Incomunicação e juventudes 

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Grupo de jovens e adultos reunidos para uma foto durante atividade formativa, em ambiente interno, com painel rosa ao fundo.

Ricardo Alvarenga

Nunca tivemos tantos meios para falar com os jovens. Mas isso significa que estamos conseguindo nos comunicar com eles? Quando um adulto afirma que “os jovens de hoje não sabem ouvir”, quem está tendo dificuldade de escutar quem? Quantas vezes convidamos jovens para falar quando, no fundo, já sabemos quais respostas gostaríamos de ouvir? Uma comunidade pode estar presente em todas as redes sociais e, ainda assim, estar distante dos jovens? Essas são algumas das perguntas que vão nos acompanhar durante este mês de setembro, em uma série de reflexões semanais sobre comunicação com jovens, que compartilharei aqui na seção de artigos da Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil. 

É importante demarcar, desde já, que nosso ponto de partida será o campo da Comunicação, evidentemente em diálogo com outros saberes que nos ajudam a compreender a complexidade das experiências juvenis, mas sem perder de vista esse chão de reflexão. Nesta primeira reflexão, quero propor um itinerário que nos ajude a questionar uma leitura excessivamente técnica das dificuldades de comunicação com os jovens. Talvez seja necessário dar um passo além do discurso sobre a falta de domínio das tecnologias, das linguagens ou daquele argumento simples, e muitas vezes recorrente, de que “os jovens não entendem ou não querem ouvir aquilo que queremos dizer”. Porque talvez o problema não esteja apenas na transmissão. Talvez ele comece justamente quando aquilo que desejamos comunicar encontra alguém que é livre para interpretar. 

Quando falar não basta 

Dominique Wolton, em Informar não é comunicar (2011), ajuda-nos a compreender esse deslocamento. Um dos grandes desafios contemporâneos está justamente em reconhecer que o aumento extraordinário da quantidade de informações disponíveis e das possibilidades tecnológicas de transmissão não produz, automaticamente, maior comunicação. Isso ocorre porque informação e comunicação não são sinônimos. A informação está mais diretamente relacionada à mensagem; a comunicação introduz uma questão muito mais complexa: a relação com o outro. 

Nas palavras de Wolton: “A revolução do século XXI não é a da informação, mas a da comunicação. Não é a da mensagem, mas a da relação” (Informar não é comunicar, p. 15). Esse deslocamento da mensagem para a relação parece especialmente importante quando pensamos no acompanhamento das juventudes. Podemos preparar conteúdos, dominar ferramentas, conhecer plataformas, planejar estratégias e falar utilizando linguagens que julgamos próximas das experiências juvenis. Nada disso, entretanto, garante que haverá comunicação.  

Porque entre aquilo que alguém diz e aquilo que o outro compreende existe um sujeito e esse sujeito interpreta. Wolton utiliza uma imagem bastante provocadora para explicar esse cenário: sonhava-se com uma aldeia global, mas chegamos, em muitos aspectos, a uma torre de Babel. Quanto mais as informações circulam e quanto mais diferentes sujeitos entram em contato, mais visíveis também se tornam as diferenças de experiências, culturas, valores, interpretações e visões de mundo. É justamente aí que aparece aquilo que se denomina incomunicação. 

A incomunicação começa no encontro com o outro 

A incomunicação pode ser compreendida, inicialmente, como aquele momento em que a intenção de comunicar encontra a resistência da realidade: o outro não compreende exatamente como esperávamos, interpreta de maneira diferente, não concorda ou simplesmente rejeita aquilo que lhe é proposto. Por isso, a incomunicação não é necessariamente um defeito que surge porque utilizamos a ferramenta errada ou nossa mensagem não foi suficientemente eficiente. Pode nascer justamente porque existe um outro. 

