Vocação é projeto de vida: a dimensão social do chamado vocacional 

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Adelman Neto, SJ via MAGIS Brasil

Em nosso primeiro texto refletimos sobre a dimensão do discernimento pessoal da vida como chamado vocacional primeiro. À luz do Princípio e Fundamento, tratamos que cada ser humano foi criado por Deus com um propósito. Sublinhamos o que nos ajuda a buscar uma vida em plenitude, mais harmônica com a vontade de Deus. Fomos criados, nos recorda Santo Inácio, para o amor e para amar. Se a vocação consiste em ser chamado, então somos chamados a encontrar nosso caminho segundo o que nos impulsiona a amar mais e melhor com todo nosso ser. Por isso, não há chamado vocacional enclausurado em si mesmo, fechado no individualismo ou encerrado em horizontes apequenados, há uma dimensão social que constitui intrinsecamente todo percurso vocacional.

“Que todos sejam um… como nós somos um” (Jo 17, 21-22) 

Ninguém é uma ilha. A antropologia cristã nos recorda que fomos tecidos para o encontro. Muitas são as passagens bíblicas e os escritos dos Padres da Igreja que nos apontam a dimensão coletiva de viver em comunhão com os demais. Há de se sublinhar a paradoxal experiência humana onde um indivíduo se reconhece único ao mesmo tempo que reconhece e é reconhecido pelos demais

A espiritualidade inaciana compreende a criatividade e a bondade de Deus que cria o homem e as “outras coisas” para o mundo. Santo Inácio escreve na segunda frase do Princípio e Fundamento: “[…] E as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, a fim de ajudá-lo a alcançar o fim para que foi criado…”. Também na Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, está explícito o caráter da natureza social do homem e da mulher quando afirma que:

[…] o progresso da pessoa humana e o desenvolvimento da própria sociedade estão em mútua dependência. Com efeito, a pessoa humana, uma vez que, por sua natureza, necessita absolutamente da vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais. Não sendo, portanto, a vida social algo de adventício ao homem, este cresce segundo todas as suas qualidades e torna-se capaz de responder à própria vocação, graças ao contato com os demais, ao mútuo serviço e ao diálogo com seus irmãos (Gaudium et Spes, n. 25). 

Em outras palavras, pode-se dizer que a vocação possui uma dimensão social intrínseca, porque não se vive sozinho da mesma maneira como não se sonha sozinho. É bonito pensar, por exemplo, como a existência deixa de ser algo egoísta para se tornar uma partilha profunda, um encontro de existências. 

Porém, para não cairmos em uma romantização no processo de projetar a vida, é importante estarmos cientes da eterna tensão entre o idealismo do sonho e a gravidade da realidade. Viver com e para os outros exige olhos treinados para ver além das superfícies. As condições políticas e sociais que nos afligem como o preconceito, a pobreza, a exploração, a falta de sentido e a desconfiança no potencial das juventudes são os campos de batalha da nossa vocação.  

Obviamente devemos reconhecer os limites impostos pelas conjunturas em que estamos inseridos, mas, ainda assim, não podemos permitir que o contexto nos desanime ou nos impeça de acreditar que sonhar seja algo bom. Ou seja, nem que o “chão” nos prenda e nem que a cabeça e o coração nos iludam. A ideia é sermos conscientes desta dinâmica paradoxal de nossa condição humana. 

Este aspecto pode ser ilustrado através da arte, como no filme A Vida é Bela. Clássico do italiano Roberto Benigni onde a realidade brutal é purificada pelo amor de um pai para com o seu filho. Dividir a vida, as alegrias, dores e sonhos é construir uma “tenda de consolações”. Nada exclui o peso da violência, mas nestes laços o mundo exterior pode perder a sua rigidez e as dificuldades não são apenas obstáculos, são cenários para se estabelecer outras relações possíveis diante da vida.  

A força genuína do período juvenil atua exatamente nessa conjuntura: ela possui a lucidez para denunciar as injustiças e a energia para potencializar as sementes de bem-viver que já frutificam no cotidiano. Podemos estar confiantes no futuro porque somos testemunhas de que as juventudes têm ocupado espaços de decisão de modo muito propositivo.  

