Giovani do Carmo Junior e Vinícius Pinto Alencar
Olá, querido leitor, e querida leitora
Neste mês de abril estamos refletindo sobre o V Congresso Vocacional do Brasil: caminhos, expectativas e espiritualidade tendo como foco os desafios das juventudes para a Animação e o Acompanhamento Vocacional na contemporaneidade. No primeiro texto, falamos dos obstáculos para uma compreensão alargada do fenômeno juvenil e vocacional. Na semana passada descemos um degrau para pisar mais o chão da realidade ao olhar para os modelos de comunidade construídos com e pelas juventudes. Voltamos nosso olhar para os desafios vividos devido à ampliação e à complexificação dos modos de ser jovem hoje no Brasil. Nossa intenção consiste em compreender como a complexidade da vida juvenil se relaciona, impacta, incide e é recebida nos processos de Animação e Acompanhamento Vocacional. Nesse contexto, a experiência vocacional se dá na complexidade do cotidiano e a vida das juventudes aponta que não podemos pensar essa experiência nos mesmos moldes de estabilidade, linearidade e definitividade que marcaram outros momentos históricos retilíneos.
Na conversa dessa semana pretendemos ampliar o diálogo tratando sobre as técnicas e estratégias que a Animação e o Acompanhamento Vocacional utilizam para responder aos “desafios” das juventudes. O problema parece ser um e a resposta parece ser outra. Os processos vocacionais, pressionados pelas disputas, acabam por se deixarem ser capturados e reproduzirem lógicas empresariais de marketing e propaganda buscando disputar narrativas, perspectivas e vontades. As propagandas vocacionais pressionadas pela “crise vocacional”, ausência de candidatos para um caminho e envelhecimento progressivo dos agrupamentos religiosos e clericais cedem espaço a estratégias guiadas pelo desespero dos números.
Iniciamos o percurso apontando dois principais fatores estruturais responsáveis por serem obstáculos à compreensão das gramáticas das juventudes. Por um lado, há uma melancolia não elaborada de uma perspectiva bastante determinada pela ideia de uma crise vocacional ocorrida pós-Concílio Vaticano II. Uma construção bastante enviesada, segundo a qual, o processo de aggiornamento provocado pelo Concílio fez com que o fenômeno social da secularização adentrasse ao ambiente eclesial provocando a crise que assistiríamos hoje (São João XXIII. Discurso de abertura do Concílio Vaticano II). Por outro lado, temos a manutenção discursiva e institucional de processos de animação e acompanhamento vocacionais pautados em lógicas adultocêntricas. Estes são como venenos ou machados que decepam qualquer germe possível de espaços de sociabilidade e socialização das trajetórias complexificadas das juventudes no horizonte vocacional.
O Congresso Vocacional deseja provocar a Igreja do Brasil a refletir sobre a natureza vocacional das comunidades eclesiais. São ambientes socioespaciais de construção de sentidos e relações capazes de promover o encontro com o Cristo e com os irmãos em um testemunho de vida que convoca à missão do Reino de Deus. A comunidade é, por excelência, o local onde os batizados aprofundam a sua vocação de discípulos-missionários de Jesus Cristo. “Nesse sentido, a comunidade local é uma comunidade vocacional quando, mediante as iniciativas de encontro com Cristo e com os outros ajuda os jovens a descobrir e amadurecer seus dons” (Texto-base. p.45), de modo que testemunhem em suas vidas que “o propósito da vida é ser para os outros” (Chistus Vivit, n. 253).
Portanto, nesta semana queremos refletir à luz da provocação do Congresso Vocacional sobre a base, a etapa de despertar vocacionalmente os jovens. O baixo número de vocações específicas é apenas um efeito da falência mistagógica de nossas comunidades em comunicar o querigma. Vocação consiste em compreender a vida de maneira dialógica em relação a Deus, a si e aos outros (Populorum Progressio. n. 15; Verbum Domini. n.77). Trata-se de um longo diálogo entre os jovens e Deus que a comunidade eclesial é responsável por despertar. Percebemos nas comunidades que os jovens se sentem fascinados pela descoberta de si mesmos e por aprenderem das atividades que desempenham, dos encontros e das relações” (XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Documento Final. n. 77). Contudo, escutamos deles também como tem sido cada vez mais difícil integrar as várias experiências e atividades reconhecendo Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus (Exercícios Espirituais. 235–236). Se todas as ações evangelizadoras são pro-vocativas, então a etapa de despertar consiste em comunicar e promover o querigama como encontro com uma Boa-Nova que integra fé e vida impulsionando a fazer do projeto de vida um ser com os demais (Texto-base. p. 41).
