Padre Laércio, SJ
Vivemos um tempo em que aprender deixou de ser uma etapa da vida para tornar-se uma atitude permanente. Quem acompanha pessoas sabe que nunca chega ao ponto de poder dizer: “já sei tudo”. Há sempre novos caminhos, novas perguntas e novas formas pelas quais Deus continua a conduzir a história.
Quando pensamos nas juventudes, essa disposição para aprender torna-se ainda mais necessária. Os jovens costumam caminhar alguns passos à frente das demais gerações. Não porque tenham todas as respostas, mas porque vivem a realidade com rapidez, sensibilidade e coragem para experimentar o novo. Percebem mudanças antes de muitos de nós, formulam perguntas inéditas e desafiam estruturas que pareciam inquestionáveis.
Por isso, a animação vocacional e o acompanhamento dos jovens não são apenas um serviço que a Igreja oferece; são também uma oportunidade privilegiada para que a própria Igreja aprenda. Não existe acompanhamento verdadeiro quando nos aproximamos dos jovens apenas para ensinar. Acompanhar é também deixar-se evangelizar por eles, acolhendo aquilo que o Espírito Santo realiza em suas vidas.
Como pano de fundo desta reflexão, proponho a parábola do Pai misericordioso (Lc 15, 11-32). Costumamos olhar para ela a partir da conversão do filho mais novo ou da misericórdia do pai. Entretanto, ela também pode ser lida como uma grande escola de aprendizagem. O filho mais novo teve a ousadia, quase escandalosa, de pedir sua herança e partir. Desejou construir o próprio caminho, experimentou a liberdade, desperdiçou seus bens, conheceu o fracasso, a fome, a solidão e, finalmente, decidiu voltar para casa. O caminho da partida e o caminho do retorno tornaram-se lugares de transformação.
Curiosamente, a casa permaneceu sendo sua referência em ambos os momentos. Foi dali que partiu e foi para ela que voltou. Isso nos recorda que a missão da comunidade cristã não é impedir que os jovens façam perguntas ou enfrentem desafios, mas permanecer como uma casa aberta, onde sempre seja possível recomeçar.
No itinerário vocacional acontece algo semelhante. A vocação não nasce da ausência de perguntas, mas exatamente da coragem de formulá-las. Não existe discernimento sem liberdade, nem amadurecimento sem aprendizagem. A construção da identidade vocacional passa inevitavelmente pelos sonhos, pelas buscas, pelas dúvidas e até pelos equívocos que fazem parte do crescimento humano.
Talvez pensemos que esse jovem do Evangelho pertence apenas ao passado. No entanto, continua vivo em cada jovem de hoje. Suas perguntas são diferentes, mas a sede de sentido permanece a mesma. Também as juventudes contemporâneas desejam sair pelo mundo, experimentar, descobrir seu lugar e encontrar aquilo que dá unidade à própria existência. Nesse sentido, uma das primeiras lições que aprendemos com as juventudes é a coragem de romper esquemas. Os jovens nos lembram que Deus continua abrindo caminhos novos e que o Espírito Santo nunca se deixa aprisionar por modelos rígidos. Coragem, ousadia, criatividade e liberdade continuam sendo marcas profundamente juvenis e, ao mesmo tempo, profundamente evangélicas.
Também o pai da parábola precisou aprender. Aprendeu na dor da partida, na espera silenciosa e, sobretudo, na alegria do reencontro. Quando o filho retorna, não exige explicações nem faz cobranças. Antes de qualquer palavra, oferece um abraço. Antes de qualquer julgamento, devolve-lhe a dignidade. A misericórdia torna-se, assim, o verdadeiro método de acompanhamento.
Talvez essa seja uma das maiores aprendizagens para quem trabalha com vocações: acompanhar não significa controlar processos, mas criar condições para que cada pessoa descubra, em liberdade, a vontade de Deus. Não somos donos da vocação de ninguém. Somos apenas companheiros de caminho, atentos aos sinais da ação do Espírito.
As juventudes também nos ensinam que a vida não é uma realidade acabada. Tudo está em processo. Tudo pode ser retomado. Em uma cultura marcada por mudanças rápidas, elas nos recordam que sempre existe possibilidade de recomeço. A vocação, antes de ser um ponto de chegada, é um caminho que vai sendo construído diariamente.
Outra aprendizagem importante diz respeito à busca de sentido. Muitas vezes ouvimos que os jovens vivem dispersos ou superficiais. Entretanto, quando são escutados com atenção, percebemos que carregam perguntas extremamente profundas: “Quem sou?”, “Para que vale a pena viver?”, “Como encontrar felicidade?”, “Onde Deus me chama a servir?”. O desejo de sentido permanece vivo, ainda que seja expresso em novas linguagens.
É justamente por isso que o acompanhamento espiritual se torna cada vez mais necessário. Em meio a tantas possibilidades e estímulos, os jovens necessitam de pessoas que caminhem ao seu lado, não para decidir por eles, mas para ajudá-los a reconhecer a voz de Deus em meio às muitas vozes do mundo. O discernimento continua sendo um dos maiores serviços que a Igreja pode oferecer às novas gerações.
As juventudes ainda nos ensinam a acolher a diversidade da vida. Cada jovem possui sua história, suas fragilidades, suas feridas, seus talentos e seus tempos. Não existem processos vocacionais padronizados. Cada caminho é único porque cada pessoa é única diante de Deus. Por isso, torna-se cada vez mais necessário abandonar posturas marcadas pela rigidez, pela prepotência ou pela simples aplicação de normas.
O irmão mais velho da parábola representa justamente esse risco: incapaz de compreender o caminho do outro, permanece preso à lógica do mérito e perde a alegria da misericórdia. Os jovens de hoje estão cansados de discursos que não encontram correspondência na vida. Procuram testemunhos coerentes, relações verdadeiras e pessoas capazes de escutar sem julgar. Esperam menos respostas prontas e mais presença. Menos teorias e mais humanidade.
Talvez seja esta a maior aprendizagem da animação vocacional hoje: compreender que cada jovem vale infinitamente a pena. Cada história merece ser escutada. Cada encontro pode tornar-se um lugar de manifestação de Deus.
Os jovens nos empurram para frente, desafiam nossas seguranças e alargam nossos horizontes. Em contrapartida, nossa missão consiste em ajudá-los a caminhar para dentro de si mesmos, onde Deus continua falando no silêncio da consciência e no discernimento da vida.
Eis uma das mais belas parcerias que a Igreja pode viver: aprender com os jovens para ajudá-los a descobrir, com liberdade e alegria, o sonho de Deus para suas vidas.







