Amós Santiago de Carvalho Mendes*
Introdução
Há uma cena do Evangelho segundo João que, de tempos em tempos, parece voltar à história com uma atualidade desconcertante: Jesus diante de Pilatos (cf. João, capítulos 18,28 a 19,16). De um lado, um homem aparentemente sem poder, maltratado, humilhado, prestes a ser condenado. Do outro, um representante do poder político, revestido de autoridade, preocupado com a ordem, com a própria reputação e com as consequências de suas decisões. Aos olhos do mundo (no sentido joanino, o mundo significando aqueles que não conhecem ou que rejeitam o Cristo), Pilatos parece estar acima, parece vencer e Jesus assoma como um derrotado.
No entanto, o Evangelho gosta de inverter nossas humanas certezas (e se não o fizesse, não seria Palavra da Salvação!). O Cristo não precisa gritar para afirmar sua verdade, não precisa ameaçar, perseguir, dominar ou humilhar, não veio “quebrar o caniço rachado” nem “apagar o pavio que fumega” (cf. Isaías 42, 3). Pilatos, por sua vez, embora tenha o poder nas mãos, parece cada vez mais prisioneiro dele; pode condenar, mas não consegue sequer sustentar com liberdade o que pensa, torna-se vulnerável diante da necessidade de preservar sua posição.
Talvez essa cena diga algo sobre nossa maneira de compreender a política, principalmente num Brasil tão polarizado. Afinal, quando falamos de escolhas políticas, geralmente começamos pelo fim: “Em quem você vai votar?”. “Você é de direita ou de esquerda?”. Como se a política pudesse ser reduzida a uma etiqueta, a uma bandeira ou a uma espécie de carteira de identidade. Antes de tudo, penso que nós devêssemos começar nossos questionários de pretensões políticas com outras interrogações, entre elas: o que orienta nossas escolhas? Uma consciência formada ou a necessidade de pertencer? Convicções amadurecidas ou discursos prontos? Valores ou interesses? Fé ou idolatria política? Antes de escolher um candidato, um partido ou uma proposta, somos convidados a perguntar o que está por detrás de nossa escolha, daquilo que afirmamos como valores e, outrossim, detrás da nossa consciência. Estamos realmente refletindo nossas escolhas? Conhecemos as propostas daqueles que nos propusemos a defender? Confrontamos discursos e projetos diferentes? Avaliamos trajetórias? Ou simplesmente porque alguém em quem confiamos ou alguém de nossa “bolha ideológica” disse que aquele é “o candidato certo”?
As perguntas nos são cada vez mais incômodas, uma vez que vivemos numa época em que pensar parece ter se tornado mais difícil do que repetir, sobretudo porque as redes sociais nos oferecem diariamente opiniões, argumentos, indignações e até “inimigos” prontos. Bastam alguns segundos para compartilhar uma notícia que confirma aquilo em que já acreditávamos, pouco importa se é verdadeira, exagerada ou completamente falsa, importa apenas que ela seja “do nosso lado”…
O que fica quando nossas confortáveis e brilhantes “bolhas” estouram? Só o vazio de quem se banha “nas águas do equívoco”. E é aí que muitos vão sempre mergulhando no mesmo “lago” de ideias, bebendo da mesma água parada, e regressam à tona “apodrecidos”; somente o termômetro do bom discernimento é que pode tornar plácidas essas águas, deixando as coisas mais nítidas, tão serenas como um céu de domingo. A grande pergunta, por fim, seria: o que está formando nossa consciência?
1. Uma consciência livre diante do poder
Ora, uma consciência responsável não pode ser construída apenas por aquilo que queremos ouvir, uma vez que ela nos solicita também uma (heroica) capacidade de escutar aquilo que nos incomoda. Ademais, tal consciência necessita de informação, estudo, diálogo, silêncio, confronto (saudável) e, sobretudo, liberdade interior, algo cada vez mais em “extinção”, por assim dizer. Tudo isso vale, ou deveria valer também para as pessoas de fé, especialmente as que creem no Espírito Santo que atuou nos concílios da Igreja Católica, a qual reafirma fortemente que “a consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus” (Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, n. 16).