Comunidades pro-vocativas: enfrentar a falência mistagógica
No texto anterior tratamos de um processo de escuta realizado pela Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil no encontro da Área Pastoral Litorânea da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Na ocasião dentre os pontos trazidos pelos jovens como desafios à sua presença e vida nas comunidades eclesiais está a dimensão querigmática. Os jovens nos manifestaram que ainda há jovens nas comunidades que não conhecem e, por conseguinte, não experimentam o amor de Deus revelado em Jesus. Em um primeiro momento, a reação do grupo de escuta e dos líderes da comunidade foi interpretar a fala “não conhecem o amor de Deus” como um apelo conservador/tradicionalista de cunho moralista. Mas, em uma instância de escuta mais profunda, os jovens estão a nos dizer que as comunidades eclesiais se tornaram ambientes em que se defendem muitas doutrinas e estruturas, mas, por vezes, se provoca pouca experiência querigmática nas quais se sente e se saboreia o amor de Deus.
O primeiro passo é dar um passo atrás. Parece ser o movimento-convite efetuado pelo Congresso Vocacional. Ao invés de lançarmos o olhar para as vocações específicas e o terreno pedregoso de análise empreendido aí por vários estudiosos, a provocação é dar um passo atrás na direção da natureza querigmática das comunidades. O conteúdo é bastante certo, bem delimitado e já conhecido teoricamente por todos: Jesus Cristo. Conhece-se em teoria, mas o querigma provoca uma pergunta pela experiência. Quando começamos a refletir algumas perguntas já são imediatas: “Quem enviar a anunciar o mistério de Jesus? Com que linguagem anunciar um tal mistério? Como fazer para que ele ressoe e chegue a todos aqueles que o hão de ouvir?” (Evangelii Nuntiandi, n. 22).
A forma, o como, o modo, os meios … são as grandes preocupações atuais. A relação entre forma e conteúdo do anúncio ocupam um lugar específico na ação evangelizadora. A forma é fruto de uma cultura, de uma cristologia, de uma eclesiologia e assim por diante. Se “o ponto fundamental é discernir e descobrir que aquilo que Jesus quer de cada jovem é, antes de tudo, a sua amizade”, a questão é: como podemos provocar experiências de aproximação, encontro e acompanhamento que ajudem os jovens nesse discernimento querigmático da amizade com Cristo? (Christus Vivit, n. 250). Nem sempre a comunidade eclesial assume a atitude do Ressuscitado em relação aos discípulos de Emaús. “Às vezes predomina a tendência a oferecer respostas pré-fabricadas e receitas prontas, sem deixar sobressair as perguntas juvenis na sua novidade, nem entender a sua provocação” (Documento final, n. 8). Isso faz com que Jesus se torne uma resposta pronta ao invés de um encontro decisivo para vida.
Antes de qualquer estratégia, método, linguagem ou resposta pronta, é decisivo recuperar a palavra pró-vocativo. Ela não indica apenas algo que “favorece vocações”, mas remete ao seu núcleo etimológico: pro-vocare, isto é, chamar para fora, fazer emergir, convocar à existência consciente. Nesse sentido, o Congresso Vocacional parece querer suscitar a compreensão que uma comunidade eclesial é verdadeiramente vocacional não quando apresenta ou divulga vocações específicas, mas quando se torna um espaço onde a vida é continuamente interpelada, deslocada, provocada a sair de si mesma em direção ao sentido.
Aqui se encontra uma distinção fundamental: divulgar estados de vida não é o mesmo que despertar vocações. A divulgação opera no nível da informação e da escolha entre opções; o despertar, ao contrário, acontece no nível mais profundo da subjetividade, onde o sujeito é atingido por uma pergunta que o desinstala. Como afirma Christoph Theobald, a fé nasce quando o sujeito é introduzido em uma experiência que “o desloca de suas evidências e o abre a uma possibilidade inédita de existência” (Theobald, Christoph. Le christianisme comme style, 2007, p. 54. Tradução nossa).