Um outro que não é extensão daquele que comunica. Um outro que possui história, experiências, repertórios, expectativas, afetos e modos próprios de compreender o mundo. Nesse sentido, o cancioneiro brasileiro oferece imagens interessantes para traduzir aquilo que a teoria da Comunicação nos ajuda a conceituar. Raul Seixas, na música Meu Amigo Pedro, nos lembra que “cada um de nós é um universo”. Marisa Monte, décadas depois, nos convida a entrar com cuidado em seu Infinito Particular

A imagem do “infinito particular” parece especialmente fecunda para pensarmos a comunicação. Diante de nós existe sempre alguém cuja interioridade não pode ser completamente prevista, decodificada ou reduzida às expectativas daquele que fala. Se cada sujeito é, de algum modo, um universo, comunicar significa aceitar que jamais teremos controle absoluto sobre aquilo que acontece quando nossa palavra encontra o mundo do outro. É exatamente aí que a transmissão se transforma em comunicação. 

O receptor não é uma superfície vazia sobre a qual depositamos mensagens. Ele seleciona, interpreta, aceita, rejeita, questiona e negocia. Por isso, afirma: “Ontem, comunicar era transmitir, pois as relações humanas eram frequentemente hierárquicas. Hoje, é quase sempre negociar” (Informar não é comunicar, p. 19). Temos, então, uma mudança bastante significativa. A pergunta deixa de ser apenas: como fazer minha mensagem chegar ao outro? E passa também a ser: o que acontece quando minha mensagem encontra um outro que pode não pensar como eu? É nessa passagem que a incomunicação se torna uma questão propriamente comunicacional. 

Da incomunicação à negociação 

O esquema proposto por Wolton pode ser compreendido em cinco movimentos que ajudam bastante nossa reflexão. Primeiro, a comunicação é inerente à condição humana: viver significa entrar em relação, falar, trocar, desejar comunicar. Segundo, comunicamo-nos movidos por diferentes desejos, especialmente compartilhar, convencer e seduzir. Terceiro, aquilo que desejamos comunicar encontra o receptor e pode esbarrar na incomunicação. O outro não está necessariamente “sintonizado” conosco. Pode compreender diferentemente ou simplesmente discordar.  

É nesse ponto que surge o quarto movimento: a negociação. Se os sujeitos pretendem permanecer em relação, precisam reconhecer que aquilo que os separa não desaparecerá apenas porque mais informações foram oferecidas. Será necessário construir alguma possibilidade de negociação entre posições, interpretações e expectativas diferentes. Finalmente, o quinto movimento é a convivência, compreendida como resultado positivo dessa negociação. 

Temos, portanto, um percurso que pode ser particularmente fecundo para quem trabalha com acompanhamento: comunicação, incomunicação, negociação, convivência. O mais importante aqui talvez seja perceber que a negociação e a convivência não eliminam definitivamente a incomunicação. Ao contrário, são respostas comunicacionais. A incomunicação permanece como uma possibilidade porque a diferença permanece. E, talvez, seja justamente esse o ponto que nos permite olhar novamente para o acompanhamento das juventudes. 

O que isso muda quando acompanhamos jovens? 

Talvez uma das principais consequências dessa perspectiva seja relativamente simples de formular, embora seja bastante exigente de colocar em prática: acompanhar não é produzir concordância. Quando nos aproximamos de um jovem, não estamos diante de uma tábula rasa, de uma tela em branco ou de alguém cuja principal tarefa seja receber aquilo que temos para transmitir. Estamos diante de um sujeito. 

Talvez, nesse sentido, aproximar-se da experiência juvenil exija algo semelhante à atitude simbolizada na narrativa bíblica de Moisés diante da sarça: retirar as sandálias porque se pisa em um terreno que não nos pertence. A imagem ajuda a compreender que o mundo do outro precisa ser acessado com cuidado. Não porque seja inacessível, mas por não nos pertencer previamente.  

Isso altera profundamente a lógica do acompanhamento. Em vez de partirmos da pergunta “por que os jovens não compreendem aquilo que queremos dizer?”, podemos suspeitar da própria formulação da pergunta. Pois, ela pressupõe que nós já possuímos aquilo que precisa ser compreendido e que o problema está exclusivamente do outro lado: no jovem que não ouviu, que não compreendeu, que não domina determinada linguagem ou que não reconheceu aquilo que a chamada voz da experiência tentou ensinar. 

E se a comunicação não for simplesmente isso? E se aquilo que chamamos de dificuldade de comunicação for, em algumas circunstâncias, justamente o encontro entre experiências diferentes? E se o jovem compreender aquilo que dizemos e, ainda assim, discordar? E se responder de uma maneira que não havíamos previsto? E se formular uma pergunta para a qual não temos resposta? 

