Horizontes éticos, cidadania ativa e os critérios para a decisão política no Brasil contemporâneo
Jeovany Wanderley do Nascimento
Repete-se quase como um mantra que as juventudes são o «futuro da nação». Só que jogar a relevância das juventudes para um amanhã distante é a forma mais sutil e eficiente de neutralizar a força delas no presente. No Brasil, onde cerca de 50 milhões de pessoas têm entre 15 e 29 anos, representando um quarto da nossa população (IBGE, 2024; Estatuto da Juventude, 2013), vivemos o ápice de incertezas profundas. Falar que o futuro é agora não é slogan de propaganda nem clichê otimista: é um papo de cidadania, papo reto sobre urgência (Papa Francisco, 2019). As juventudes não estão esperando a vida adulta chegar para existirem politicamente, nem vão aceitar caladas as crises que herdaram. Diante da emergência climática, do trabalho precarizado, do esgotamento mental e dos ataques à democracia, a questão real não é o que as pessoas jovens vão ser quando crescerem, mas que mundos estamos construindo hoje e quais critérios éticos guiam nossas escolhas no presente.
Existe um diagnóstico raso que confunde a distância dos partidos com desinteresse político. Só que os dados mostram o oposto. O ceticismo em relação aos partidos ou ao Congresso não é alienação, mas uma crítica afiada a um sistema que sempre invisibilizou as nossas vozes jovens (TSE, 2023; Conjuve, 2021). A política praticada pelas juventudes transbordou as urnas e os parlamentos: ela acontece nas redes sociais digitais, nos coletivos culturais das periferias, nos corres dos movimentos antirracistas, na pauta de gênero, na luta dos povos originários e no ativismo socioambiental. As juventudes sacaram que fazer política é um ato do dia a dia, está no consumo consciente, na linguagem, na ocupação das ruas e na cobrança firme por direitos.
Afinal, que mundos e horizontes as juventudes desejam construir? Longe do estereótipo de uma geração individualista, as periferias e centros urbanos revelam jovens correndo atrás de dignidade, sustentabilidade e bem-estar integral. O desejo por justiça socioambiental escancara como a crise climática atinge mais forte as populações vulneráveis. No campo do trabalho e da educação, o anseio é por oportunidades reais de futuro, exigindo o fortalecimento de políticas públicas brasileiras históricas como o Estatuto da Juventude, o Sistema Nacional de Juventude (SINAJUVE), a Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) e programas de acesso e permanência como o ProUni, o FIES e o ProJovem. Além disso, a saúde mental virou pauta política urgente: viver com equilíbrio emocional e apoio comunitário é direito básico contra a exaustão da precarização. As juventudes exigem mundos onde a diversidade de raça, gênero e orientação sexual sejam valorizadas, e não perseguidas.
Transformar esse desejo em mudança concreta exige transformar horizontes em critérios rigorosos de decisão política. Votar ou se engajar na comunidade não pode ser um disparo no escuro guiado por fake news, paixões personalistas ou manobras eleitoreiras. Para nós, as juventudes, o critério central deve ser o compromisso real com Políticas Públicas de Estado como a consolidação do Plano Nacional de Juventude (PNJ) e o financiamento contínuo da educação pública, da saúde e da segurança cidadã. Outro filtro inegociável é a defesa intransigente dos Direitos Humanos, o combate ao racismo estrutural e o rechaço total à utilização da religião como instrumento político, que divide a sociedade e distorce o debate democrático. Avaliar projetos pelo impacto efetivo na redução das desigualdades e na proteção da Casa Comum é a chave do voto e da ação consciente.
Claro que o caminho tem pedras pesadas. A indústria da desinformação, movida por algoritmos e bolhas de polarização, tenta diariamente apagar a memória histórica das juventudes e esfarelar os laços gerados em comunidade. O discurso do “vencer sozinho” no ambiente digital vende a falsa ideia de meritocracia, jogando nas costas do indivíduo o peso de desigualdades que são estruturais e estruturantes, durante toda nossa história e construção social e que hoje, perpassa todos os aspectos de nossas vidas. Enfrentar esse cenário exige postura crítica e a recusa frontal da “cultura do descarte”, que trata vidas e recursos naturais como coisas descartáveis. Quando as juventudes se conectam em rede e exigem a verdade contra os discursos de ódio, elas protegem o espaço público e mostram que ninguém se emancipa isolado.
Pensando na ética do cuidado, construir o agora não é um peso só para os ombros das juventudes, mas um dever compartilhado por toda a sociedade civil, educadores, gestores públicos e comunidades de fé. Não adianta chamar as pessoas jovens apenas para compor plateia ou ilustrar panfleto de campanha: é preciso garantir escuta ativa, participação deliberativa e espaço real nas tomadas de decisão, nos espaços de poder e na construção de políticas públicas de qualidade e efetivas. É hora de o mundo adulto reconhecer as juventudes como sujeitos de direitos e parceiras legítimas na construção do Pacto Social. Ao mesmo tempo, cabe às próprias juventudes exercitarem o discernimento político contínuo avaliando o impacto de cada escolha no bem comum. A cidadania verdadeira nasce da liga entre a coragem profética das juventudes e o compromisso ético das instituições em garantir chão firme para que todas as vidas floresçam.
O futuro não é um lugar parado para onde caminhamos no piloto automático; é um território disputado e construído a cada escolha que fazemos agora no presente. É algo sim que sonhamos, mas não sonhamos dormindo, sonhamos acordados e agindo, esperançando como já disse Paulo Freire. Se queremos mundos mais justos, inclusivos, sustentáveis e democráticos, a hora de agir é já. Que os horizontes da dignidade humana, da justiça socioambiental e da defesa da democracia continuem guiando nossos critérios de decisão e mobilização. O amanhã das juventudes brasileiras não é uma promessa distante no calendário: o futuro é o trabalho, a luta e a esperança ativa do agora.
Sobre o autor:
Jeovany Wanderley do Nascimento: Graduado em Gestão de Recursos Humanos e Pedagogia, com especialização em Políticas Educacionais e Gestão Escolar. Atua como analista pedagógico na Coordenação Pedagógica Nacional da Fundação Fé e Alegria Brasil, contribuindo para o desenvolvimento e o acompanhamento de ações educativas da instituição.
Referências:
ATLAS DAS JUVENTUDES. Atlas das Juventudes: panorama da população jovem no Brasil. Coordenação de Marcelo Neri. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas (FGV Social), 2021.
BRASIL. Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013. Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2013.
CONJUVE — Conselho Nacional da Juventude. Relatoria de Evidências sobre as Políticas de Juventude no Brasil. Brasília: CONJUVE / Instituto Cíclica, 2021.
IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2022-2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit: aos jovens e a todo o Povo de Deus. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2019.
TSE — Tribunal Superior Eleitoral. Dados de filiação partidária e participação política de jovens e mulheres. Brasília: TSE, 2023.