Dessa forma, a comunidade pró-vocativa é, antes de tudo, uma instância geradora de perguntas, não de respostas prontas. Ela não organiza apenas itinerários, mas sustenta um ambiente simbólico e relacional onde a pergunta pelo sentido pode emergir com autenticidade. Isso implica compreendê-la como uma teia porosa, capaz de acolher a complexidade dos múltiplos modos de ser jovem hoje, sem reduzi-los ou enquadrá-los prematuramente.
Comunidades querigmáticas e mistagógicas: abertas à hospitalidade
A imagem da porosidade é particularmente fecunda. Uma comunidade porosa não é rígida nem impermeável; ela permite a circulação de experiências, linguagens, afetos e conflitos. Trata-se de um espaço onde diferentes trajetórias podem transitar, se encontrar e se tensionar, gerando um campo de ressonância existencial. Nesse sentido, podemos aproximar essa intuição da noção de “ressonância” em Hartmut Rosa, para quem a experiência significativa surge quando o sujeito é afetado pelo mundo e responde a ele de maneira implicada (Rosa, Harmut. Résonance: une sociologie de la relation au monde. p. 174. Tradução nossa).
Uma comunidade vocacional, portanto, é aquela que faz ressoar a vida. Não se trata de oferecer respostas vocacionais prontas, mas de criar condições para que o jovem se veja atravessado por questões fundamentais: Quem sou eu? Para que estou no mundo? Onde minha vida ganha sentido? Essas perguntas não são produzidas artificialmente; elas emergem quando o sujeito entra em contato com experiências que o tocam em profundidade, relações autênticas, testemunhos coerentes, práticas significativas, silêncio, oração, serviço.
É precisamente aqui que a dimensão mistagógica se torna decisiva. Uma comunidade que falha mistagogicamente é aquela que não consegue introduzir o sujeito nesse campo de experiência, reduzindo a fé a um discurso ou a um código moral que deve ser incutido a machado na vida das pessoas. Como observa Andrea Grillo, a falência atual não está na ausência de conteúdos, mas na incapacidade de gerar experiências que “toquem o corpo, o tempo e a intencionalidade do sujeito” (Grillo, Andrea. Além da secularização. p. 91). Sem essa mediação simbólica e experiencial, a comunidade perde sua capacidade de interpelar e, portanto, de despertar. Essa iniciação mistagógica significa essencialmente duas coisas:
a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã. Muitos manuais e planificações ainda não se deixaram interpelar pela necessidade duma renovação mistagógica, que poderia assumir formas muito diferentes de acordo com o discernimento de cada comunidade educativa (Evangelii Gaudium, n. 166).
Nesse horizonte, a função pró-vocativa da comunidade consiste em sustentar a tensão da pergunta, e não em apressar a resposta. Isso exige uma profunda conversão pastoral: passar de uma lógica de direcionamento para uma lógica de escuta, hospitalidade e potencialidade experiencial da complexidade. Como insiste José Tolentino Mendonça, “a fé não elimina a inquietação, mas a habita” (Mendonça, Tolentino. Elogio da sede. p. 63).
Comunidades vocacionais: ambientes socioespaciais de circulação do desejo
Essa inquietação é o que aqui podemos nomear como angústia fecunda. Longe de ser um problema a ser resolvido, ela é o sinal de que o sujeito entrou em contato com algo que excede suas certezas. Do ponto de vista antropológico e espiritual a angústia marca o momento em que o jovem percebe que sua vida não está dada, mas precisa ser construída. É o início de um processo de apropriação de si.
Nesse sentido, o despertar vocacional não é outra coisa senão o surgimento dessa angústia como pergunta pelo próprio lugar no mundo. Trata-se de um movimento interior no qual o sujeito começa a perceber que sua existência está aberta, que há algo a ser decidido, assumido, respondido pois “o desejo nasce onde há falta, onde algo não está plenamente dado” (Recalcati, Massimo. O Complexo de Telêmaco. p. 52).
Ora, é precisamente essa falta, essa incompletude estrutural, que a comunidade pró-vocativa deve saber acolher e sustentar, e não preencher precipitadamente. Quando a comunidade suporta essa tensão, ela se torna espaço onde o desejo pode emergir de forma autêntica. Quando não suporta, tende a substituí-lo por respostas rápidas, propostas fechadas ou estratégias de convencimento.
A porosidade comunitária, portanto, não é apenas sociológica, mas profundamente espiritual: ela diz respeito à capacidade de não controlar o processo, de permitir que o Espírito atue na história concreta dos sujeitos. Isso exige reconhecer que o despertar vocacional acontece sempre no entrelaçamento entre a história pessoal do jovem e a presença dinâmica de Deus que chama.
