Ir. Douglas Turri, SJ
Entre caminhos e direções
De onde vem aquilo que nos move? O que, de fato, sustenta as escolhas mais profundas da existência? Talvez essas perguntas pareçam abstratas até o momento em que percebemos o quanto a vida pode continuar em movimento, mesmo sem uma direção clara.
Quem passa pela Estação da Sé, no centro de São Paulo, dificilmente permanece indiferente ao movimento que atravessa aquele lugar. Gente chegando de todos os lados, passos acelerados, encontros breves, vozes, avisos sonoros, trens que chegam e partem quase sem interrupção. Há quem caminhe com pressa, quem olhe repetidamente para os painéis tentando encontrar a plataforma correta, quem já percorra aquele caminho quase no automático. Tudo parece estar em constante movimento.
Existe ali uma impressionante estrutura de deslocamento: linhas que atravessam a cidade, conexões, integrações, mapas, diferentes possibilidades de percurso. Há meios para chegar a muitos lugares. Mas, em meio a toda essa engrenagem, uma coisa continua indispensável: saber para onde se deseja ir.
Uma frase de Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas, expressa isso de maneira simples e provocativa. Perdida diante de diferentes caminhos, Alice pergunta qual direção deveria seguir. A resposta que recebe é direta: “Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve”.
Algo semelhante parece acontecer também com a própria vida. Em muitos momentos, a dificuldade não está na ausência de possibilidades. Pelo contrário: há caminhos, escolhas, experiências, projetos, desejos. Somos continuamente atravessados por novas possibilidades. A dificuldade começa quando já não sabemos claramente o que orienta nossas escolhas, o que sustenta nossos desejos ou o que, de fato, dá unidade à existência.
E, quando isso acontece, cresce também a possibilidade de permitir que outros ocupem esse lugar. O desempenho, a necessidade de reconhecimento, o medo de ficar para trás, as expectativas externas ou até mesmo modelos religiosos assumidos sem verdadeiro discernimento podem acabar organizando silenciosamente a vida. Não porque tenham sido realmente escolhidos, mas, pela ausência de um horizonte mais profundo, qualquer direção parece se tornar suficiente para continuar caminhando.
Byung-Chul Han observa que uma das marcas da experiência contemporânea é justamente a dificuldade de permanecer diante daquilo que exige profundidade, silêncio e interioridade. Em meio ao excesso de estímulos, informações e possibilidades, torna-se cada vez mais difícil sustentar experiências de silêncio e permanência. Vive-se reagindo continuamente aos movimentos da vida sem conseguir integrá-los em uma direção mais profunda.
Por isso, palavras como sentido, vocação, princípio ou fundamento frequentemente soam estranhas hoje. Não porque o ser humano tenha deixado de buscar algo que dê direção à vida, mas por já não parecer tão evidente aquilo que pode sustentar a existência em profundidade, entre tantas vozes, possibilidades e caminhos.
O que sustenta uma vida humana? O que dá unidade às escolhas? O que impede que a existência se transforme apenas em uma sucessão fragmentada de experiências e decisões provisórias? Nesse contexto, a expressão “Princípio e Fundamento”, usada por Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais (Exercícios Espirituais, n.23) volta a tornar-se uma pergunta decisiva.
O que sustenta a existência humana?
Mas o que significa, afinal, possuir um princípio e um fundamento?
No fundo, toda vida acaba sendo organizada ao redor de alguma coisa, mesmo quando isso não acontece de maneira consciente. Há sempre algo que ocupa o centro das escolhas, dos afetos, das buscas e do modo de viver. A pergunta decisiva talvez não seja se possuímos ou não um fundamento, mas qual fundamento, de fato, sustenta a nossa existência.
É nesse horizonte que Inácio de Loyola inicia os Exercícios Espirituais pelo chamado “Princípio e Fundamento” (Exercícios Espirituais, n. 23). Antes de falar sobre discernimento, eleição ou projeto de vida, Inácio recoloca uma pergunta anterior: para que existe o ser humano? O que, afinal, dá direção e unidade à vida?
