame pessoal: parar, silenciar, agradecer, rever o dia, questionar-se e estabelecer (novos) propósitos. Sem esse exercício interior, corremos o risco de viver conduzidos pelas tendências do momento ou pelos mecanismos invisíveis que capturam nossa atenção. Com ele, porém, tornamo-nos capazes de escolher de forma mais consciente. E então a liberdade deixa de ser apenas um direito abstrato e torna-se um caminho concreto de construção da própria vida. Este é um caminho exigente, sem dúvidas, mas profundamente fecundo.
Referências:
LOYOLA, Santo Inácio. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 2000.