Aqui se revela o núcleo mais profundo da dinâmica pró-vocativa: a comunidade não chama em nome próprio, mas se torna mediação de um chamado que a precede. A experiência de Deus acontece no interior da própria experiência humana como seu horizonte último (Rahner, Karl. Curso fundamental da fé. p. 78). O processo de ampliação dos espaços de socialização fez com que, como tratamos no texto anterior, a experiência humana na contemporaneidade se alargasse para além das fronteiras da família, da escola e da Igreja. Mas, as comunidades eclesiais continuam a ser lugares privilegiados da experiência humana no Brasil. Então, a comunidade eclesial é um dos ambientes possíveis e férteis onde essa dimensão pode ser reconhecida, nomeada e acompanhada.
Quando essa dinâmica se realiza, a comunidade deixa de ser um espaço de recrutamento e se torna um ecossistema vocacional. Um ambiente onde diferentes modos de ser, crer e buscar coexistem, se tensionam e se iluminam mutuamente. É nesse campo vivo que o jovem pode experimentar algo decisivo: que sua vida é chamada, que sua existência tem uma direção possível, e que essa direção não lhe é imposta, mas proposta no interior de uma relação.
O primeiro passo: despertar vocacional
O despertar vocacional, assim compreendido, é o momento em que o jovem, atravessado por essa teia de relações, experiências e interpelações, começa a assumir a própria pergunta como sua. Não se trata ainda de uma resposta, mas de uma tomada de posição diante da própria existência. É o início de um caminho no qual o desejo, a liberdade e a graça entram em diálogo.
Se a comunidade perde essa capacidade de gerar pergunta seja por rigidez, seja por superficialidade ela deixa de ser pró-vocativa. E, nesse caso, o que resta são apenas tentativas de substituir artificialmente aquilo que só pode nascer no interior da experiência: o despertar, o espanto, a admiração, a tomada de consciência da pergunta fundamental.
Se a comunidade é esse espaço pró-vocativo, poroso e mistagógico, o que nela se desencadeia, quando fiel à sua natureza, é um processo concreto e profundamente humano, o despertar vocacional. Mas esse despertar não pode ser compreendido de forma abstrata ou idealizada. Ele acontece no interior da complexidade de ser jovem hoje, marcada por atravessamentos múltiplos: fragmentação de identidades, pluralidade de pertencimentos, instabilidade dos projetos de vida, intensificação das experiências afetivas e exposição constante a discursos que disputam o sentido da existência.
Nesse cenário, o despertar não é uma iluminação súbita nem uma decisão imediata. Ele é, antes, um processo de contato e construção do desejo. E aqui é fundamental compreender o que está em jogo quando falamos de desejo. Para Jacques Lacan, o desejo não é equivalente à necessidade nem à demanda. Ele é aquilo que permanece como resto, como falta estrutural que constitui o sujeito. “O desejo é o desejo do Outro” (Lacan, Jacques. Écrits. p. 690. Tradução nossa), isto é, ele se forma na relação, na linguagem, no campo simbólico que antecede o indivíduo. Isso significa que o jovem não “possui” um desejo pronto dentro de si; ele precisa entrar em contato com ele, reconhecê-lo, nomeá-lo, sustentá-lo na relação com o ambiente e as inter-ações.
Esse processo é tudo menos simples na contemporaneidade. O jovem está imerso em uma multiplicidade de discursos que oferecem objetos de desejo prontos: sucesso, visibilidade, estabilidade, reconhecimento, fama, poder, dinheiro, ostentação, libertinagem, sobrevivência etc. Nesse contexto, o despertar vocacional implica uma operação delicada: distinguir entre desejos induzidos e desejo próprio, entre aquilo que responde a expectativas externas e aquilo que emerge como movimento singular da subjetividade.
Para Jung, o processo de individuação é o caminho pelo qual o sujeito se torna aquilo que é, integrando as diversas dimensões de sua psique (Jung, Carl. Aion. p. 275). O despertar vocacional pode ser compreendido, nesse horizonte, como um momento desse processo: quando o jovem começa a perceber que sua vida não pode ser reduzida a papéis ou expectativas, mas precisa ser assumida como caminho singular que singulariza a própria existência.