Existe uma tentação permanente de transformar a religião em uma espécie de selo de autenticidade política, como se bastasse alguém pronunciar “Deus”, “família”, “valores cristãos”, por exemplo, ou citar meia dúzia de versículos para que automaticamente suas propostas se tornassem expressão da vontade divina. A boa notícia é que Deus não precisa de “cabo eleitoral”; muito menos que estejamos com a espada na mão à espera do primeiro descontentamento para aniquilar nossos opositores; pois o seu Reino “não é deste mundo” (cf. João 18,36).
Assim, a fé cristã não pode ser reduzida a uma ferramenta para legitimar projetos de poder; nenhum deles. Historicamente se pôde ver que, quando a religião serviu para blindar privilégios, justificar violência ou transformar determinado político em uma espécie de “messias”, já não é mais uma fé que liberta, mas uma (aparente) religiosidade domesticada pelo poder. Foi justamente isso que o Profeta Amós, bem antes de Cristo, percebeu ao gritar contra uma religião que continuava funcionando, festas, práticas e, inclusive, louvores que continuavam acontecendo enquanto alguns (sim, os pobres!) eram esmagados (cf. Amós 5,21-23).
O culto pode permanecer, mas a justiça pode já haver desaparecido… O preocupante de tudo isso é: a que deus se direciona tais cultos? A quem sobem esses louvores? Em outros termos, de que adianta uma fé que fecha os olhos para a realidade? Pode-se orar muito e continuar sendo incapaz de ouvir o grito de quem sofre… Pode-se defender apaixonadamente uma determinada moral e, ao mesmo tempo, tratar o outro com desprezo. Podemos conhecer documentos, repetir doutrinas, frequentar celebrações e, ainda assim, entregar nossa consciência a um líder político simplesmente porque ele fala a linguagem religiosa que desejamos ouvir ou veste a estética que esperamos ver num líder (projeções?).
Vem a calhar a expressão também profética do saudoso Papa Francisco, na fidelidade ao pensamento do Concílio Vaticano II, ao afirmar que “somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (Exortação Apostólica “Amoris Laetitia”, n. 37). e Há uma diferença enorme entre uma fé que forma a consciência e uma fé que a substitui. Tal pensamento, tão pertinente, tão oportuno, necessariamente diferencia dois tipos de fé: uma que nos torna mais livres e outra, que pode nos tornar dependentes. Neste sentido, pode-se afirmar que o primeiro requisito de um discernimento político responsável é não entregar a própria consciência a ninguém, ou seja, não terceirizar a própria consciência, seja para um partido, seja para um candidato, um “influenciador” ou mesmo para uma liderança religiosa (!).
Destarte, quem precisa ciosamente preservar a própria imagem e o próprio poder dificilmente conseguirá discernir livremente e a verdadeira liberdade não consiste, simplesmente, em poder escolher (um jacaré, por exemplo, que tem dedos, pode teclar nas urnas); mas é não permitir que outros escolham em lugar de nossa própria consciência, que necessita, então, ser muito bem formada (a propósito, o que ou quem forma a sua consciência?).
Voltando à cena bíblica do Pretório, Jesus diante de Pilatos, então, pode ser revista como uma imagem extraordinária dessa liberdade. O Cristo possui o verdadeiro poder, mas não precisa exercê-lo para dominar. Sua autoridade nasce do testemunho: “Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37), verdade essa, porém, que não é apresentada como uma arma para esmagar o outro, muito menos para condená-lo, mas é apresentada como uma pessoa, um Outro, o próprio Cristo, caminho, verdade e vida (cf. João 14,6).
2. Valores que se reconhecem no rosto do outro
É sabido que antes de escolher, é preciso discernir, e nesse processo está implicado o agir de uma consciência bem formada e desimpedida. Não obstante, ser livre para escolher não significa escolher de qualquer maneira. Pode-se afirmar, então, que a liberdade precisa de critérios e é justamente nisso que entra aquilo que se concebe como valores.