A própria escolha dessas palavras não é casual. O cardeal jesuíta Carlo Maria Martini recorda que “princípio” se refere àquilo do qual partimos, enquanto “fundamento” indica aquilo que sustenta todo o restante do caminho. Não se trata, portanto, de uma reflexão abstrata sobre Deus, mas daquilo que deve orientar concretamente a existência humana. Por isso, o “Princípio e Fundamento” não ocupa um lugar secundário nos Exercícios Espirituais. Ele opera como a base sobre a qual o restante do itinerário inaciano será construído. Antes das grandes decisões, Inácio procura esclarecer aquilo que deve orientar todas as escolhas: o fim para o qual o ser humano existe.
É nesse horizonte que surge a afirmação central do número 23 dos Exercícios Espirituais: “O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim, salvar a sua alma” (Exercícios Espirituais, n. 23). À primeira vista, essa linguagem pode soar distante ou excessivamente serviçal para o leitor contemporâneo. No entanto, a intenção de Inácio não é oferecer uma fórmula religiosa abstrata, mas indicar aquilo que pode dar direção e unidade à existência humana.
O jesuíta Luís González Quevedo recorda que, no horizonte inaciano, o ser humano não é compreendido como um “ser à toa”, mas como um “ser para”, orientado para um fim que dá direção às escolhas, aos afetos e ao próprio modo de viver. Logo, o “Princípio e Fundamento” não reduz a complexidade da vida humana. Pelo contrário, procura integrá-la a partir de um horizonte capaz de dar sentido às múltiplas dimensões da existência. A experiência cristã apresenta aqui sua afirmação mais profunda: o fundamento último da vida humana não está no fechamento sobre si mesma, mas na relação com Deus.
Deus que chama à comunhão
Mas que relação é essa capaz de sustentar a existência humana?
A tradição cristã responde a essa pergunta a partir da revelação de um Deus que cria por amor e continuamente chama à vida humana a participar desse amor. Por trás da linguagem breve e densa de Inácio, existe uma compreensão profundamente relacional da existência humana. O ser humano não é pensado como alguém fechado em si mesmo, mas como alguém criado por amor, sustentado por uma presença que toma a iniciativa do encontro e chamado a viver em relação.
Por essa razão, o fundamento da vida cristã não consiste primeiramente no cumprimento de normas, na realização automatizada de tarefas religiosas ou na busca individual da perfeição espiritual. Antes de tudo, trata-se de reconhecer-se alcançado por um Deus que toma a iniciativa do encontro. Como recorda Jesus no Evangelho de João: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16).
A Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, expressa isso de maneira profundamente bela ao afirmar que Deus “fala aos homens como amigos” (Dei Verbum, n.2). A revelação cristã não nasce, portanto, de um Deus distante ou indiferente à existência humana, mas de um Deus que deseja comunicar-se, entrar em relação e convidar continuamente a vida humana à comunhão consigo.
É justamente essa dinâmica que atravessa toda a narrativa bíblica do Antigo ao Novo Testamento. Abraão é chamado a partir de sua terra sem saber exatamente para onde iria (Gn 12,1). Moisés escuta seu nome diante da sarça ardente (Ex 3,4). Jeremias descobre-se conhecido antes mesmo de nascer (Jr 1,5). Os discípulos são chamados às margens do lago por um simples e decisivo convite: “Segue-me” (Mt 4,19).
Antes da decisão humana, antes da busca consciente, antes mesmo de se compreender plenamente aquilo que acontece dentro de si, a pessoa já está envolvida por uma presença que chama. Há uma voz que antecede os próprios passos, um amor que toma a iniciativa, um Deus que continuamente se dirige à vida humana. Nesse horizonte, a própria palavra “vocação” recupera sua força mais profunda. Ela deriva do verbo latino vocare que significa “chamar”. Por trás dela está também a raiz vox, vocis, que significa “voz”. Portanto, a vocação nasce da experiência de alguém que é chamado.
E isso muda profundamente a maneira de compreender a própria existência. A vida deixa de ser compreendida apenas como construção individual de um projeto pessoal e passa a ser percebida também como resposta. Antes de perguntar apenas “o que quero fazer da minha vida?”, a experiência vocacional introduz outra pergunta: “a que ou a quem minha vida está sendo chamada?”.
