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Paulo Miki, João de Goto e Tiago Kisai: testemunhas de um discernimento vivido até as últimas consequências
A história dos mártires do Japão não é apenas um relato heroico do passado. Ela continua sendo, ainda hoje, um apelo vivo ao seguimento radical de Jesus. Entre esses testemunhos luminosos, destacam-se três jesuítas: Paulo Miki, João de Goto e Tiago Kisai, cujas vidas, marcadas por escolhas concretas, nos ajudam a compreender o que significa responder com liberdade, coragem e amor ao chamado de Deus.
Paulo Miki: discernir para anunciar
Desde jovem, Paulo Miki percebeu que sua inteligência, sensibilidade e capacidade de comunicação eram dons a serviço de algo maior. Educado pelos jesuítas, aprofundou-se tanto na fé cristã quanto no pensamento budista, não para vencer debates, mas para encontrar pontes, dialogar e anunciar o Evangelho com verdade e respeito.
Seu discernimento o levou a reconhecer que sua vocação era tornar-se ponte, alguém capaz de traduzir a Boa-Nova na linguagem de seu povo. Por isso, investiu profundamente em sua formação, abraçou a vida religiosa e se dedicou ao anúncio incansável de Cristo.
No momento do martírio, esse caminho alcança sua plenitude. A palavra se torna testemunho, e o anúncio, entrega total. Pregando já crucificado, Paulo Miki mostra que o discernimento inaciano não busca apenas fazer boas escolhas, mas conformar toda a vida ao modo de viver, amar e servir de Jesus.
Tiago Kisai: discernir no cotidiano e na fidelidade silenciosa
A vocação de Tiago Kisai revela que o discernimento não acontece apenas em grandes decisões, mas também na perseverança humilde do dia a dia. Sua história, marcada por perdas, frustrações e recomeços, mostra como Deus vai conduzindo lentamente aqueles que se mantêm disponíveis.
Ao escolher servir em tarefas simples, Kisai foi, pouco a pouco, percebendo que seu lugar era ali, na fidelidade cotidiana e na doação. Seu discernimento amadureceu no silêncio, na obediência e na constância.
Pouco antes do martírio, fez seus votos religiosos. Sua vida recorda que nunca é tarde para responder ao chamado e que o critério último do discernimento não é o sucesso, mas a maior disponibilidade para servir e amar.
João de Goto: discernir em meio às provações
João de Goto aprendeu a discernir em contexto de instabilidade, perseguição e deslocamento. Forçado a abandonar sua terra natal por causa da fé, precisou reconstruir sua vida em Nagasaki. Tornou-se catequista, dedicou-se à formação cristã e alimentou o desejo de ingressar na Companhia de Jesus.
Seu caminho mostra que o discernimento não elimina as dificuldades, mas ensina a atravessá-las com esperança. João foi aprendendo a confiar, mesmo quando o futuro parecia incerto, deixando-se conduzir passo a passo.
Ao fazer seus primeiros votos pouco antes da morte, selou sua trajetória com uma escolha definitiva: pertencer inteiramente a Deus, mesmo quando tudo parece ruir.
Uma pedagogia vocacional até a cruz
Na espiritualidade inaciana, o discernimento conduz à eleição, ou seja, à escolha concreta de um modo de viver que melhor nos ajude a amar e servir. Para Paulo Miki, João de Goto e Tiago Kisai, essa eleição os conduziu até a cruz, não por desejo de sofrimento, mas por amor radical e liberdade interior.
Na colina de Nagasaki, enquanto cantavam o Te Deum, esses três jesuítas revelaram o fruto mais maduro do discernimento: uma alegria serena, nascida da certeza de estar no lugar onde Deus os queria. Seu martírio não é exaltação da dor, mas proclamação da vida entregue, do amor sem reservas e da fé que não se negocia.
Um chamado para hoje
O testemunho desses mártires continua a nos interpelar. Em um mundo marcado pelo medo de compromissos duradouros e pela busca constante de segurança, eles nos recordam que a verdadeira alegria nasce quando a vida se torna dom.
Seguir Jesus hoje talvez não exija o martírio de sangue, mas certamente pede o martírio cotidiano do egoísmo, da indiferença, do comodismo e do medo de amar.
Paulo Miki, João de Goto e Tiago Kisai nos ensinam que a vocação não é apenas uma escolha, mas um processo contínuo de entrega, no qual vamos aprendendo, dia após dia, a dizer: “Tomai, Senhor, e recebei…”
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