Ora, todos nós gostamos de dizer que defendemos valores (principalmente os candidatos aos pleitos eleitorais!), mas o problema crucial talvez seja reconhecer que aquilo que defendemos continua valendo quando nos deixa de ser conveniente, quando nos contraria. Neste sentido, podemos até afirmar que defendemos a vida, mas qual vida? Que defendemos a família, mas quais famílias? Que defendemos a democracia, mas até que ponto aceitamos os resultados quando aqueles que queríamos não vencem? Que defendemos os pobres, mas conseguimos enxergá-los quando sua pobreza questiona nosso modo de viver? Tais perguntas podem nos gerar mordência quando nos confronta a Palavra do Senhor, a qual sempre insiste em nos levar ao chão da existência, onde a vida acontece. É muito fácil defender valores à altura dos púlpitos.
“Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16), uma ordem muito comprometedora, estonteante para os discípulos iniciantes de Jesus, que certamente prefeririam ter apenas escutado uma comovente reflexão sobre a fome, uma explicação teologicamente impactante sobre a importância da solidariedade ou mais uma bela lição sobre a compaixão. Sem embargo, Jesus decidiu pelo caminho mais direto e desconcertante, manda que eles deem de comer aos demais.
O fato é que “Jesus é Verbo, não substantivo” (em espanhol, “Jesús, Verbo No Sustantivo” nome de uma canção e do segundo álbum de estúdio lançado em 1988 pelo cantor e compositor guatemalteco Ricardo Arjona). Logo, o “Logos” implica uma prática, atitudes, e é exatamente aí que o divino deseja encontrar “carne” para encarnar-se e a fé deseja encontrar a vida. E é justamente até este ponto que o nosso discernimento político precisa amadurecer, de modo que cada valor deve se tornar concreto na relação com, no rosto do outro. Em suma, um discernimento responsável exige coerência entre o que se grita dos palanques e o que se vê na cotidianidade da vida.
Assim, não basta perguntar qual candidato “defende meus valores”. É preciso perguntar o que esses valores significam concretamente e quais consequências terão sobre a vida das pessoas, uma vez que uma escolha política não resvala no vazio, pois sempre afeta ou deixa de afetar alguém, produzindo consequências. Afeta políticas públicas, oportunidades, direitos, serviços, relações sociais, vidas concretas. Por isso, é inimaginável um discernimento político verdadeiramente cristão que não leve em consideração os pobres, os vulneráveis, os invisibilizados, os que não têm voz ou não conseguem ocupar os mesmos espaços de poder.
Como dito alhures, o Profeta Amós não fez uma defesa abstrata da justiça, mas apontou para aqueles que estavam sendo concretamente desprezados, oprimidos. Por outro lado, Nossa Mãe Maria Santíssima, no seu “Magnificat” não canta apenas uma experiência espiritual intimista, mas proclama, engrandece o Deus que derruba do trono os poderosos e eleva os humildes (cf. Lc 1,52). Além disso, como indagou criticamente o primeiro santo chileno, Padre Alberto Hurtado, diante do catolicismo chileno: “¿Es Chile un país católico?” (título de seu livro lançado em 1941), de forma profética e similar precisamos questionar: o Brasil é, realmente, um país cristão?
E quais valores deveriam orientar uma escolha política pertinente às pessoas de fé? Tudo aquilo que vem elencado no chamado “Ensino Social da Igreja”, a saber, a dignidade humana, liberdade, fraternidade, cuidado com os vulneráveis, democracia, verdade, bem comum e tantas outros elementos compreendidos pela fé e pela razão. Neste sentido, merece ênfase a própria justiça, que muito além de algo restrito às virtudes cristãs e às garantias meramente individuais, é abordada como dimensão de “justiça social”, que é reguladora de diversas ações e diz respeito aos aspectos sociais, políticos e econômicos (Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, 2005).
Tudo leva a crer que é preciso desconfiar quando a defesa de determinados valores começa a ficar seletiva demais, quando se defende a vida de uns, sendo indiferentes à vida de outros, quando se denuncia uma violência, mas se relativiza outra porque foi cometida por alguém de nosso campo político; quando exigimos ética dos adversários, mas encontramos mil justificativas para os nossos. Adentrar nesses campos é fugir da zona de coerência, é invadir a área da torcida; e a fé não pode ser transformada em torcida, pois a política não é um jogo e, se assim for encarada, quem mais sofrerá serão os que se encontram na grama, os pisoteados.