Esse ímpeto pode ser ilustrado por figuras como a sueca Greta Thunberg, que mobilizou gerações em torno da emergência climática, e, no cenário brasileiro, por lideranças como Txai Suruí, que leva a voz dos povos originários e a defesa da Amazônia para as maiores cúpulas internacionais. Essas jovens mulheres demonstram que a coragem de sonhar novos mundos é o que mantém viva a esperança de um futuro mais justo. Demonstram, de alguma forma, o equilíbrio inaciano em prática: nem o otimismo ingênuo, nem o pessimismo paralisante, mas a esperança dinâmica que deve mover os nossos corações.  

Este mesmo equilíbrio nos ajuda a termos presente uma verdade forte de nossa condição humana: as pessoas que cruzam nosso caminho, os bens e dons que possuímos e toda a criação não são destinos finais, mas pontes. Essa perspectiva nos retira do isolamento egoísta e nos coloca em uma relação de alteridade responsável.  

Nesse contexto, compreende-se que tudo pode conduzir ao bem, se for orientado corretamente. Isto é, o segredo não reside na natureza das coisas em si. Está na intenção e no discernimento de quem as utiliza. Quando a vontade humana se alinha à busca pela verdade e pela virtude, até mesmo os desafios e os recursos materiais tornam-se degraus para a realização de um propósito maior. 

Longe de ser uma lógica utilitarista, que reduziria o mundo a uma mera fonte de lucro ou prazer imediato, essa visão sustenta-se em uma lógica pautada na responsabilidade. Se as coisas existem para auxiliar o homem em sua finalidade, cabe a ele o papel de guardião consciente desses bens. Trata-se de um compromisso ético: usar o que está disponível com gratidão e cuidado garantindo que a interação com todas as coisas criadas honre a dignidade humana, como Deus mesmo sonhou desde o princípio. Assim, discernir a nossa vocação e construir o nosso projeto de vida à luz deste aspecto do Princípio e Fundamento ajuda-nos a amadurecer nossas motivações e a caminhar avante com maior segurança.  

Uma outra experiência que nos ajuda muitíssimo é a de (re)descobrir que nós mesmos e as “outras coisas”, não sendo o fim, possuímos um fim. Ao contrário de nos assustar, esta verdade deve nos fazer pessoas mais livres. Inclusive, Santo Inácio propõe um exercício de imaginação muito interessante no momento da “Eleição” (processo de tomada de decisão dentro de um caminho de discernimento) Assim está escrito: “A terceira [regra]: considerar, como se estivesse no leito da morte, a forma e medida que então quereria ter tido no modo da presente eleição; e, regulando-se por ela, faça a sua determinação pelo todo” (Exercícios Espirituais, n. 186). 

Neste ponto, Santo Inácio sugere que, para sair de possíveis apegos ou dúvidas, o exercitante deve projetar-se no futuro, no momento final de sua vida. A lógica é a de contemplar como eu gostaria de ter escolhido algo, ou como eu gostaria de ter projetado a minha vida se fosse o meu último dia. Essa perspectiva ajuda a purificar as intenções e a focar no que é essencial, eliminando interesses passageiros ou puramente utilitaristas, em favor da responsabilidade diante do fim para o qual o homem foi criado. 

Enfim, alcançar o fim para o qual fomos criados, com a ajuda de tantos meios, nos abre à gratidão e nos impulsiona a sermos mais generosos em nossa oferta de vida. Só assim, equilibrando-nos neste fio tensionado da vida, teremos a plena certeza de que não fomos criados para sermos sós, que nenhuma vocação pode ser genuína se é egoísta e que devemos dividir com os demais toda essa preciosidade que carregamos “em vasos de barro’’. E gritaremos juntos ao poeta: “Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida / e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira” (Artigo 1º. “Os Estatutos do Homem”). 

REFERÊNCIAS:

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Disponível em: < https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html>. Acesso em 9 jun. 2026. 

MELLO, Thiago de. Os Estatutos do Homem. Disponível em: < https://armazemdetexto.blogspot.com/2018/10/poema-os-estatutos-do-homem-thiago-de.html>. Acesso em 9 jun. 2026. 

LOYOLA, Santo Inácio. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 2000. 

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