Reordenar a vida a partir de um novo centro
É justamente a partir dessa compreensão que Inácio começa a olhar também para todas as outras realidades da vida humana. Se o ser humano encontra seu fundamento último na relação com Deus, então tudo o mais, projetos, afetos, bens, reconhecimento, desejos, capacidades, relações e escolhas, passa a ser compreendido a partir dessa direção maior. As coisas criadas deixam de ocupar o centro da existência e passam a ser percebidas como meios que podem ajudar ou dificultar o caminho humano em direção ao seu fim.
Essa é uma das intuições mais profundas do “Princípio e Fundamento”. Inácio não propõe rejeição do mundo, desprezo pelas realidades humanas e nem mesmo fuga da existência concreta. Pelo contrário, tudo pode tornar-se lugar de encontro com Deus, desde que não ocupe o lugar do próprio fundamento. Portanto, o problema não está simplesmente nas coisas, nos desejos ou nas experiências humanas, mas na maneira como nos relacionamos com elas. Quando determinadas buscas, como a necessidade de reconhecimento, poder, segurança, prestígio ou controle, passam a organizar a existência, a própria capacidade de discernir torna-se mais confusa.
Ao recordar, em sua Autobiografia (n. 30), a experiência vivida às margens do rio Cardoner, Inácio descreve um momento em que “abriram-se lhe os olhos do entendimento” e tudo lhe parecia novo. Não se tratava de abandonar a realidade humana, mas de reenxergá-la a partir de um novo centro.
A partir dessa experiência, Inácio começa gradualmente a perceber que a vida humana só encontra verdadeira unidade quando Deus deixa de ser apenas uma ideia religiosa e passa a ser um horizonte concreto capaz de reorganizar desejos, afetos e escolhas. Nesse sentido, a experiência inaciana aproxima-se profundamente da intuição apresentada pela Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, ao afirmar que o ser humano “não pode encontrar-se plenamente senão no sincero dom de si mesmo” (Gaudium et Spes, n. 24).
A existência humana não encontra sua plenitude no fechamento sobre si mesma, mas na capacidade de sair de si, relacionar-se, amar e responder ao chamado de Deus. É justamente esse movimento que começa a reorganizar toda a vida a partir de um novo centro. À vista disso, o “Princípio e Fundamento” revela toda a sua importância também para a experiência do acompanhamento vocacional.
Antes de ajudar alguém a escolher um caminho específico, Inácio parece preocupar-se com algo ainda mais fundamental: ajudar a pessoa a reencontrar aquilo que pode dar unidade e direção à própria existência. Então, o acompanhamento vocacional não começa simplesmente com a pergunta “qual vocação escolher?”, mas com uma questão anterior e mais profunda: o que, de fato, ocupa o centro da vida humana? Qual voz está conduzindo a existência? O que verdadeiramente sustenta os desejos, afetos e escolhas?
A experiência de Inácio às margens do Cardoner ajuda a compreender isso de maneira muito concreta. O que acontece ali não é apenas uma mudança intelectual ou uma nova compreensão teórica da fé, mas uma iluminação interior capaz de reorganizar profundamente seu olhar sobre Deus, sobre si mesmo e sobre toda a realidade. A vida começa a ganhar unidade a partir de um novo centro.
Talvez seja justamente essa a experiência que o caminho inaciano procura favorecer. Antes das grandes decisões, antes das escolhas concretas de estado de vida ou missão, existe um processo mais profundo de escuta e ordenação interior. Um caminho no qual a pessoa aprende gradualmente a reconhecer aquilo que mais conduz à vida, ao amor, ao seguimento de Jesus e ao fim para o qual foi criada.
Somente a partir desse horizonte o discernimento pode tornar-se verdadeiramente livre e consciente, porque, no fundo, não se trata apenas de escolher entre possibilidades, mas de reconhecer para onde e para quem a própria vida está sendo conduzida.
REFERÊNCIAS:
CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum. Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina. 1965.
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual. 1965.
HAN, Byung-Chul. A salvação do belo. Petrópolis: Vozes, 2019.
INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola.
INÁCIO DE LOYOLA. Autobiografia. São Paulo: Loyola.
MARTINI, Carlo Maria. Ordenar a própria vida. Tradução de Orlando Soares Moreira. São Paulo: Loyola, 2021.
QUEVEDO, Luís González, SJ. “Princípio e Fundamento”. Itaici: Revista de Espiritualidade Inaciana, n. 23, 1996, p. 32-43.







