Por Guilherme Freitas
O Carnaval segue sendo uma das maiores manifestações culturais do Brasil e, nos últimos anos, tem registrado crescimento expressivo de participação popular, especialmente após o período de isolamento provocado pela pandemia da Covid-19. De acordo com estimativas do Ministério do Turismo, o Carnaval de 2024 e 2025 deve ter mobilizado mais de 50 milhões de pessoas em todo o país, com destaque para o fortalecimento dos blocos de rua nas grandes cidades
Fonte: Ministério do Turismo
Somente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, as prefeituras e secretarias municipais estimaram a participação de milhões de foliões, com recordes no número de blocos cadastrados e na ocupação dos espaços públicos
Fontes: Prefeitura de São Paulo; Agência Brasil
Pesquisas de perfil do público indicam ainda que os jovens estão entre os principais participantes, especialmente nos blocos de rua, vistos como espaços abertos, democráticos e de convivência coletiva.
Fonte: Instituto Locomotiva
É nesse contexto que a Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil propôs um diálogo com Rodolfo José Fenille, que possui formação acadêmica em Filosofia, Teologia e Psicologia, é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana de São Paulo, onde também atua como professor convidado, e membro da International Winnicott Association (IWA).
A partir de sua formação e atuação, Rodolfo oferece uma leitura profunda do Carnaval como fenômeno social, cultural e humano, articulando juventudes, corpo, festa e espiritualidade encarnada na vida cotidiana.
O Carnaval como marca da identidade brasileira
Os números que indicam o crescimento da participação popular ajudam a compreender por que o Carnaval continua sendo um fenômeno central na sociedade brasileira. Para Rodolfo, essa força não é apenas estatística, mas profundamente simbólica.
“Primeiramente, é preciso lembrar que o Carnaval se ‘confunde’ com o Brasil, se ‘mistura’ com a história do Brasil enquanto sociedade. É impossível separar a imagem do Brasil da festividade do Carnaval e vice-versa. O Carnaval está muito enraizado na ‘alma’ do povo brasileiro como festa popular, independentemente das várias formas que a festa foi ganhando e continua a ganhar.”
Ele ressalta que, embora o Carnaval se manifeste de formas diversas pelo país, há um núcleo comum que o mantém vivo:
“O Carnaval do interior não é o mesmo das grandes cidades; o Carnaval dos estados do Nordeste, muitas vezes, não é o mesmo das regiões do Sul. Ainda assim, o Carnaval, enquanto festa de rua e do povo, se confunde com a própria identidade do país.”
Ao refletir sobre o contexto pós-pandêmico, período em que dados apontam uma retomada intensa das festas populares, Rodolfo propõe uma leitura histórica e simbólica:
“A pandemia — inclusive, iniciada logo após a festa do Carnaval — marcou profundamente esse processo. Foi como se o Carnaval tivesse fechado um ciclo e nos colocado em um recolhimento que durou muito mais tempo do que todos nós imaginávamos.”
Nesse sentido, o retorno massivo às ruas não representa apenas diversão, mas a reconstrução de laços sociais fragilizados pelo isolamento:
“Estamos assistindo a um ressurgimento cada vez maior das festas de rua. O Carnaval voltou às ruas, retomando um movimento que já existia antes, mas que foi resgatado como afirmação da própria identidade do povo brasileiro.”
Juventudes, corpo e presença coletiva
Pesquisas recentes sobre o perfil dos foliões mostram que os jovens são maioria entre os frequentadores dos blocos de rua, especialmente por se tratarem de eventos gratuitos, descentralizados e conectados à vida urbana. Esse dado ajuda a compreender a forte presença juvenil nas festas.
Fonte: Instituto Locomotiva / Agência Brasil.
Rodolfo lê essa realidade como expressão direta da vitalidade própria da juventude:
“É natural que vejamos, acima de tudo, nessas festas de rua retomadas pelo Brasil afora, uma presença muito expressiva da juventude. A ‘cara’ do Carnaval é a ‘cara’ da juventude, onde toda a sua força pede passagem para se expressar.”
Para ele, o corpo ocupa um lugar central nessa experiência, sobretudo em um contexto marcado pela virtualização das relações:
“A festa é um lugar de expressão profunda e isso não pode acontecer senão por meio da experiência corporal.”
Rodolfo também questiona leituras moralizantes que, historicamente, recaíram sobre o Carnaval e sobre os corpos:
“Os seres humanos não são etéreos; nós só existimos no corpo. Especialmente os jovens precisam do corpo para expressar toda a intensidade da vida que carregam.”
Festa, excessos e leitura da condição humana
Ao mesmo tempo em que os dados indicam crescimento da participação, o Carnaval costuma ser associado, no debate público, a excessos e riscos. Rodolfo propõe uma leitura mais cuidadosa e menos reducionista:
“É claro que existem excessos: na bebida, no uso de substâncias, ou até no desrespeito ao outro. Mas isso não significa que o excesso seja o Carnaval em si. Esses comportamentos aparecem na festa porque ela não é um espaço de controle. No entanto, o excesso talvez diga mais da pessoa do que da festa.”
Ele retoma a experiência pastoral de Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife por mais de duas décadas, conhecido por sua proximidade com o povo nordestino:
“Dom Hélder gostava de dizer ao povo: ‘brinque!’. Antigamente se falava ainda mais em ‘brincar o Carnaval’, uma expressão bonita que traduz bem o que o povo faz.”