Assim, uma consciência verdadeiramente cristã não pergunta apenas: “O que eu quero defender?”. Ela precisa aprender a perguntar também: “Quem está diante de mim?”, porquanto que, no fim das contas, os valores só se tornam verdadeiramente valores quando encontram um rosto. Eis uma das maiores belezas (e dificuldades) da experiência cristã, justamente a capacidade de ser incomodada pelo outro. O outro que sofre, o outro que pensa diferente, o outro que não pertence ao nosso grupo, o outro que professa outra religião, o outro que talvez nem compreenda a nossa fé, que jamais poderá ser imposta, mesmo pelos caminhos da política.
3. Escolher sem transformar o diferente em inimigo
Chegamos, então, à escolha. E escolher é assumir responsabilidade. Talvez seja justamente aqui que nossa época se encontre mais adoecida, não por confrontos de encarnados, mas por conflitos cada vez mais encarniçados, uma vez que temos transformado nossas escolhas políticas em batalhas de identidade. Assim, já não basta discordar de alguém, é preciso desqualificá-lo; já não basta apresentar uma proposta, é preciso destruir a reputação do adversário; e já não é suficiente defendermos uma posição, precisamos nos convencer de que quem pensa diferente é mau, ignorante, inferior, numa palavra: um inimigo.
E isso, infelizmente, tem acontecido também dentro das comunidades religiosas, pois há cristãos que parecem acreditar que sua opção política é quase uma extensão do Credo; outros tratam determinado político como “salvador da pátria”, paladino da fé e da moral e, assim, o adversário é visto como encarnação de todo o mal. Há também quem cite as Sagradas Escrituras para justificar sua preferência eleitoral, numa escancarada deturpação e manipulação da fé. Tudo leva a crer que precisemos recuperar, não apenas o equilíbrio e o respeito, mas também o sentido de pertença eclesial, o dom da unidade.
Indubitavelmente, reside aí, em potencial, uma das grandes oportunidades e um dos grandes testemunhos que a Igreja pode oferecer ao mundo de hoje, a saber, a capacidade de ter convicções firmes sem transformar o diferente em inimigo, de discordar profundamente e continuar reconhecendo a dignidade daquele que discorda, pois a diferença não precisa produzir ódio e é plenamente possível votar de maneira diferente dentro de uma mesma comunidade cristã e continuar rezando, celebrando e trabalhando juntos pelo bem comum. Isso jamais significaria cair em um relativismo confortável, como se tudo fosse igual e nenhuma escolha tivesse importância.
É justamente isso que caracteriza uma Igreja descentralizada, em saída, que não vai apenas ao encontro de quem pensa como ela, mas é capaz de atravessar fronteiras, conversar com os diferentes, ouvir quem não frequenta seus espaços e reconhecer que Deus continua sendo maior do que as pequenas convenções, sejam pessoais, sejam sociais, e o essencial deve ser sempre salvaguardado. Os santos nos ensinaram demasiadamente sobre isso. Entre tantos exemplos, pode-se mencionar São João Bosco, que viveu no contexto da Itália em processo de unificação e, entre turbulências políticas, revolução industrial e conflitos ideológicos, soube enxergar a juventude mais vulnerável e teve consciência de que, sem um compromisso com as causas temporais, mediante alojamento, alimento e formação profissional (as quais implicam decisões políticas), tornavam-se inúteis os meios espirituais. (WIRTH, 1971).
Ora, a política, em si, pode ser também um projeto de salvação e, para tanto, precisa dar passos, precisa reaprender a conversar, a discordar, a reconhecer erros e até mesmo a mudar de opinião quando necessário. Destarte é que o discernimento político responsável poderá ser compreendido como um caminho que começa na consciência, passa pelos valores e chega às escolhas. Tal caminho requer, a princípio, ser livres para pensar; depois, é necessário confrontar aquilo que pensamos com os valores que professamos; finalmente, precisamos escolher assumindo as consequências de nossas decisões, implicando um futuro acompanhamento delas.
Se minha escolha me torna mais intolerante, violento, arrogante, incapaz de ouvir, talvez eu precise voltar ao começo e perguntar novamente pelo fundamento da minha consciência. Ademais, por outro lado, se a minha fé me faz incapaz de reconhecer a dignidade daquele que pensa diferente, talvez seja preciso perguntar que tipo de fé estou professando e, quanto aos valores cristãos, quando sua defesa me leva a justificar a injustiça, a violência, a mentira ou a humilhação do outro, talvez eu esteja defendendo mais a minha ideologia do que o Evangelho.