Contudo, esse contato com o desejo não se dá sem conflito. Ele é atravessado por ambivalências, medos, resistências. É aqui que a angústia reaparece como elemento central. Em termos lacanianos, a angústia é o afeto que surge quando o sujeito se aproxima do seu desejo mais próprio (Lacan, Jacques. Seminário X. p. 85). Ela não é sinal de erro, mas de proximidade com algo essencial. A angústia é o afeto que nunca mente!
Despertar, portanto, é proporcionar experiências que possam ajudar os jovens a entrarem nessa zona de tensão onde percebem a pergunta fundamental pelo desejo que confronta a necessidade de escolher, de tomar uma decisão, de dar vazão ao desejo. Mas ainda não sabem como. Sentem que sua vida pede sentido e significado, porém não encontram seguranças ao medo infantil do abandono. Trata-se de um movimento de apropriação da própria existência, no qual o sujeito começa a assumir a responsabilidade por seu caminho. Sustentar o desejo em meio a tantas inconstâncias pessoais e sociais torna-se um trabalho árduo, pesado e de imensa coragem.
Pro-vocação ou captação de ativos vocacionais?
A existência humana oscila entre a autenticidade e a inautenticidade para Heidegger. A inautenticidade (das Man) é o modo de ser em que o sujeito vive segundo expectativas impessoais, dissolvendo-se no que “se faz”, “se diz”, “se espera” (Heidegger, Martin. Ser e Tempo. §27. p. 164). A autenticidade, ao contrário, emerge quando o sujeito assume sua própria existência como tarefa, como pro-jetar, especialmente a partir da experiência da angústia.
Aplicando essa chave ao campo vocacional, podemos dizer que o despertar é o movimento que conduz o jovem da inautenticidade para a possibilidade de uma vida autêntica. É quando ele deixa de apenas reproduzir discursos e começa a perguntar-se, de fato, pelo sentido de sua vida diante de Deus e do mundo. Deixa o campo da utilidade numérica, da manualidade de um fazer puro e simples, do funcionalismo burocrático do sagrado, para perguntar-se pelo sentido profundo da vida.
Ora, é precisamente esse processo que pode ser interrompido ou desviado quando a Animação Vocacional não cria condições para que aconteça. Quando não há espaço para a escuta, para a elaboração, para o tempo do sujeito, o que emerge não é o desejo, mas sua substituição, sua captura. É nesse vazio que se instala a lógica do empresariamento e do marketing vocacional.
Em tempos de crises econômica, social, psíquica, política, demográfica e ambiental, sobrepostas e simultâneas, abre-se um vácuo de sentido que draga a vida das juventudes de tal maneira a não ser possível encontrar autenticidade em um mundo de escombros. Para além dos perfis do Instagram, está “a virulência da sociedade em carne viva ou a vida nua e precária que muitos jovens já experimentam” (PEREIRA, 2024, p. 18.).
O sentido da vida passa a ser definido pela aniquilação de si em nome do sucesso, da eficácia, da competitividade e da produtividade. Um estado permanente de alerta de sobrevivência (Dilexit Nos, n. 218). Viver converteu-se em uma luta diária de “escapar da iminência da morte” (Foucault, Michel. Les mots et les choses. p. 269). Para sobreviver, é necessário aprender a ética das virtudes neoliberais cujo objetivo é ser um operador de performance.
Os indivíduos se autocompreendem como ‘empresários de si mesmos’ que definem a racionalidade de suas ações a partir da lógica de investimentos e retorno de ‘capitais’ e que compreendem seus afetos como objetos de um trabalho sobre si tendo em vista a produção de ‘inteligência emocional’ e otimização de suas competências afetivas (Safatle, Vladimir. A economia é a continuação da psicologia por outros meios. p. 30-31).
Nesse cenário há a juvenilização da vida. Ser jovem e demonstrar jovialidade na forma de ser, pensar e comunicar-se tornou-se marca de sucesso. Como categoria social, histórica, biológica e teológica, a noção de juventude é usada a partir de estereótipos: rebeldia, disruptividade, negação das instituições e autoridades. Ser jovem consiste é ter espírito alegre, leve, descontraído, divertido e super alto astral. Até pessoas idosas podem ter “alma de jovem”. Empreender dá voz a esse modelo juvenilizado da cultura. Por isso, o empresário de si mesmo é sempre retratado como um jovem que aproveita as oportunidades, arrisca e aprende com os erros para se aprimorar na arte de especular e prever lucros como em um game de estratégia (Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. p. 145)
A Animação vocacional converte-se em estratégias influencers com reels e cards disruptivos e outsiders. Recitam discursos vocacionais utilizando códigos de linguagem que beiram o mercado coach de mentoria. Porque o importante é não se desesperar diante da crise, mas ter inteligência emocional para ler o cenário, investir em um plano estratégico e ter coragem de inovar na convocatória. Os fracassos servem para um “otimismo cruel” de positividade tóxica. Incita-se projetar o futuro enquanto se frustra rotineiramente com o ideal.
