Formação do MAGIS Brasil articula fé, direitos e ação a partir da realidade das ruas no país
Guilherme Freitas via MAGIS Brasil
O curso sobre população de rua, intitulado Os Direitos das Pessoas em Situação de Rua, promovido pela Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, encerrou sua segunda edição reunindo mais de 200 participantes de todo o Brasil.
Ao longo de sete semanas, a formação consolidou-se como um espaço de articulação nacional. Mais de 110 participantes alcançaram a certificação, resultado de um processo que exigia presença mínima de 75% nos encontros, evidenciando compromisso e permanência
Mais do que uma proposta formativa, o percurso conectou esperança, direitos humanos e ação concreta. A experiência mostrou que compreender a realidade das ruas exige escuta, vínculo e posicionamento ético diante das desigualdades.
Formação que parte da realidade e fortalece práticas
Um dos aspectos mais relevantes do curso foi o perfil dos participantes. Mais de 50% já atuavam diretamente com a população em situação de rua
Isso significa que a formação não começou do zero. Ela se inseriu em práticas já existentes, ajudando a qualificá-las e ampliá-las.
A diversidade territorial marcou o processo. Participaram pessoas de todas as regiões do país, vindas de capitais, cidades médias e pequenos municípios. Estudantes, agentes pastorais, profissionais e voluntários compartilharam experiências concretas.
Essa pluralidade criou um ambiente de aprendizado vivo, onde diferentes realidades dialogaram e se reconheceram.
Juventudes que descobrem caminhos e assumem compromisso
O impacto do curso sobre os direitos das pessoas em situação de rua aparece com força nos relatos dos participantes, especialmente entre os mais jovens.
“Conhecer os direitos, conhecer as leis, as organizações, as relações e as possibilidades me ajudou a entender o que posso fazer diante da realidade.”
— Dominique Araújo Paiva, 18 anos, de Florianópolis (SC)
A presença juvenil revela um dado importante: o curso não apenas forma, mas orienta caminhos de atuação.
Entre aqueles que já atuam, a formação amplia horizontes e aprofunda o compromisso.
“Trabalho com Refeição Solidária, atendendo uma necessidade básica da população em situação de rua. Mas nosso maior anseio é ver estas pessoas saírem da rua. O curso dá muita luz sobre isso.”
— Priscila Sampaio Szauter Pereira, 34 anos, de Santo André (SP)
Outros relatos evidenciam a transformação na forma de compreender a realidade.
“Aprendi que a população de rua não é um ‘problema social’, mas um conjunto de histórias, nomes e rostos que revelam o próprio Cristo.”
— Alberto Conceição Lima, 43 anos, de São Sebastião do Passé (BA)
“Construímos coletivamente saberes fundamentais para uma atuação mais humana, inclusiva e comprometida com a equidade.”
— Ana Cristina Lopes, 53 anos, de Fortaleza (CE)
A dimensão humana também aparece com força nas experiências partilhadas.
“Atuar nesse cenário exige mais do que técnica; exige humanidade, escuta ativa e uma crença no potencial de cada indivíduo.”
— Gleiciane de Moraes Zioto, 44 anos, de Belo Horizonte (MG)
“Este curso não termina aqui dentro de mim. Ele continua nas minhas atitudes e no compromisso de ser instrumento de mudança.”
— Juliana Ricci, 40 anos, de Votuporanga (SP)
Uma formação participativa que gera vínculo e consciência
A estrutura do curso foi pensada para ir além da transmissão de conteúdo. As aulas gravadas garantiram base teórica acessível, enquanto os encontros síncronos priorizaram a troca de experiências.
A proposta colocou os participantes no centro do processo formativo. O método participativo incentivou escuta, reflexão e construção coletiva.
Ao longo dos encontros, uma constatação se repetiu: a realidade da população em situação de rua é marcada por desafios estruturais, mas também por iniciativas de resistência e cuidado nos territórios.
As discussões revelaram dificuldades comuns como acesso a serviços, burocracias e preconceitos institucionais e, também, apontaram caminhos possíveis, construídos a partir da prática cotidiana.
Moradia como direito e ponto de partida
A condução da professora Dra. Luciana Marin Ribas foi decisiva para aprofundar o debate.
A formação provocou uma mudança de chave: superar o assistencialismo e reconhecer a moradia como direito humano fundamental.
“A lógica tem que ser moradia, moradia primeiro”, afirma
O curso abordou temas como políticas públicas, assistência, saúde, trabalho e acesso à justiça. Também destacou o papel das estruturas sociais na produção da exclusão.
A partir disso, os participantes foram convidados a compreender a situação de rua não como um caso isolado, mas como expressão de violações sistemáticas de direitos.
Uma rede que continua para além do curso
O encerramento da formação não representou um ponto final.
No último encontro, os participantes se organizaram por regiões do país. A partir dessa articulação, surgiram grupos de comunicação, iniciativas locais e espaços de continuidade.
O movimento revela que o curso sobre população de rua gerou mais do que aprendizado: ativou uma rede comprometida com transformação social.
A experiência mostrou que, quando pessoas se conectam em torno de uma causa comum, novas possibilidades de ação emergem.
Formação que reafirma a missão do MAGIS Brasil
Para Giovani do Carmo, coordenador dos eixos Pedagogia da Formação e Voluntariado e Inserção Sociocultural do Programa MAGIS, o curso confirma um caminho essencial para a rede:
“Unir fé e vida na formação de jovens e acompanhadores é um desejo profundo da nossa missão”, afirma
A iniciativa está em sintonia com as Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus. Ela fortalece o compromisso com a justiça socioambiental, a dignidade humana e o acompanhamento das juventudes.
Ao articular espiritualidade inaciana, formação crítica e ação concreta, a Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil reafirma sua missão de formar jovens capazes de ler a realidade, se deixar afetar por ela e agir coletivamente, tornando-se, na prática, contemplativos na ação.
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