Ademais, é mister trazer ainda perguntas que deveriam acompanhar todas as nossas escolhas políticas, as quais vão muito além da simples “em quem eu voto?”. Isso porque um discernimento profundo e verdadeiro começa justamente quando deixamos de perguntar apenas de que lado estão os outros e temos coragem de perguntar: E quanto a mim, de que lado estou? Do lado daqueles que precisam dominar para se sentirem fortes ou do lado daquele que, tendo poder, escolheu não utilizá-lo para esmagar ninguém? Afinal, quem estou me tornando enquanto escolho?
Observa-se que a fé pautada no Cristo-Verdade jamais fornecerá uma “lista de candidatos corretos”; mas ela pode, antes, e sempre desejará formar pessoas capazes de discernir responsavelmente e, mormente, desejosas de se comprometer com o outro, com o bem comum, com a vida, em todas as suas expressões. Tudo isso vem ao encontro de uma célebre frase de Dom Bosco: “Deus nos colocou neste mundo para os outros”.
Considerações finais
A cena de Jesus diante de Pilatos continua diante de nós. O poder que domina continua disputando espaço com o poder que serve, a soberba continua tentando falar mais alto que a mansidão e a verdade continua sendo confundida com aquilo que nos convém. Ademais, nós, tantas vezes, acabamos escolhendo tão mal, mandamos novamente crucificar Jesus e soltar Barrabás (cf. Marcos 15,1-20). A vida em sociedade requer política e a política requer um discernimento de excelência.
Esse discernimento político responsável não começa na escolha de um candidato ou de uma ideologia, mas na formação de uma consciência capaz de reconhecer valores, confrontá-los com a realidade e assumir livremente as consequências de suas escolhas. Já uma consciência cristã que se pretenda responsável não pode terceirizar suas escolhas políticas nem para um partido, nem para um líder, nem para uma ideologia, nem sequer para uma autoridade religiosa, mas precisa discernir, confrontar seus valores com a realidade e assumir responsavelmente cada uma de suas escolhas.
Neste sentido, acerca da relação entre fé e política, precisaremos sempre nos colocar diante desse caminho de forma crítica, evitando os extremismos, as deturpações, manipulações e, sobretudo uma adesão automática a discursos políticos ou ideológicos que se revestem de uma religiosidade ou pretendem defender os “valores cristãos”. A discussão aqui empreendida leva a constatar que não se pode falar em valores se não for à luz do rosto concreto dos demais.
Entre a consciência, os valores e a escolha existe um espaço precioso, o da própria liberdade. É nele que nossa responsabilidade começa, que a política deixa de ser apenas disputa de poder e pode voltar a ser aquilo que deveria ser, uma forma concreta de cuidar da vida comum. E talvez seja justamente aí que a fé tenha ainda alguma coisa importante a dizer à política, a saber, que o poder não existe para nos tornar maiores que os outros, mas para nos tornar responsáveis pelos outros.
* Religioso de votos perpétuos na Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos de Dom Bosco); Diácono transitório. Advogado; Bacharel em Direito e Especialista em Direitos Humanos e Movimentos Sociais pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Técnico em Serviços Públicos pelo Instituto Federal do Piauí (IFPI), Bacharel em Filosofia e bacharelando em Teologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL).
Referências:
ARJONA, Ricardo. Jesús, verbo no sustantivo. In: ARJONA, Ricardo. Jesús, verbo no sustantivo. Guatemala: DIDECA, 1988. 1 disco sonoro.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo atual. Vaticano, 1965. Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2026.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Bíblia Sagrada: tradução oficial da CNBB. Brasília, DF: Edições CNBB, 2018.
FRANCISCO, Papa. Amoris laetitia: exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família. Vaticano, 19 mar. 2016. Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2026.
HURTADO CRUCHAGA, Alberto. ¿Es Chile un país católico? Santiago: Splendor, 1941.
PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Brasília, DF: Edições CNBB, 2005.
WIRTH, Morand. Dom Bosco e os Salesianos. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1971.