Se existe um outro sujeito livre diante de nós, haverá sempre a possibilidade de interpretação, discordância e incomunicação. O desafio não consiste necessariamente em corrigir imediatamente essa diferença, mas em construir condições para que possa ser negociada sem que a relação seja destruída. Por isso, comunicar demanda algo que nenhuma inovação tecnológica consegue produzir automaticamente: tempo, respeito e confiança mútua. Podemos estar presentes nas redes utilizadas pelos jovens, dominar plataformas, produzir vídeos, podcasts, reels, stories e utilizar os recursos tecnológicos mais recentes. Tudo isso pode ser importante para acompanhar as juventudes. Contudo, mesmo que a tecnologia facilite o contato, a comunicação exige ir além dele: exige relação. 

A diferença não precisa desaparecer 

É neste ponto que encontramos um importante interlocutor, Paulo Freire. Em Pedagogia do Oprimido (1987), oferece uma reflexão particularmente interessante ao tratar da síntese cultural. Uma relação dialógica não precisa negar as diferenças entre distintas visões de mundo. Pelo contrário, “a síntese cultural não nega as diferenças entre uma visão e outra, pelo contrário, se funda nelas” (p.106).  

Essa perspectiva estabelece uma aproximação fecunda com aquilo que estamos discutindo. A comunicação encontra a incomunicação e, por isso, exige negociação. O encontro entre sujeitos não precisa resultar na invasão do mundo de um, pelo mundo do outro. Em ambos os casos, há uma ideia decisiva: a diferença não precisa desaparecer para que exista relação. Reconhecer isso, confesso, é particularmente desafiador também para mim. 

Talvez um dos maiores desafios do acompanhamento das juventudes esteja justamente aí: abandonar a expectativa de que uma boa comunicação é aquela na qual, ao final, todos interpretam da mesma forma, pensam da mesma maneira ou chegam necessariamente às respostas previamente desejadas. Comunicar pode significar aprender a conviver também com aquilo que permanece diferente e que é irredutivelmente diferente. 

Nesse sentido, voltamos ao “infinito particular” de Marisa Monte e ao universo particular de cada sujeito lembrado por Raul Seixas. Não se trata de romantizar a diferença nem de afirmar que qualquer interpretação é suficiente. Trata-se de reconhecer que não existe comunicação humana sem a presença irredutível do outro. E isso exige de quem acompanha afetividade, compromisso, abertura, tempo, respeito e disposição para negociar sentidos. Talvez possamos, então, terminar esta primeira reflexão mudando a pergunta com a qual começamos. 

Em vez de perguntarmos apenas: Por que os jovens não entendem aquilo que queremos comunicar? Talvez seja necessário perguntar: O que acontece conosco quando aquilo que os jovens compreendem, pensam ou dizem não corresponde ao que esperávamos ouvir? A diferença entre essas duas perguntas parece pequena, porém, muda profundamente o lugar a partir do qual pensamos a comunicação. Na primeira, o problema está no jovem que não compreendeu. Na segunda, o problema está na relação e é justamente essa mudança de perspectiva que nos conduz à próxima reflexão. 

Porque, se a diferença é constitutiva da comunicação, precisamos perguntar o que acontece quando essas diferenças deixam de ser apenas diferenças e passam a ser organizadas hierarquicamente. O que acontece quando a experiência adulta é considerada previamente mais legítima, madura ou autorizada do que a experiência juvenil? Quando isso acontece, já não estamos tratando apenas de incomunicação. Estamos diante de um problema que atravessa muitas relações entre adultos e jovens: o adultocentrismo. 

Referências 

ANTUNES, Arnaldo; MONTE, Marisa; BROWN, Carlinhos. Infinito particular. In: MONTE, Marisa. Infinito particular. [S. l.]: Phonomotor Records/EMI, 2006. CD, faixa 1. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 

SEIXAS, Raul; COELHO, Paulo. Meu amigo Pedro. In: SEIXAS, Raul. Há 10 mil anos atrás. [S. l.]: Philips/Phonogram, 1976. LP, lado A, faixa 2. 

WOLTON, Dominique. Informar não é comunicar. Trad. Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2011. 

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