Os efeitos numéricos não conduzem a uma análise estrutural dos fatores estruturadores. Pelo contrário, os animadores vocacionais têm assumido estratégias que duplicam a aposta que termina por retornar sobre os processos “como autoagressão”, ou incidem para fora, como ressentimento e solidariedade negativa” (Nunes, Rodrigo. Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição. p. 42). Adoção de mecanismos mercadológicos de propaganda e socialização, por um lado, ou, por outro lado, a incorporação de modelos e dinâmicas fechadas de proteção contra a secularização. Portanto, “o capitalismo é o que sobra quando as crenças colapsam ao nível da elaboração ritual e simbólica, e tudo o que resta é o consumidor-espectador, cambaleando trôpego entre ruínas e relíquias” (Fisher, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo? p. 13).
Quando a preocupação central passa a ser “gerar vocações” em termos quantitativos, o processo vocacional é reconfigurado segundo categorias de eficiência e adesão. Em vez de acompanhar o despertar do desejo, passa-se a produzir um desejo artificial, orientado por imagens idealizadas, clericalizadas e cristalizadas de determinados estados de vida. Uma sedução que não reprime, mas induz, orienta e otimiza os desejos (Han, Byung-Chul. Psicopolítica. p. 23). No campo vocacional, isso se traduz em propostas que capturam o imaginário sem necessariamente favorecer um processo de discernimento profundo que demanda tempo e tempo é algo que não se tem diante da “crise”.
Acompanhar os processos de discernimento das juventudes em meio às angústias
O resultado deste processo de marketing empresarial vocacional é uma forma de adesão que pode até ser imediata com alto índice de engajamento digital e presencial, mas carece de consistência em um segundo passo de aprofundamento. Trata-se de uma vocação construída mais sobre identificações externas do que sobre uma verdadeira elaboração subjetiva. Em termos heideggerianos, poderíamos dizer que se trata de uma escolha que permanece no nível do impessoal, sem atingir a dimensão da decisão autêntica.
Além disso, essa produção artificial do desejo tende a soterrar a angústia, oferecendo respostas antes mesmo que a pergunta se constitua. O jovem é empurrado a ocupar um lugar, a assumir um cargo, a aderir um papel social antes de ter podido tomar consciência de si, reconhecer-se no mundo e abrir-se às possibilidades que ressoam com seu desejo mais profundo. O processo, assim, se inverte: não é o desejo que conduz à forma de vida, mas a forma de vida que emoldura, enforma e cristaliza o desejo. O centro da vida não é o Reino de Deus, mas o estado clerical e suas implicações na sociedade brasileira contemporânea.
Diante disso, torna-se ainda mais evidente a importância de uma comunidade verdadeiramente pró-vocativa. Somente ela pode sustentar o tempo necessário para que o despertar aconteça, respeitando a complexidade do sujeito e a liberdade do chamado de Deus.
Despertar, em última instância, é permitir que o jovem faça a experiência de que sua vida não é um dado fechado, mas uma resposta em construção. É o momento em que ele começa a escutar, ainda que de forma incipiente, que há um chamado que atravessa sua história e que esse chamado não anula sua liberdade, mas a convoca à sua forma mais plena.
Se esse processo é respeitado, o despertar vocacional pode emergir como caminho autêntico. Se é substituído por estratégias de indução, o que se produz é apenas uma aparência de resposta frágil, instável e, muitas vezes, incapaz de sustentar o peso real da vida. Por isso, mais do que multiplicar métodos, a Animação Vocacional é chamada a uma tarefa mais radical, guardar o espaço do desejo, sustentar a angústia, acompanhar o processo. É nesse terreno, espiritual porque é humano, que o verdadeiro despertar pode acontecer.