Para Dom Hélder, explica Rodolfo, a festa tinha uma função profundamente humana e social:
“A festa, longe de ser uma anestesia social, era uma forma do povo descansar, celebrar e diminuir a dureza da vida. Para que, ao retornar ao cotidiano, pudesse levar consigo um pouco da alegria experimentada ao brincar o Carnaval.”
Espiritualidade, encarnação e a vida que se vive
Ao aprofundar a reflexão, Rodolfo propõe deslocar a espiritualidade de uma compreensão abstrata ou desvinculada da vida concreta. Para ele, uma das grandes tensões históricas da tradição cristã foi a tentativa de opor espiritualidade e mundo, fé e corpo, como se a experiência espiritual exigisse o enfraquecimento da vida.
“Durante séculos, a ideia de que a vida espiritual deveria servir para diminuir a força da vida ‘mundana’ permeou discursos, sermões e práticas religiosas penitenciais.”
Essa lógica, segundo ele, entra em crise quando a fé cristã é compreendida a partir da encarnação. Não se trata de negar o mundo, mas de habitá-lo de outra forma.
“Não há como falar de espiritualidade sem falar da carne humana, nem falar da carne humana sem uma dimensão espiritual.”
Rodolfo recorda que a própria teologia contemporânea ajudou a superar essa separação, especialmente a partir do Concílio Vaticano II. Ao citar o teólogo Yves Congar, ele afirma que, depois da encarnação, não é mais possível delimitar fronteiras rígidas entre o divino e o humano.
Essa perspectiva tem consequências diretas para a forma como se olha para experiências como o Carnaval. A festa, o corpo, o encontro e o desejo deixam de ser vistos como ameaças à vida espiritual e passam a ser compreendidos como lugares onde a vida acontece e, portanto, onde também se joga a experiência espiritual.
“Espiritualidade não se reduz às práticas religiosas; estas existem para alimentá-la, o que nem sempre acontece, pois também podem anestesiar.”
Para Rodolfo, quando a espiritualidade se desconecta da vida concreta, ela corre o risco de se tornar controle, repressão ou fuga. Ao longo da história, lembra ele, o corpo foi muitas vezes moralizado e regulado em nome de uma espiritualidade mal compreendida.
“Durante séculos, moralizamos os corpos por meio de crenças, leis e instituições. Ainda hoje, há leituras equivocadas que confundem ‘carne’ apenas com sexualidade, quando, na tradição cristã, carne diz respeito à condição humana concreta.”
Nesse sentido, experiências coletivas como o Carnaval acabam funcionando como um espelho da condição humana: revelam desejos, limites, excessos e também a necessidade profunda de alegria, descanso e celebração da vida.
Espiritualidade inaciana: exercício, experiência e discernimento da vida
É nesse horizonte que Rodolfo comenta sobre a espiritualidade inaciana como uma chave potente de integração entre fé e realidade. Para ele, Santo Inácio de Loyola oferece uma compreensão de espiritualidade profundamente encarnada, prática e existencial.
“Os Exercícios Espirituais propõem ganhar ‘musculatura espiritual’, assim como se exercita o corpo. Ascese significa exatamente isso: exercício.”
A espiritualidade, nessa perspectiva, não é algo separado do cotidiano, mas algo que se constrói na experiência concreta da vida. Inácio propõe experimentar, sentir, atravessar as experiências e, a partir delas, discernir.
“Inácio propõe experimentar as coisas e discernir o que é bom. Experiência e discernimento são palavras-chave da espiritualidade inaciana.”
Rodolfo faz questão de ligar diretamente essa compreensão ao Carnaval. Para ele, não há contradição entre festa e espiritualidade quando a vida é assumida como lugar teológico.
“E o que isso tem a ver com o Carnaval? Tudo. Experiência e discernimento na vivência da festa popular que nos caracteriza.”
Ao invés de negar o desejo, a espiritualidade inaciana convida a iluminá-lo. Rodolfo lembra que, em muitos contextos cristãos, o desejo humano foi reduzido quase exclusivamente à sexualidade e tratado como problema.
“A sexualidade não é o problema; ela se torna problemática quando é negada, temida ou vivida sem dimensão pessoal. O desejo humano é mais amplo e precisa ser discernido à luz do Evangelho.”
Esse discernimento, segundo ele, não acontece fora da vida, mas no interior das experiências humanas concretas, inclusive na festa, no corpo, no encontro e no descanso.
Ao final, Rodolfo retoma novamente Dom Hélder Câmara para sintetizar essa visão integradora:
“O Carnaval é festa popular, e a fé também é uma festa. Não há separação entre fé e realidade. Cultuar a Deus é cultivar a vida.”
E conclui com uma imagem forte, que amarra espiritualidade, cultura e cotidiano:
“Na raiz da palavra ‘culto’ está ‘cultivo’. Onde há cultivo da vida, há cultura humana.”
Sobre o entrevistado
Rodolfo José Fenille possui formação acadêmica em Filosofia, Teologia e Psicologia. É membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana de São Paulo, onde atua como professor convidado, e membro da International Winnicott Association (IWA). Atua na interface entre clínica, cultura e espiritualidade, com especial atenção às experiências humanas, à vida concreta e aos processos de discernimento.