A pedagogia de Jesus de Nazaré: discernimento do desejo
Nesse horizonte, a noção de captação de ativos vocacionais revela sua densidade mais crítica. Não se trata apenas de uma metáfora, mas da descrição de um modo de operar que, atravessado por uma ética utilitarista, reconfigura silenciosamente o sentido da vocação. A ética utilitarista, em sua formulação clássica estabelece como critério moral a maximização dos resultados, o maior bem para o maior número. Quando transposta, ainda que implicitamente, para o campo vocacional, essa lógica introduz um princípio perigoso, o valor do processo passa a ser medido por sua eficácia em gerar ingressos, sustentar estruturas e garantir continuidade institucional.
O sujeito corre o risco de ser compreendido não em sua singularidade, mas em sua capacidade de responder a uma demanda. A vocação deixa de ser um acontecimento entre duas liberdades e passa a ser pensada como recurso estratégico. A pergunta fundante quem és tu diante de Deus? é substituída por outra, mais funcional, onde você pode servir melhor?
Essa inflexão ética tem consequências diretas sobre a dinâmica do desejo e da angústia. Aquilo que não se ajusta à lógica da eficiência, da dúvida, da ambivalência, do tempo lento da elaboração, tende a ser percebido como obstáculo. O processo vocacional, então, se organiza não para sustentar a travessia, mas para otimizar a decisão. É nesse ponto que se intensifica o soterramento da angústia. Como podemos perceber, a angústia é o lugar onde o sujeito se descobre livre, diante do possível. Suprimi-la ou encurtá-la significa impedir que o sujeito se constitua plenamente. No entanto, sob uma ética utilitarista, não há espaço para esse tempo, é preciso decidir, avançar, definir.
O desejo é direcionado. A pergunta não se aprofunda, é respondida antecipadamente. Como consequência, forma-se um sujeito que adere, mas não necessariamente se reconhece; que ocupa um lugar, mas não o habita existencialmente. Trata-se de um desejo alienado, capturado pelo campo do Outro, sem ter sido apropriado pelo sujeito (Lacan, Jacques. Écrits. p. 690).
É nesse ponto que a crítica alcança sua dimensão eclesial mais aguda, a produção de comunidades vocacionais adoecidas. Adoecidas porque estruturadas sobre desejos frágeis, não elaborados, mas performados. Adoecidas porque compostas por sujeitos que não puderam atravessar sua própria angústia. Adoecidas porque sustentadas mais por função do que por sentido. São comunidades que funcionam, mas não respiram profundamente. Que mantêm formas, mas carecem de interioridade. Que perseveram externamente, mas internamente lutam com fissuras silenciosas.
E aqui, a reflexão precisa ser iluminada pelo próprio Evangelho. O modo como Jesus Cristo chama é radicalmente distinto de qualquer lógica utilitarista. Ele não otimiza resultados, não organiza adesões em massa, não responde à urgência da eficiência. Ao contrário, sua pedagogia é marcada por encontros singulares, perguntas abertas e liberdade radical. “Que procurais?” (Jo 1,38). “Queres ser curado?” (Jo 5,6). Jesus não oferece respostas prontas, Ele desperta a pergunta.
Mais ainda: não retira a angústia, mas convida que o sujeito possa elaborá-la à luz do Reino de Deus. Diante do jovem rico (Mc 10,17-22), não flexibiliza a exigência para garantir adesão. Permite, inclusive, que ele vá embora. Aqui não há captação, há respeito absoluto pela liberdade. Essa lógica evangélica desestabiliza profundamente qualquer tentativa de empresariamento da vocação. Porque revela que o chamado de Deus não se mede por número, nem se garante por estratégia. Ele se dá na liberdade e, por isso mesmo, comporta o risco da recusa.
Retomar essa perspectiva implica uma conversão exigente: passar de uma pastoral orientada por resultados para uma pastoral orientada pela verdade do encontro. Significa aceitar que nem todo processo resultará em ingresso. Que nem toda busca culminará em permanência. Que o critério último não é a eficácia, mas a fidelidade ao modo de Jesus.
E isso recoloca a Animação Vocacional em seu lugar mais próprio, não como gestão de vocações, mas como cuidado com o desejo. Cuidado que exige tempo. Que exige escuta. Que exige sustentar a angústia sem preenchê-la. Porque, no fundo, a questão permanece: queremos acompanhar sujeitos livres para responder ao chamado de Deus ou garantir respostas que sustentem nossas estruturas? A resposta a essa pergunta não se resolve em teoria. Ela se revela na forma concreta como acompanhamos, escutamos e sobretudo como somos capazes de esperar.
REFERÊNCIAS
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